
Clife Botelho
Diretor do Diário da Lagoa
No mês em que celebra 11 anos de edição impressa, o Diário da Lagoa prepara-se para regressar à sua essência local. Esta decisão marca o fim de uma viagem e um retorno à missão original, a de ser um registo de memórias e da identidade do concelho.
Em 2023, iniciámos uma experiência de expansão, procurando novos caminhos e públicos fora das cinco freguesias da Lagoa. O objetivo era claro: assegurar a sustentabilidade. Tínhamos a ambição de ir além, de ser o diário que contava outras histórias, de outros lugares, ilhas e da nossa diáspora. Essa jornada, no entanto, serviu para uma importante lição. Embora tenhamos conquistado novos leitores, o título do jornal continuou a ser um obstáculo. A resistência ao nome “Diário da Lagoa” dificultou a fidelização e angariação de anunciantes fora do concelho, comprometendo a sustentabilidade. Sem capacidade para crescer, a experiência, afinal, levou-nos a uma conclusão: o futuro está nas nossas raízes.
É tempo de voltar ao ponto de partida. Por isso as edições em papel deste ano têm regressado, gradualmente, ao espaço geográfico da Lagoa, dando razão aos que defendem uma matriz mais local. A tendência atual revela esse caminho, por isso esta edição será a última em modo de viagem. A intenção nesta é promover o debate, abalar estruturas de pensamento ao revelar uma realidade que a maioria do público desconhece.
Este retorno, porém, só será possível com o apoio da comunidade que nos lê. É nos leitores que depositamos esperança. Onde houver leitores, há instituições, entidades e empresas, especialmente na Lagoa, onde apelamos para que valorizem e apoiem as páginas que lhes dão voz e visibilidade. O Diário da Lagoa é património e a sua preservação é responsabilidade de todos e não pode recair somente nos ombros de uma família ou de uma editora, nem sujeitar-se ao risco de ficar refém de grupos de interesse ou económicos. O jornalismo não é um negócio, caso contrário arrisca-se a servir agendas obscuras. Dirigimo-nos, por isso, também ao Governo dos Açores: a prometida publicidade institucional é vital para a sobrevivência de jornais, revistas e rádios. Até agora, em 2025, não passa de uma promessa. Entretanto, os jornais têm revelado que só conseguem subsistir com uma base de apoios públicos, sejam locais, regionais ou nacionais, que reconheçam a importância do jornalismo na salvaguarda da democracia e da liberdade. Quem discorda, desafio que contribua ou que prove o contrário. Atrevo-me a afirmar que quem defende que o setor público não deve apoiar os media desconhece os valores que nutrem a missão daqueles que são, atualmente e na maioria, “heróis precários”. Os apoios aos media privados cumprem critérios de elegibilidade, tal como os existentes para outros setores. Neste sentido, tal como já acontece noutros lugares da Europa, o Governo regional criou um programa de apoios, o “SIM – Sistema de Incentivos aos Media Privados dos Açores”, uma versão melhorada do antigo “Promedia”. Foi devolvida a esperança e adiou-se a extinção de alguns projetos, mas falta aplicar uma distribuição mais justa da publicidade que foi prometida e anunciada. Até lá, continuamos a correr contra o relógio.
El Diário da Lagoa acabou com um vazio de 77 anos ao devolver à Lagoa um jornal. O seu percurso tem sido marcado por sacrifícios — alguns ainda desconhecidos do público — e, por vezes, também pela falta de reconhecimento. Na segunda edição do “Encontro dos Açores para o Mundo”, que se realizará este mês, iremos distinguir o fundador do jornal e a Tipografia Esperança, que, juntos, devolveram um jornal ao concelho. Talvez o jornalismo, ao cumprir a sua função, incomode, mas temos esperança que a sua importância venha a ser compreendida.
Passados onze anos, enfrentamos o mesmo desafio, por isso o local escolhido é simbólico: OVGA – Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores. A imprensa continua em ebulição, a ser condicionada, é preciso repensar os modelos de sustentabilidade e o jornalismo. Ainda está por provar que o mecenato seja a solução e cada vez mais é o espírito de comunidade, a força conjunta dos leitores e o poder do Estado a decidir quem se salva. Segundo um relatório da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, em 15 anos, a imprensa registada em Portugal reduziu-se em 40%. O número de publicações periódicas passou de 2971 em 2010 para 1675 em 2024. O setor dos media está em crise há quase duas décadas.
Desconhecemos ainda o que o futuro nos reserva e sabemos que não nos limitamos a páginas impressas, mas continuamos e insistimos, talvez, por pura carolice. É certo que a estrutura do jornal pode ser repensada, porém, caso não se reúna a viabilidade, o papel passará a ser algo do passado e, portanto, um testemunho do nosso percurso em bibliotecas e nos lares de quem colecionou cada edição. Este é um dilema que surge a cada final de ano. E, na prática, do ano de 2014 a 2025, terão sido publicadas 141 edições mensais, das quais 136 foram em papel e cinco ficaram pelo formato digital, em PDF. Já no nosso sítio online, foram publicados mais de 20 mil artigos. O que nos leva a questionar se o amanhã será apenas digital ou se devemos continuar a acreditar que o papel ainda faz sentido se for usado numa periodicidade que permita informar e registar sem pressa, de forma sustentável, económica e ambientalmente.
Seja como for, já lá vão 11 anos de edição impressa e estamos orgulhosos pela resiliência alcançada, por isso daqui até ao final do ano, iremos definir o futuro e o próximo Encontro no OVGA será o ponto de partida e local de debate por excelência. Independentemente das conclusões, tudo faremos para continuar a dar voz às “notícias que contam”. Mas não depende só de nós. Afinal, “a liberdade não se escreve sem jornalismo”.
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