{"id":163322,"date":"2026-04-21T00:25:02","date_gmt":"2026-04-21T00:25:02","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/?p=163322"},"modified":"2026-04-21T00:31:04","modified_gmt":"2026-04-21T00:31:04","slug":"estava-doente-e-foste-visitar-me","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/en\/estava-doente-e-foste-visitar-me\/","title":{"rendered":"\u201cEstava doente e foste visitar-me\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-andre-furtado-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-151414\" width=\"385\" height=\"352\" srcset=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-andre-furtado-2.jpg 960w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-andre-furtado-2-300x275.jpg 300w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-andre-furtado-2-768x705.jpg 768w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/padre-andre-furtado-2-13x12.jpg 13w\" sizes=\"(max-width: 385px) 100vw, 385px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Padre Andr\u00e9 Furtado<\/strong><\/p>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">\u201cEstava doente e foste visitar-me\u201d (Mt 25,35). Este vers\u00edculo faz-me questionar: Quantos sofrem \u00e0 nossa volta, e n\u00f3s ficamos \u00e0 dist\u00e2ncia, silenciosos, iludidos a pensar que o sil\u00eancio basta, e, por vezes, mergulhamos na hipocrisia de julgar em vez de cuidar? Diz-se ami\u00fade que \u201cquem precisa que procure\u201d. Em parte, \u00e9 verdade, mas na realidade, muitos sofrem em sil\u00eancio por vergonha, por medo ou por n\u00e3o saberem a quem recorrer, e a quem confiar. Cabe-nos ter a atitude que concretiza aquele \u201c<i>foste visitar-me<\/i>\u201d<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">,<\/span> aproximarmos e cuidarmos de quem sofre. Tamb\u00e9m se cuida fora de um hospital.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Ao longo do meu caminho no hospital, sobretudo nos cuidados paliativos \u2014 depois de uma experi\u00eancia de tempestade e desencontro \u2014 recordei tantas vezes a par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo: <em>\u201cLevantou-se e foi ter com seu pai\u201d<\/em> (Lc 15,20). Tamb\u00e9m eu precisei de regressar, de me reencontrar com a verdade. E foi nesse caminho que esta palavra deixou de ser apenas um vers\u00edculo para se tornar um lugar onde sou constantemente interpelado: \u201cestava doente e foste visitar-me\u201d.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ali, diante de cada doente, encontro n\u00e3o s\u00f3 a fragilidade do outro, mas tamb\u00e9m a minha. Foi a\u00ed que reaprendi o valor do minist\u00e9rio que me foi confiado: n\u00e3o tanto fazer muito, mas ser presen\u00e7a ativa: <em>\u201cfoste visitar-me\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Chega um momento em que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 muito a fazer\u2026 mas h\u00e1 sempre muito a rezar, a escutar, a amar. &#8220;O Senhor n\u00e3o procura sacerdotes perfeitos, mas cora\u00e7\u00f5es humildes, abertos \u00e0 convers\u00e3o e prontos a amar&#8221; &#8211; conforme disse Le\u00e3o XIV. H\u00e1 um abandono necess\u00e1rio &#8211; um repousar <em>in sinu Jesu<\/em>, como o disc\u00edpulo que reclinava a cabe\u00e7a no peito do Senhor (cf. Jo 13,23). Deus n\u00e3o nos pede grandes gestos, mas um cora\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, entregue e agradecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Foi dif\u00edcil aceitar isto porque queremos agir, resolver, aliviar, mudar. Queremos fazer tudo\u2026 e, tantas vezes, acabamos por n\u00e3o viver verdadeiramente nada. Mas, pouco a pouco, fui percebendo que, quando j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer, ainda \u00e9 poss\u00edvel estar. Como Maria de Bet\u00e2nia que escolheu \u201ca melhor parte\u201d (cf. Lc 10,42). E estar n\u00e3o \u00e9 pouco. Estar com respeito, ternura, verdade. Estar sem fugir do sofrimento do outro. Estar como quem acredita, mesmo em sil\u00eancio, que os cuidados paliativos s\u00e3o uma car\u00edcia de Deus \u2014 discreta, mas profundamente real.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">E aqui n\u00e3o posso deixar de agradecer aos profissionais de sa\u00fade. Para o sacerdote, o altar \u00e9 o lugar da entrega. Mas convosco aprendi que, em cada doente, h\u00e1 tamb\u00e9m um altar. Muitas vezes senti que o meu altar era aquele doente, aquela fam\u00edlia e at\u00e9 o vosso cuidado silencioso. Em cada gesto vosso, tantas vezes escondido, reconheci uma entrega que toca o sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Foi tamb\u00e9m neste caminho que comecei a descobrir algo exigente: n\u00e3o sou um \u201csuper-sacerdote\u201d. Por detr\u00e1s do altar h\u00e1 um homem. Por baixo das vestes, h\u00e1 um cora\u00e7\u00e3o. Um cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ferido, tamb\u00e9m em caminho. E talvez sejam essas feridas escondidas as que mais doem. E \u00e9 necess\u00e1rio cuidar. porque