{"id":161343,"date":"2026-02-08T15:20:53","date_gmt":"2026-02-08T15:20:53","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/?p=161343"},"modified":"2026-02-08T15:20:54","modified_gmt":"2026-02-08T15:20:54","slug":"carta-a-um-jovem-poeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/en\/carta-a-um-jovem-poeta\/","title":{"rendered":"Carta a um jovem poeta"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"wp-block-heading\"><em>&#8211; (porque se eu ao menos tivesse lido esta carta antes&#8230;)<\/em><\/h3>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/julio-tavares-oliveira-retrato.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-152512\" width=\"442\" height=\"442\" srcset=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/julio-tavares-oliveira-retrato.jpg 620w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/julio-tavares-oliveira-retrato-300x300.jpg 300w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/julio-tavares-oliveira-retrato-150x150.jpg 150w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/julio-tavares-oliveira-retrato-12x12.jpg 12w\" sizes=\"(max-width: 442px) 100vw, 442px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>J\u00falio Tavares Oliveira<br \/><\/strong>Professor de PLNM<br \/>Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses<br \/>P\u00f3s-Graduado em Portugu\u00eas L\u00edngua N\u00e3o Materna<strong><br \/><\/strong><\/p>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em>Caro jovem poeta, de dezoito anos, J\u00falio,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Espero que essa carta te encontre sobremaneira bem, cheio de sa\u00fade e cheio de jovialidade.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Venho, do futuro, dizer-te que o futuro, como \u00e9, est\u00e1, por ora, agora estragado; que o futuro, como seja, est\u00e1 adiado e, assim, para sempre, a gl\u00f3ria que tu anseias, pela qual oras e pedes, incessantemente, de velas acesas, est\u00e1 perdido; n\u00e3o h\u00e1, como querias, um peda\u00e7o deste C\u00e9u.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Caro poeta, mas n\u00e3o desanimes. A vida se \u00e9 longa, ou curta, n\u00e3o importa \u2013 importa mais a sua ligeireza aos assuntos do cora\u00e7\u00e3o \u2013 e da raz\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Diria eu, do alto do meu posto, onze anos \u00e0 frente de ti, caro jovem poeta, que tudo se desfez; pouco ou nada se construiu, e, pior, a palavra mais cruel \u00e9 mesmo essa, a palavra \u2013 absurda &#8211; \u201cVazio\u201d, a mesma que tu adiar\u00e1s constantemente, com medo e temor de uma queimadura forte, no teu cora\u00e7\u00e3o, como que assoprando, continuamente, para a frente, um futuro, e um luto, proscrito e indefinido de m\u00e1goas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Publicar\u00e1s; \u00e9 certo \u2013 mas quem n\u00e3o neste ermo? Isso n\u00e3o \u00e9 crit\u00e9rio e, falando-te do futuro, digo-te que queima escrever; que queima ler; como queima, enfim, sobretudo respirar ou viver.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Escrever versos d\u00f3i \u2013 dizia Santos Barros. Eu lhe acrescentaria, \u00e0 latitude desse verso, uma dist\u00e2ncia concreta entre o passado e o futuro \u2013 d\u00f3i saber quem somos, e o que somos, enfim, (s\u00f3) a penugem do Tempo, o p\u00f3 da cal\u00e7ada, a espuma do mar, dissolvendo-se, vagamente, nas sobras da mar\u00e9 alta.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Olho-te, jovem poeta, do teu lugar de abysmo (sim \u2013 com \u201cy\u201d, como diria e escreveria Fernando Pessoa) para te dizer o seguinte: tu n\u00e3o \u00e9s uma m\u00e1 pessoa; \u00e9s uma pessoa \u00e0 qual m\u00e1s coisas aconteceram \u2013 e, para tal, movido pela f\u00faria da sociedade em demanda, como num carrossel apressado, foste seguindo os dias, esperan\u00e7oso, demorado, ansioso, adiado &#8230;e, muitas vezes, odiado.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Espero-te, jovem poeta J\u00falio, que consigas perceber, do alto do teu enigma, do teu Futuro, o que n\u00e3o consegues enxergar com esses olhos cheios de esperan\u00e7a e de virilidade: fala-te quem j\u00e1 passou pelo que tu, inevitavelmente, vais passar; fala-te quem j\u00e1 viveu uma vida que, invariavelmente, vais ter de viver e de suportar.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> N\u00e3o basta escrever bem; \u00e9 preciso ter uma boa fama no p\u00fablico, ser apupado e respeitado pelas elites; \u00e9 necess\u00e1rio conter, no saldo, uns quantos trocos preparados na carteira, para comprares os teus pr\u00f3prios livros, a bolsa cheia de futilidades, uma pena de lugares-comuns, por vezes, e o enigma da consci\u00eancia cheio de urina p\u00e1lida. Sim: de escura urina, para n\u00e3o dizer outra palavra \u2013 porque nada mais importa do que ser verdadeiramente \u201cimportante\u201d nesta caos social em que se o Estado falha, a mente, qual qu\u00ea, tamb\u00e9m falhar\u00e1.<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> Assim te v\u00eas, decerto, no presente: muito \u201cimportante\u201d, in\u00e9dito e especial. Deixa-me desmanchar-te esse pedestal. Pois bem, desculpa-me, \u00f3 jovem poeta, desiludir-te, mas as coisas importantes, e in\u00e9ditas, deixam muito depressa, penduradas, as pessoas importantes na paragem do esquecimento eterno \u2013 prescrevem rapidamente na sua fila de espera pelo c\u00e2none ou pelo Nobel&#8230; ou pelo premiozinho liter\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Rogo-te que pares de sonhar as coisas absurdas. Que reflitas n\u00e3o nos futuros louvores, mas em ti. E, embora n\u00e3o o v\u00e1s fazer, que o fa\u00e7as, impiedosamente..; e que, lendo esta carta, escrita onze anos depois de ti, pares um momento, e reflitas, sozinho \u2013 longe de todos: vale a poesia a pena nas m\u00e3os de um jovem poeta?