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António José de Melo, um dos últimos calafates dos Açores

Já perdeu a conta aos barcos de boca aberta que já construiu mas o último foi há quatro anos. O vilafranquense conta ao Diário da Lagoa como é construir embarcações

António José de Melo tem 65 anos e é natural de Vila Franca do Campo © ACÁCIO MATEUS

À procura de quem ainda constrói barcos de boca aberta em madeira, na ilha de São Miguel, quisemos saber mais sobre a arte, tendo surgido o nome de António José de Melo, natural de Vila Franca do Campo. Com o nome e uma indicação, o Diário da Lagoa (DL) saiu da redação rumo à antiga capital da ilha. Com um “fica no porto da Vila”, lá chegamos e após abordar os locais bateu-se à porta de um armazém, pintado de ferrugem devido à erosão provocada pelo sal do mar. Apenas alguns instantes depois aparece António José de Melo, com um balde na mão, e dirige-se calmamente até nós. Convida-nos a entrar e começa por contar que tem “65 marés” numa alusão à sua ligação com ao mar.

Ao DL conta que a sua vida profissional começou aos 10 anos “após acabar a escola”. Aprendeu a arte de calafate com o seu pai que trabalhava como chefe de construção naval na Sociedade Corretora. “Fiz os meus 11 anos na doca”, revela, acrescentando que ali permaneceu por seis anos. 

Com 16 anos decidiu “mudar de ares” e trocou a madeira pelo betão, dedicando-se à construção civil, até “embarcar para a América”. Nos Estados Unidos trabalhou durante dois anos na construção naval em New Bedford, Massachusetts. Já com o conhecimento e experiência regressa a Portugal e à construção naval. “Eu gostava e gosto”, salienta. Nessa altura instala-se numa oficina “ao relento”, descreve, enquanto ironiza a rir: “a pele ambienta-se ao clima.”

É em 1982 que começa a trabalhar “por conta própria” e desde então deixou de contar quantos barcos construiu, embora consiga enumerar alguns lugares e os nomes por onde andam os que lhe marcaram.

“A construção com madeira está um bocado esquisita, caiu um pouco”, lamenta quando o questionamos sobre os barcos de boca aberta. E ao ver a nossa curiosidade começa por explicar o processo de construção em madeira, esclarecendo que um barco de boca aberta “por lei, pode ir até aos 11 metros e 99 centímetros”.

A certa altura conta que construiu um único barco que antigamente fazia a travessia de passageiros até ao Ilheu de Vila Franca: o Cruzeiro do Ilhéu. 

“Foi o primeiro barco que fiz cortado atrás. Levei anos a batalhar para fazer um barco cortado. Foi batizado em 1991, na altura inaugurado com um motor de 35 cavalos e passava à frente dos 96 cavalos. Não havia barco nenhum que lhe tocava”, diz.

Perguntamos como é que se sente quando vê um barco feito por si a ser abatido mas prontamente atira: “acho que não tive ainda um que tivesse sido abatido.”

“Temos aqui um pescador no porto que queria abater o barco, um barco bastante grande que fiz há quase 40 anos. Está ali na rampa: ‘Jesus luz do mundo’. Ele queria abater só que agora percebe que 30 mil euros não compensa.” Quanto ao último barco de boca aberta que construiu faz uma pausa e diz que “foi há quatro anos”.

Lamenta que “hoje em dia as reparações são pequenas” e revela que “há muito tempo que já não encomenda madeira”.

Nem só da construção naval vive o calafate

© ACÁCIO MATEUS

António Melo também se dedica a obras de conservação e restauro. Ao DL revela que o tecto da ermida da Caloura, em Água de Pau, teve a sua mão. Atualmente aguarda há dois anos, devido à burocracia, para iniciar a recuperação de dois botes baleeiros, um deles vindo de um museu em França e o outro de Santa Maria, no âmbito do Programa de Recuperação do Património Baleeiro dos Açores. Mas António lamenta a burocracia que tudo atrasa.

O vilafranquense também foi “criado entre violas”, referindo-se à viola da terra. Constrói-as há 22 anos, o que resultou de uma “aprendizagem quase própria” por ser “uma herança de família”. 

“Já o meu bisavó fazia violas da terra, Mariano Jacinto de Melo, e o meu tio, Miguel de Melo, também já era construtor”. 

“Quando regressava da escola com os irmãos “tínhamos sempre sisal para amarrar e colagem de madeira”, recorda.

Na arte de trabalhar a madeira, António Melo diz que se orgulha do seu percurso e que “a viola da terra está em alta”, mas confessa que na construção de barcos, é dos últimos calafates que conhece.

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Clife BotelhoDirector

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