h\u00e1 feridas que n\u00e3o se veem, mas doem tanto \u2014 ou mais \u2014 do que as que o olhar alcan\u00e7a. Este cuidar come\u00e7a por reconhecer a nossa pr\u00f3pria fragilidade. S\u00f3 quem aceita as suas feridas pode aproximar-se verdadeiramente das feridas do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Feridas da alma: medos, culpas, solid\u00f5es, perguntas suspensas. Muitas vezes senti-me pequeno diante delas, sem respostas, sem palavras. E foi precisamente a\u00ed que compreendi que a assist\u00eancia espiritual n\u00e3o consiste em explicar tudo, mas em acompanhar, sustentar, e n\u00e3o abandonar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Lembro-me de algu\u00e9m que me disse, deitado numa destas camas esta ideia: <em>onde as almas s\u00e3o curadas, as vidas reencontram-se e s\u00e3o salvas<\/em><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><em>.<\/em><\/span>E comecei a ver isso acontecer \u2014 de forma simples, quase invis\u00edvel. Pequenos reencontros, reconcilia\u00e7\u00f5es, sil\u00eancios cheios de sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Nestes quartos aprendi tamb\u00e9m que a vida n\u00e3o se mede pelo tempo, mas pelo amor. H\u00e1 vidas longas que nunca se encontram\u2026 e instantes breves carregados de eternidade. Quantas vezes rezei em sil\u00eancio: \u201caumenta a minha f\u00e9\u2026\u201d (cf. Lc 17,5). Sobretudo quando n\u00e3o compreendo, quando a dor do outro me toca profundamente. E nesses momentos, ao estar junto de quem sofre, sinto que algo acontece: como se aquele espa\u00e7o se tornasse sagrado. As l\u00e1grimas tornam-se um altar escondido, onde Deus se aproxima sem fazer ru\u00eddo. Descobri, de forma muito concreta, que: Sem sil\u00eancio, n\u00e3o h\u00e1 escuta. Sem escuta, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o. Sem rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 f\u00e9 viva. E confesso: nem sempre sei escutar. Nem sempre sei estar. Mas vou aprendendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Porque fora deste \u201chotel de sete estrelas\u201d \u2014 como um doente um dia lhe chamou \u2014 \u00e9 f\u00e1cil cair na tenta\u00e7\u00e3o de julgar, de diminuir os outros, de esconder as nossas pr\u00f3prias fragilidades com as dos outros. Eu pr\u00f3prio j\u00e1 o fiz. Talvez ainda o fa\u00e7a. \u00c9 mais f\u00e1cil condenar do que amar, derrubar do que levantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Mas aqui\u2026 aqui estou a aprender um outro olhar. Um olhar que n\u00e3o se coloca acima, mas ao lado. Um olhar que n\u00e3o acusa, mas acolhe. Um olhar que v\u00ea no outro n\u00e3o um problema, mas um mist\u00e9rio \u2014 uma p\u00e1gina viva do Evangelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Jesus ensina isso: inclinar sempre. Nunca para esmagar ou ser esmagado, mas para levantar. Nunca para reduzir algu\u00e9m ao seu erro, mas para o devolver \u00e0 sua dignidade de filho amado. <em>\u201cNem Eu te condeno\u201d<\/em> (Jo 8,11). E percebo que tamb\u00e9m eu preciso de deixar que a verdade me toque. Porque a verdade d\u00f3i. Mas liberta (cf. Jo 8,32). \u00c9 como no servi\u00e7o administrado a cada doente: h\u00e1 gestos que doem \u2014 uma agulha, um cateter, uma interven\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. Ningu\u00e9m gosta, mas sabemos que \u00e9 para curar, para cuidar, para dar vida. Assim \u00e9 Deus: n\u00e3o entra para ferir, mas para tratar, salvar e renovar. Ele n\u00e3o se det\u00e9m na nossa desgra\u00e7a, mas mergulha nela para renascer a gra\u00e7a. Como a f\u00e9nix que ressurge das pr\u00f3prias cinzas, tamb\u00e9m Deus faz brotar a vida nova precisamente a partir daquilo que parecia perdido (cf. Jo16,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Hoje sinto \u2014 e quero diz\u00ea-lo com convic\u00e7\u00e3o \u2014 que os cuidados paliativos n\u00e3o s\u00e3o apenas um lugar de fim. S\u00e3o um lugar de revela\u00e7\u00e3o. Aprende-se o essencial. Aprende-se a humanidade. Aqui, aprende-se Deus. E aquilo que aqui descubro n\u00e3o pode ficar fechado entre paredes. \u00c9 um convite a viver fora: nas rela\u00e7\u00f5es, nas escolhas, na forma como olho cada pessoa. Se tivesse de resumir tudo o que tenho aprendido, diria isto: f\u00e9 que se curva, amor que se ergue.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">O servi\u00e7o de assist\u00eancia espiritual n\u00e3o resolve tudo \u2014 e isso, no in\u00edcio, custava-me aceitar. Mas hoje sei que transforma tudo e todos. N\u00e3o tira a dor, mas d\u00e1-lhe sentido. N\u00e3o impede a morte, mas humaniza o caminho at\u00e9 ela. Cuidando da vida at\u00e9 ao fim, onde a ci\u00eancia alivia e a f\u00e9 d\u00e1 sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\">Porque, no fim, \u00e9 o amor que permanece. E onde o amor permanece, h\u00e1 sempre vida que resiste.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abPorque, no fim, \u00e9 o amor que permanece. 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