Enfermeira de Água de Pau na equipa de testes Covid-19

Graça Costa integra a primeira linha de combate à pandemia em São Miguel. Ao Diário da Lagoa explica o que faz e como funciona o despiste à doença

Fato de proteção passou a fazer parte do dia a dia da enfermeira.
Foto: DR

De um dia para o outro, a enfermeira que nasceu e cresceu em Água de Pau, deixou o local onde sempre trabalhou para se dedicar em exclusivo ao rastreio da doença que fez parar o mundo. É licenciada em enfermagem e exerce funções há 20 anos. Em março, tudo mudou. Teve de aprender novos procedimentos, adquirir novas rotinas, sair da Lagoa e testar os micaelenses espalhados pela ilha.

DL: Como começou a integração na equipa de testes Covid-19?
Os testes começaram com uma equipa muito reduzida. Depois, como o volume começou a aumentar havia colegas a entrar às 8h da manhã e a sair por volta das 23h e muitas vezes nas suas folgas eram chamados. Com tanto trabalho houve necessidade de retirar alguns enfermeiros das equipas e das unidades de saúde mais pequenas, foi o meu caso.

DL: Como funciona o seu dia de trabalho?
Nós entramos às 8h da manhã, temos uma roupa tipo bloco operatório que é descartável. Todos os dias vestimos uma nova e deitamos fora. As pessoas que têm a possibilidade de se deslocar para a zona por detrás da Unidade de Saúde da ilha de São Miguel de carro, nós fazemos a colheita aí. Para quem não pode, por várias razões, fazemos domicílios que podem ser em qualquer zona da ilha e fazemos todo o tratamento e colheita dentro da casa da pessoa.

DL: Como é feita a colheita?
A colheita não demora muito. O que demora mais é montarmos todo o material. Nós é que somos responsáveis por montar, desmontar, limpar. Depois de feita a colheita nós colocamos ipocloro [substância utilizada nos testes] em cima da zaragatoa [semelhante a um cotonete], deixamos atuar durante alguns minutos, colocamos a etiqueta com a identificação do utente e segue no frio para laboratório. Há pessoas que colaboram, há outras que têm mais medo, outros movimentam-se mais, outros têm mais sensibilidade. Introduzimos a zaragatoa numa das narinas e depois outra na boca.

DL: Tem noção de quantos testes já fez?
Sozinha não sei, mas chegamos a fazer 200 testes num dia. Depende da necessidade e da situação.

DL: Relativamente às pessoas que são sujeitas aos testes, normalmente estão receosas?
Depende. Geralmente quem faz a admissão e quem faz a colheita lida muito com a pessoa e com as suas atitudes, com os seus medos e receios. Nós damos esse pequeno espaço à pessoa para referir como é que se sente, qual é o seu medo e damos algumas estratégias. Explicamos ao máximo como é o exame em si para que depois a pessoa possa ter conhecimento do que é que lhe vai acontecer. Há pessoas que têm mais tendência para o vómito, há pessoas que têm mais sensibilidade, tivemos poucas pessoas que se recusam a fazer, muito poucas, acabamos sempre por conseguir que a pessoa faça.

DL: Relativamente aos Equipamentos de Proteção Individual demoram muito a vestir?
No início demorava muito mais tempo, agora já conseguimos vestir um equipamento daqueles em cinco minutos. O que demora mais é despir, temos que ter mais cuidado é no despir. Todas as vezes que retiramos uma peça do nosso vestuário, temos que desinfetar as luvas, retirar as luvas e voltar a calçar umas luvas novas e depois retirar outra peça do equipamento de maneira a que não haja nenhum risco de contaminação.

DL: Como é trabalhar com esse equipamento todo?
No corredor de um hotel, em que não há grande luminosidade, nem arejamento, ficar lá dentro é péssimo porque transpiramos imenso e há muito calor. Por causa da transpiração as viseiras e os óculos muitas vezes não nos deixam ver nada. Os primeiros dias são sempre os piores, depois vamo-nos habituando.

Graça Costa é enfermeira há 20 anos na Lagoa. Foto: DR

DL: Como é que se sente enquanto agente de primeira linha no combate da pandemia nos Açores?
Valorizo muito o trabalho dos colegas que estão nas unidades de saúde e valorizava o meu. Na equipa Covid é interessante, aprendi muito, adoro estar nesta nova equipa, mas também não tiro o valor nem a importância dos colegas que estão na retaguarda e que estão a assegurar os cuidados de saúde à população. Não me sinto mais valorizada do que os outros que estão nos cuidados de saúde primários.

DL: Considera que os enfermeiros deveriam ser melhor remunerados tendo em conta os desafios e riscos que enfrentam?
Eu sempre pensei isso, não só de agora. Acho que o nosso trabalho devia ser sempre valorizado, não sou mais enfermeira por viver uma pandemia ou estar numa equipa Covid. Sempre achei que nós somos mal remunerados tendo em conta que tenho 20 anos de profissão, uma pós-graduação e uma pós-licenciatura. Um aluno de enfermagem que acaba o curso hoje e tenha emprego amanhã vai ganhar o mesmo que eu, não acho justo.

DL: Relativamente à possibilidade de ser contagiada, sendo uma profissional de saúde, como é que lida com esse medo?
Não vou dizer que não tenho este medo. Tenho de ter todos os cuidados para não ser infetada, penso em todos aqueles com quem lido todos os dias. Não só os meus colegas de profissão, como os utentes, assim também como a minha família e a minha filha com quem vivo. Mas não é um medo que me faça impedir de agir.

DL: Que mensagem deixa às pessoas, enquanto enfermeira, na fase de desconfinamento?
As pessoas devem continuar com precaução e cuidado. Sou apologista de que é importante as pessoas estarem ao ar livre, conviverem, mas têm que ter o cuidado da etiqueta respiratória, lavar frequentemente as mãos, usar máscara, proteger-se a si e ao outro. Às vezes estamos tão concentrados nas medidas de prevenção que têm haver com a nossa saúde física que nos esquecemos do resto. Durante esta época fui um pouco “enfermeira espiritual”. Preocupo-me com as pessoas que estiveram em isolamento, com os nossos idosos, a tristeza que eles tiveram por estar muito tempo sem verem as suas famílias. Dedicar um pouco do nosso tempo, de forma segura, a todos aqueles que estiveram isolados levando algum conforto e presença é importante.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de junho de 2020)

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