{"id":101764,"date":"2022-05-14T12:53:07","date_gmt":"2022-05-14T12:53:07","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/?p=101764"},"modified":"2025-09-28T00:36:48","modified_gmt":"2025-09-28T00:36:48","slug":"a-insustentavel-leveza-do-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/en\/a-insustentavel-leveza-do-ser\/","title":{"rendered":"A Insustent\u00e1vel Leveza do Ser"},"content":{"rendered":"<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/A-Insustentavel-Leveza-do-Ser-Ilustracao-Lidia-Meneses.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-101765\"\/><figcaption><sup><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u00a9\u00a0LIDIA MENESES<\/mark><\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A frase vai roubar o t\u00edtulo ao c\u00e9lebre romance do escritor checo Milan Kundera. Cada uma das personagens, atuantes de um tri\u00e2ngulo amoroso, experimenta \u00e0 sua maneira, o peso insustent\u00e1vel que baliza a vida, em permanente exerc\u00edcio de reconhecer a opress\u00e3o dos seus desejos e de tentar ameniz\u00e1-la. \u00c9 um livro inquietante, pois faz-nos ponderar assuntos que n\u00e3o gostamos de aprofundar. O livro fala sobre o sentido da vida ou melhor, sobre o peso e a leveza da mesma. Nele, amar pode ser um fardo pesado. Ter compaix\u00e3o, ser sens\u00edvel, tamb\u00e9m. O artista, como exemplo, \u00e9 um amoroso incur\u00e1vel, sofre por amor a tudo que v\u00ea e nem sempre consegue digerir essa como\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nada mais pesado do que a compaix\u00e3o. A dor sentida com algu\u00e9m, por algu\u00e9m, multiplicada pela imagina\u00e7\u00e3o, prolongada em mil ecos. Assim atuam os artistas nas suas telas. O artista sente tudo. \u00c9 pesado, mas faz-nos sentir. Por\u00e9m,\u00a0 \u201caquele que quer permanentemente chegar mais alto deve esperar que um dia ser\u00e1 invadido pela vertigem.\u201d Indagamos, portanto, se estamos preparados para essa leveza do ser. O que ela significa? Desprendimento? Algu\u00e9m quer, realmente, estar assim t\u00e3o leve? Se, por um lado a frase- A Insustent\u00e1vel Leveza do Ser- remete para a leveza do ser, logo a contradiz com o facto de ser insustent\u00e1vel, portanto, ser e viver n\u00e3o tem nada de leve. \u00c9, at\u00e9, bastante pesado, o tal fardo de viver, principalmente para quem decide morrer. N\u00e3o \u00e9 por acaso que falo sobre este elefante na sala de porcelana. Afinal, pensar na morte faz parte da vida, filosofar sobre o t\u00e9rmino da vida, tamb\u00e9m faz parte do ser. O livro alerta, tamb\u00e9m, para que nenhum ser humano tente responder ao porqu\u00ea de viver, ao porqu\u00ea de morrer, pois n\u00e3o h\u00e1 nenhuma verdade grandiosa. S\u00f3 conhecemos a vida vivendo-a, e n\u00e3o h\u00e1 nada de leve nisto. A vida \u00e9 dif\u00edcil- simples- \u00e9 um milagre para uns e uma trag\u00e9dia para outros. Vincent Van Gogh afirmava: \u201cNa vida de um artista, a morte pode n\u00e3o ser a coisa mais dif\u00edcil!\u201d. Em contraste, no livro de Paulo Coelho \u201cVer\u00f3nica decide Morrer\u201d, a protagonista resiste a um suic\u00eddio falhado, mas, devido a um problema card\u00edaco, apenas ter\u00e1 uma semana de vida. \u00c9 ent\u00e3o, que ela se agarra \u00e0 mesma e decide dar-lhe um outro rumo, enfrentando os seus problemas e medos e realizando os seus desejos. Estar perto da morte f\u00ea-la, portanto, renascer e, tamb\u00e9m, lutar por si mesma, pelos seus desejos. Todos compreendemos este fulgor de viver, ap\u00f3s a experi\u00eancia de uma dor excruciante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Decidir morrer \u00e9 um ato sem retorno, com implica\u00e7\u00f5es enormes nos sobreviventes (fam\u00edlia, amigos, colegas de trabalho). H\u00e1 um c\u00edrculo de pessoas que s\u00e3o afetadas quando algu\u00e9m decide morrer. Segundo a psiquiatra Ana Matos Pires, \u201centre 2019 e 2022, houve um aumento de comportamentos suicidas, muito em rea\u00e7\u00e3o ao aumento da sintomatologia da patologia depressiva\u201d. Ora, eu chamo-lhe falta de empatia, que me perdoem a sinceridade. Sabem&#8230;? A falta de afabilidade e gentileza, sobretudo, caracter\u00edsticas altru\u00edstas que agora perecem. H\u00e1 que, por isso, mudar atitudes quanto \u00e0 sa\u00fade mental. A preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio \u00e9 um assunto que nos diz respeito a todos enquanto sociedade. Por isso n\u00e3o olhem de lado \u00e0 tristeza, n\u00e3o virem esta p\u00e1gina.