{"id":163882,"date":"2026-05-14T11:23:46","date_gmt":"2026-05-14T11:23:46","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/?p=163882"},"modified":"2026-05-14T11:32:34","modified_gmt":"2026-05-14T11:32:34","slug":"os-engenheiros-que-ainda-assentam-tijolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/en\/os-engenheiros-que-ainda-assentam-tijolo\/","title":{"rendered":"Os engenheiros que ainda assentam tijolo"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/jose-estevao-de-melo-3-2025.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-154168\" width=\"441\" height=\"441\" srcset=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/jose-estevao-de-melo-3-2025.png 500w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/jose-estevao-de-melo-3-2025-300x300.png 300w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/jose-estevao-de-melo-3-2025-150x150.png 150w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/jose-estevao-de-melo-3-2025-12x12.png 12w\" sizes=\"(max-width: 441px) 100vw, 441px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Jos\u00e9 Est\u00eav\u00e3o de Melo<\/strong><br \/>Engenheiro Inform\u00e1tico<\/p>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p>Quando se constr\u00f3i uma casa, ningu\u00e9m espera ver o engenheiro civil em cima do andaime a assentar tijolos. O engenheiro projeta, calcula, escolhe materiais, supervisiona; o assentamento do tijolo \u00e9 feito pelo pedreiro. Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia diria que o engenheiro \u00e9 menos engenheiro por n\u00e3o pegar na colher. A divis\u00e3o \u00e9 t\u00e3o antiga quanto a pr\u00f3pria engenharia: h\u00e1 quem conceba e h\u00e1 quem execute, e ambas as fun\u00e7\u00f5es t\u00eam valor pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Por alguma raz\u00e3o, na engenharia inform\u00e1tica esta separa\u00e7\u00e3o nunca foi clara. Durante d\u00e9cadas, o programador foi simultaneamente arquiteto, engenheiro e pedreiro: pensava o sistema, desenhava a solu\u00e7\u00e3o e depois escrevia, linha a linha, cada tijolo de c\u00f3digo que sustenta a aplica\u00e7\u00e3o. A compet\u00eancia era frequentemente medida pela velocidade e eleg\u00e2ncia com que se conseguia produzir esse c\u00f3digo manualmente, ao ponto de muitos confundirem o ato de escrever c\u00f3digo com a engenharia em si.<\/p>\n<p>Com a chegada da intelig\u00eancia artificial generativa, esta confus\u00e3o tornou-se evidente. Segundo o Stack Overflow Developer Survey 2025, 84% dos programadores j\u00e1 utilizam ou planeiam utilizar IA, contra 76% no ano anterior, e 51% dos profissionais usam estas ferramentas diariamente. Estudos da GitHub com a Accenture mostram tarefas conclu\u00eddas at\u00e9 55% mais depressa, e o Copilot j\u00e1 gera, em m\u00e9dia, 46% do c\u00f3digo escrito pelos seus utilizadores. Ao mesmo tempo, apenas 29% dos programadores confiam na precis\u00e3o dos resultados, contra 40% no ano anterior, e 45% consideram que depurar c\u00f3digo gerado por IA demora mais do que escrev\u00ea-lo de raiz. Estes n\u00fameros, lidos em conjunto, dizem-nos exatamente o que devem dizer: a IA \u00e9 hoje incontorn\u00e1vel na produ\u00e7\u00e3o, mas insuficiente sem algu\u00e9m que a saiba conduzir. Ou seja, a IA n\u00e3o substitui o engenheiro, exige-o.<\/p>\n<p>Nada disto, conv\u00e9m dizer, \u00e9 novo na profiss\u00e3o. Nenhuma engenharia est\u00e1 t\u00e3o sujeita \u00e0 mudan\u00e7a como a inform\u00e1tica. Aquilo que aprendi na universidade h\u00e1 quinze anos praticamente j\u00e1 n\u00e3o tem express\u00e3o no mercado, e boa parte do que aprendi h\u00e1 cinco j\u00e1 \u00e9 obsoleto. Linguagens, frameworks e paradigmas inteiros foram substitu\u00eddos v\u00e1rias vezes ao longo de uma \u00fanica carreira. Um engenheiro civil que se formou em 1995 continua, no essencial, a aplicar os mesmos princ\u00edpios estruturais que aprendeu; um engenheiro inform\u00e1tico da mesma gera\u00e7\u00e3o teve, ao longo da carreira, de se reinventar tr\u00eas ou quatro vezes. A IA \u00e9 apenas a express\u00e3o mais recente, mais vis\u00edvel e mais comentada dessa mudan\u00e7a permanente, com a particularidade de transformar n\u00e3o apenas as tecnologias, mas a pr\u00f3pria forma de trabalhar. Quem se queixa da IA hoje seria, h\u00e1 quinze anos, o mesmo a queixar-se dos IDEs com autocompletar, e h\u00e1 trinta dos compiladores de alto n\u00edvel. A engenharia inform\u00e1tica \u00e9, por natureza, uma profiss\u00e3o de reinven\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, e quem entra nela sem essa disposi\u00e7\u00e3o entra na profiss\u00e3o errada.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, uma dimens\u00e3o desta transforma\u00e7\u00e3o que merece destaque pr\u00f3prio: a IA permite hoje que praticamente qualquer pessoa, sem forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, produza uma aplica\u00e7\u00e3o funcional. Basta descrever em linguagem corrente o que se quer, e a m\u00e1quina entrega c\u00f3digo que, na maior parte dos casos, funciona. \u00c0 primeira vista, isto parece o fim da engenharia inform\u00e1tica. Na realidade, \u00e9 a sua melhor demonstra\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um velho ditado entre engenheiros segundo o qual qualquer pessoa consegue construir uma ponte que se aguenta em p\u00e9, mas \u00e9 preciso um engenheiro para construir uma ponte que mal se aguenta em p\u00e9, ou seja, com o m\u00ednimo de material, o m\u00ednimo de custo e a m\u00e1xima efici\u00eancia. O mesmo se aplica ao software. Qualquer pessoa consegue hoje pedir \u00e0 IA uma aplica\u00e7\u00e3o que funcione; mas fazer uma aplica\u00e7\u00e3o que escale, que seja segura, que se mantenha ao longo do tempo, que n\u00e3o desperdice recursos e que sobreviva ao primeiro contacto com o mundo real continua a exigir um engenheiro. A IA n\u00e3o acabou com a engenharia; pelo contr\u00e1rio, tornou finalmente evidente onde ela sempre esteve.