<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em> Escrevo-te para te salvar; embora j\u00e1 esteja perdida, de pouca absolvi\u00e7\u00e3o, a tua nobre, e genu\u00edna, pena&#8230; Ent\u00e3o, escrevo-te para me salvar, talvez, para me redimir, de novo, de tanta coisa. Se calhar, no fundo, esta carta servir\u00e1 mais para mim, seu remetente, do que para ti, seu destinat\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Assim o far\u00e1s: por\u00e1s estas letras no balde do lixo do teu quarto, depois de semilidas, como a todos os avisos e conselhos, mesmo que poucos. Ao menor conselho, de algu\u00e9m verdadeiramente amigo e l\u00facido, ter\u00e1s a tua jovem consci\u00eancia, virtuosa, a afirmar-te com raiva: \u201c\u00c9 um grande disparate!\u201d. E, n\u00e3o obstante acompanhado de outros poetas \u2013 mais cognomizados e reconhecidos como tal -, um dia, mais tarde, eles tamb\u00e9m te deixar\u00e3o \u00e0 berma da estrada, por s\u00f3&#8230; e s\u00f3, somente sozinho com a tua consci\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Restar-te-\u00e1, no fundo, um apelo bem fundo: voltar atr\u00e1s. Mas, lamento informar-te, e desiludir-te, J\u00falio. N\u00e3o se desfaz. N\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio. Nem retorno. Nem absolvi\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Mas n\u00e3o ser\u00e1, penso, de todos os homens, de todas as mulheres deste mundo, viver assim carregando uma culpa s\u00f3 sua?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Ent\u00e3o, tamb\u00e9m a ter\u00e1s, jovem poeta, por direito, a essa culposa mancha.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Lamento contar-te, mas, de ti, ver\u00e1 auspicioso futuro, embora contido, e continuadamente preterido na solid\u00e3o ruidosa, escura e vazia, do teu quarto frio \u2013 terminar\u00e1s, \u00f3 se sim&#8230;, os primeiros degraus acad\u00e9micos e, por ora, n\u00e3o te julgues acima dos maiores textos da Humanidade, s\u00f3 por isso \u2013 eles foram, supostamente, escritos por gente sem curso superior, ou curso algum. Bem, pelo menos uma parte deles&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Termino, \u00f3 jovem, contando-te que somos maiores quando nos encolhemos; e, quando nos encolhemos, para caber nos outros, somos maiores: l\u00ea! L\u00ea! Quanto, portanto, possas ler o mais que puderes.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><em> Penso que, no fundo, como a qualquer jovem escritor ou poeta, falta-te, ainda por chegar, um amor proibido, uma causa perdida, uma perda irremedi\u00e1vel. A seu tempo, para amadurecer o corpo, a mente, o cora\u00e7\u00e3o e, claro, a escrita.<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em>Com enorme estima,<\/em><br \/><em>o teu<\/em><br \/><em>J\u00falio Tavares Oliveira<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abA vida se \u00e9 longa, ou curta, n\u00e3o importa \u2013 importa mais a sua ligeireza aos assuntos do cora\u00e7\u00e3o \u2013 e da raz\u00e3o.\u00bb<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":152513,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[203,294,413,1508,1748,2819],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v20.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Carta a um jovem poeta - Di\u00e1rio da Lagoa<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"\u00abA vida se \u00e9 longa, ou curta, n\u00e3o importa \u2013 importa mais a sua ligeireza aos assuntos do cora\u00e7\u00e3o \u2013 e da raz\u00e3o.\u00bb\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/en\/carta-a-um-jovem-poeta\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Carta a um jovem poeta - Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"\u00abA vida se \u00e9 longa, ou curta, n\u00e3o importa \u2013 importa mais a sua ligeireza aos assuntos do cora\u00e7\u00e3o \u2013 e da raz\u00e3o.\u00bb\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/en\/carta-a-um-jovem-poeta\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2026-02-08T15:20:53+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-02-08T15:20:54+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/julio-tavares-oliveira-slide.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"960\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"750\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"6 minutes\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/carta-a-um-jovem-poeta\/\",\"url\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/carta-a-um-jovem-poeta\/\",\"name\":\"Carta a um jovem poeta - Di\u00e1rio da Lagoa\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#website\"},\"datePublished\":\"2026-02-08T15:20:53+00:00\",\"dateModified\":\"2026-02-08T15:20:54+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#\/schema\/person\/1615a002370e8857b6f972834bc43ece\"},\"description\":\"\u00abA vida se \u00e9 longa, ou curta, n\u00e3o importa \u2013 importa mais a sua ligeireza aos assuntos do cora\u00e7\u00e3o \u2013 e da raz\u00e3o.\u00bb\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/carta-a-um-jovem-poeta\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"en-US\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/carta-a-um-jovem-poeta\/\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/carta-a-um-jovem-poeta\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Carta a um jovem poeta\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#website\",\"url\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/\",\"name\":\"Di\u00e1rio da Lagoa\",\"description\":\"Di\u00e1rio da Lagoa. 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