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 quatro tipos de suic\u00eddio, segundo o soci\u00f3logo Emile Durkheim, 1897. H\u00e1 o ego\u00edsta: sentimento de n\u00e3o perten\u00e7a, socialmente desintegrado, falta de sentido pela vida, apatia, melancolia e depress\u00e3o. O altru\u00edsta: absorvidos pelas cren\u00e7as de um grupo. O an\u00f3nimo: confus\u00e3o moral, dist\u00farbios sociais e econ\u00f3micos dram\u00e1ticos e o fatalista: pessoa excessivamente regulada com futuros impiedosamente bloqueados, paix\u00f5es estranguladas por disciplina opressiva. N\u00e3o me atrevo a dar exemplos precisos para cada um dos casos, porque cada caso tem os seus espinhos e muitas vezes nunca chegam ao conhecimento do p\u00fablico. S\u00e3o conhecidos, contudo, s\u00f3 para referir alguns, os suic\u00eddios:\u00a0 da imperatriz Cle\u00f3patra, do DJ Avicii, da escritora Virg\u00ednia Woolf, do pintor Van Gogh, do m\u00fasico Kurt Cobain, do ator Heath Ledger, da atriz Marilyn Monroe, do ator Robin Williams, do ativista Abbie Hoffman e do presidente do Chile, Salvador Allende.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 verdade que h\u00e1 uma grande probabilidade de artistas se suicidarem. Poderia dizer-se que os artistas tendem a diferenciar-se da norma, de v\u00e1rias formas, e as pessoas que s\u00e3o diferentes s\u00e3o muitas vezes ostracizadas por certas sociedades. Mas, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a maior taxa de suic\u00eddio, em termos de profiss\u00e3o, acontece n\u00e3o entre os artistas, mas entre os m\u00e9dicos. A maior parte das pessoas com alto n\u00edvel de intelig\u00eancia tem dificuldade em lidar com a frustra\u00e7\u00e3o e, por isso, a sensa\u00e7\u00e3o de inutilidade \u00e9 muito dif\u00edcil de deglutir. Muitos preferem encontrar a paz, no al\u00edvio da dor. Em Ponta Delgada, h\u00e1 uma escola com o nome de um grande poeta e fil\u00f3sofo portugu\u00eas que decidiu morrer de modo violento, com 2 tiros na cabe\u00e7a, num banco de jardim junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperan\u00e7a. Era o talentoso e apreciado Antero de Quental. Muitos poderiam pensar que foi a sua mudan\u00e7a do continente para a ilha o que o transtornou, ou os seus ideiais, por ser fil\u00f3sofo, por ser poeta? Mas Antero sofria de um dist\u00farbio bipolar, tinha tido tuberculose da qual nunca chegou a recuperar totalmente e sofria de incessantes dores de est\u00f4mago. A dor mental tem, tamb\u00e9m, origem na dor f\u00edsica, a que moi a todas as horas, a que apaga o sorriso, a vontade e a energia. Todos os artistas levam o seu \u00faltimo trabalho para a sua \u00faltima morada, ou seja, a si mesmos, ao seu habilidoso corpo, que tamb\u00e9m definhou, que tamb\u00e9m amou, que tamb\u00e9m foi humilhado e tocado e que criou. Por isso, os artistas parecem estar sempre numa grande az\u00e1fama. Est\u00e3o com pressa de deixar registado o amor pela vida, como a veem, para que n\u00e3o se esque\u00e7am, nem do seu esp\u00edrito, nem de como esse esp\u00edrito via essa vida carnal. Na mesma medida, a arte \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o contra a morte, porque precede o artista que a criou. Portanto, n\u00e3o me parece que a qualidade do pensador, do artista ou do criador seja a raz\u00e3o da sua fatal decis\u00e3o de encontrar a morte. Mais uma vez, culpo o amor ou a falta dele, culpo a trapa\u00e7a de achar melhor ser amado do que amar, como motivo. Acima de tudo, amar algu\u00e9m e a si