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em causa, e merece discuss\u00e3o s\u00e9ria, n\u00e3o \u00e9 se devemos ou n\u00e3o usar IA na programa\u00e7\u00e3o, porque essa discuss\u00e3o j\u00e1 foi ultrapassada pelos factos. O que importa discutir \u00e9 como se forma a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de engenheiros num contexto em que a parte mec\u00e2nica do of\u00edcio deixou de ser o caminho natural de aprendizagem. Continuamos a ensinar nas universidades, durante anos, t\u00e9cnicas que a IA executa em segundos, e ao mesmo tempo subestimamos as compet\u00eancias verdadeiramente diferenciadoras, que s\u00e3o as de arquitetura, an\u00e1lise de sistemas e pensamento cr\u00edtico sobre o que a m\u00e1quina produz. O risco n\u00e3o \u00e9 a IA substituir os programadores; o risco \u00e9 formarmos uma gera\u00e7\u00e3o que nunca aprendeu a ser engenheira, porque continu\u00e1mos a trein\u00e1-la para ser pedreira numa altura em que os pedreiros j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o precisos.<\/p>\n<p>A engenharia inform\u00e1tica tem agora a oportunidade rara de fazer aquilo que outras engenharias fizeram h\u00e1 muito: separar a conce\u00e7\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o, e devolver \u00e0 profiss\u00e3o o lugar que sempre lhe coube. Resta saber se temos a maturidade coletiva, dentro e fora da ind\u00fastria, para aceitar que um engenheiro inform\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 menos engenheiro por n\u00e3o escrever cada linha de c\u00f3digo, da mesma forma que um engenheiro civil n\u00e3o \u00e9 menos engenheiro por n\u00e3o assentar cada tijolo.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abO que importa discutir \u00e9 como se forma a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de engenheiros num contexto em que a parte mec\u00e2nica do of\u00edcio deixou de ser o caminho natural de aprendizagem.\u00bb<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":158493,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[114,3021,5155,5156,5157],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v20.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Os engenheiros que ainda assentam tijolo - Di\u00e1rio da Lagoa<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"\u00abO que importa discutir \u00e9 como se forma a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de engenheiros num contexto em que a parte mec\u00e2nica do of\u00edcio deixou de ser o caminho natural de aprendizagem.\u00bb\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/en\/os-engenheiros-que-ainda-assentam-tijolo\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Os engenheiros que ainda assentam tijolo - Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"\u00abO que importa discutir \u00e9 como se forma a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de engenheiros num contexto em que a parte mec\u00e2nica do of\u00edcio deixou de ser o caminho natural de aprendizagem.\u00bb\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/en\/os-engenheiros-que-ainda-assentam-tijolo\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2026-05-14T11:23:46+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-05-14T11:32:34+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/jose-estevao-de-melo-2025-c-clife-botelho.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"960\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"640\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"5 minutes\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/os-engenheiros-que-ainda-assentam-tijolo\/\",\"url\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/os-engenheiros-que-ainda-assentam-tijolo\/\",\"name\":\"Os engenheiros que ainda assentam tijolo - Di\u00e1rio da Lagoa\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#website\"},\"datePublished\":\"2026-05-14T11:23:46+00:00\",\"dateModified\":\"2026-05-14T11:32:34+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#\/schema\/person\/1615a002370e8857b6f972834bc43ece\"},\"description\":\"\u00abO que importa discutir \u00e9 como se forma a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de engenheiros num contexto em que a parte mec\u00e2nica do of\u00edcio deixou de ser o caminho natural de aprendizagem.\u00bb\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/os-engenheiros-que-ainda-assentam-tijolo\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"en-US\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/os-engenheiros-que-ainda-assentam-tijolo\/\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/os-engenheiros-que-ainda-assentam-tijolo\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Os engenheiros que ainda assentam tijolo\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#website\",\"url\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/\",\"name\":\"Di\u00e1rio da Lagoa\",\"description\":\"Di\u00e1rio da Lagoa. 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