pr\u00f3prio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Geograficamente a Litu\u00e2nia \u00e9 o pa\u00eds com a maior taxa de suic\u00eddio, 31,9%\u00a0 e a Alb\u00e2nia tem a menor, 6,3%. As maiores taxas ocorrem em pa\u00edses com condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, sociais e culturais diversas. Os pa\u00edses com as maiores taxas s\u00e3o os de clima frio e que fizeram parte da antiga URSS. Em 2019, 1 suic\u00eddio ocorria a cada 40 segundos com menores de 45 anos. \u00c9 a segunda principal causa de morte entre os jovens. Provoca mais mortes do que a mal\u00e1ria, cancro da mama ou mesmo as guerras e os homic\u00eddios. Em termos globais, s\u00e3o 1,8% mais frequentes entre homens do que entre mulheres. O caso \u00e9 t\u00e3o grave que o Facebook removeu 26 milh\u00f5es de conte\u00fados de \u00f3dio e 2,5 milh\u00f5es de conte\u00fados sobre suic\u00eddio e mutila\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Enfim, que escolha m\u00f3rbida de tema para o in\u00edcio de um m\u00eas como o de maio, quando uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o do planeta terra celebra o seu anivers\u00e1rio, um m\u00eas dedicado especialmente \u00e0 Virgem Maria. Maio vem do latim Maya, m\u00e3e do deus Hermes, identificada na mitologia romana como a deusa da fertilidade, cujos festivais eram celebrados neste m\u00eas. \u00c9 o m\u00eas da Primavera no hemisf\u00e9rio norte, do desabrochar das flores, do in\u00edcio de muitos amores e, tamb\u00e9m, infelizmente, de muitas alergias ao p\u00f3len. Na astrologia come\u00e7a com o signo de Touro e termina com o signo de G\u00e9meos. Falemos antes do amor. Falo do amor cru e realista como os de Kundera. Ele defendia o amor desinteressado, o que n\u00e3o arranjava raz\u00e3o para ser achado, o que se processa por mera devo\u00e7\u00e3o e acaso. Gostar porque sim. Para este autor, se o amor n\u00e3o \u00e9 louco, ele n\u00e3o \u00e9 nada. Precisamos, ent\u00e3o, de estar apaixonados pela humanidade. Os mais velhos lembram-se deste amor insustent\u00e1vel, o amor que nos causa vertigem, o amor que nos enleva e nos mata, mas que os fez viver. O amor pelos outros, com tudo o que h\u00e1 neles e sobre eles, inclusive as sombras. Antes havia paci\u00eancia, hoje h\u00e1 segundos at\u00e9 um bip ressoar, de um qualquer tijolo tecnol\u00f3gico. N\u00e3o \u00e9 por acaso que os mais velhos t\u00eam vindo a alertar: perdemos as maneiras. Sejamos gentis e leves, aspiremos a essa insustent\u00e1vel leveza do ser, t\u00e3o exigente mas t\u00e3o necess\u00e1ria. Sejamos subtis nos modos, doces nas express\u00f5es, c\u00e2ndidos nos gestos. \u00c9 grande o poder das pequenas a\u00e7\u00f5es do quotidiano. Uma meiguice na m\u00e3o, mesmo sem sentido &#8211; do nada &#8211; uma mensagem no tabelier do carro, uma flor junto \u00e0 almofada, um rebu\u00e7ado na mala. Da pr\u00f3xima vez que estiverem colados a um ecr\u00e3, qualquer, lembrem-se de procurar o seguinte: 100 aleat\u00f3rios atos de gentileza. Tais atos de amor permitem-nos transformar um dia pesado, num dia leve. \u00c9 o que nos faz continuar, n\u00e3o uma qualquer raz\u00e3o grand\u00edloqua que justifique o facto de merecermos estar vivos. A seguir a ler isto, abrace algu\u00e9m, pode salvar uma vida. E, sobretudo, n\u00e3o se esque\u00e7a de si mesmo, \u00e9 revolucion\u00e1rio. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Pode encontrar-me no Instagram, em: <\/span><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lidiamenesesdesign\/\">@lidiamenesesdesign<\/a><\/span><b><br \/><\/b><\/p>\n\n<p style=\"text-align: right;\">Ilustra\u00e7\u00e3o e texto de Lidia Meneses<br \/><b><br \/><\/b><em>Artigo publicado na edi\u00e7\u00e3o impressa de <span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/DL_2022.05.pdf\">maio de 2022<\/a><\/span><\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A frase vai roubar o t\u00edtulo ao c\u00e9lebre romance do escritor checo Milan Kundera. 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