
O cenário é a Praia do Fogo, cujas águas são aquecidas pelas fumarolas de um vulcão. A 33.ª edição da Festa do Chicharro acontece a 4, 5 e 6 de julho, na freguesia da Ribeira Quente, concelho da Povoação, e vai trazer ao parque de estacionamento da praia vários artistas nacionais e regionais.
Com o mote “É pá espinha!”, o festival que conhecemos hoje teve origem num evento com moldes diferentes. A Festa do Chicharro nasceu da chamada Semana do Chicharro, festa popular que acontecia no porto de pescas daquela freguesia que se iniciou em 1988. Decorria aquele ano, quando um grupo de alunos do curso de dinamizadores sócio culturais se juntou às entidades locais para a concretização da primeira edição daquela festa. O objetivo era implementar formas de dinamização cultural e dar a conhecer a freguesia da Ribeira Quente. Assim surgiu a Semana do Chicharro.
As primeiras edições da Semana do Chicharro tinham um cariz marcadamente cultural e desportivo, sendo que a sua programação consistia na oferta existente e numa dimensão local, com música tradicional, grupos de folclore e artistas da terra. A nível gastronómico, eram partilhados os produtos da matança do porco, e, como não podia deixar de ser, chicharros grelhados com bolo da sertã.
Em 1991, surgiu na Ribeira Quente a Associação Cultural e Desportiva Maré Viva, que assumiu a organização da Semana do Chicharro. A festividade passou então a ser denominada de Festa do Chicharro, adquiriu formato de festival e passou a ser realizado na zona da Praia do Fogo.
A temática foi escolhida por estar associada a um dos alimentos de subsistência da freguesia, o chicharro. “Este pescado confere à freguesia um simbolismo associado à principal atividade económica local, a pesca, e, ao evento, os cardumes predominantes sugerem a reunião de pessoas em festa”, explica ao Diário da Lagoa (DL) Rui Fravica Melo, que fez parte da organização da Festa do Chicharro de 1994 a 2006.
Rúben Melo, atual presidente da Maré Viva e organizador da Festa do Chicharro desde 2011, recorda também o passado, quando o Chicharro ainda era uma festa “caseira”, que acontecia no porto de pescas.“Através desta Associação, começou-se a personalizar a festa e a oferecer mais condições às pessoas. Foi assim que foi crescendo, até que quando demos por nós, já era um autêntico festival”, conta ao DL.
Entre 2007 e 2009, a empresa “Espaço Povoação” assumiu a organização da Festa do Chicharro. Em 2010, o evento não se realizou por questões financeiras, até que em 2011 a Maré Viva retoma a organização do festival. Nesse ano, a entrada começou a ser cobrada para ser possível fazer face às despesas. Ao longo dos anos, a Festa do Chicharro tem ganho outra dimensão e criado uma “enorme legião de fãs”, segundo a organização. “Depois há outras pessoas que ouvem falar e que vão ganhando curiosidade em ver o que se passa ali: aquele ecossistema de boas vibrações, que não é fácil de explicar”, considera Rúben Melo, organizador, que tem observado cada vez mais participação de público das outras ilhas. Marcam também presença emigrantes, que voltam à sua terra nesta altura para viver o Chicharro.
Sobre a importância do evento para o concelho da Povoação e residentes da Ribeira Quente, Rui Fravica realça que para “além da promoção implícita, ou seja das potencialidades turísticas em termos de paisagem, gastronomia e outras particularidades únicas deste concelho, a Festa do Chicharro é um incentivo à economia local e aos seus agentes que têm assim uma oportunidade de melhorar os seus rendimentos e ao mesmo tempo promover os seus produtos junto de um público numeroso e bastante diversificado”.
Segundo o Rúben Melo, residente na Ribeira Quente, o Chicharro constitui um marco muito importante e motivo de orgulho para a comunidade local. “Toda a pessoa que tem orgulho na sua terra tem orgulho em ter um evento daquela dimensão e tão afamado que traz um prestígio enorme à freguesia e faz com que sejamos também mais visitados ao longo de todo o ano, porque há pessoas que ganham um carinho à freguesia. O festival é um enorme cartão de visita para a nossa terra”, considera.
A organização diz ter sempre na sua visão melhorar e fazer crescer o evento, não esquecendo aquela que é a essência do Chicharro. “A essência é, acima de tudo, a mística. É um evento que se destaca muito pela animação. Há muita gente que vai ao Chicharro e não sabe explicar bem o que acontece ali, porque o que se vê é uma alegria brutal de pessoas de diferentes idades, todas a aproveitar a vida no seu expoente máximo”, salienta Rúben Melo.
Segundo o mesmo, a “mística” deve-se ao próprio local e ao acolhimento dos habitantes: “ser junto à praia, naquele ambiente quase paradisíaco. Penso que tem a ver com as características da própria freguesia, com a avenida, os passeios à beira-mar, muitos bares e restaurantes de qualidade, pessoas simpáticas a servir, e a própria população da Ribeira Quente que tem muito prazer em bem receber. Temos também o cuidado de escolher artistas que se adequam àquilo que é o Chicharro, ou seja, com performances energéticas. Há uma série de fatores que fazem com que o Chicharro seja especial”.
Também Rui Fravica fala do que diferencia o Chicharro dos outros festivais: “a festa do Chicharro tem uma mística muito própria pelo que ao longo dos tempos granjeou a simpatia de um público que se mantém fiel e muito participativo”.
Para além dos cabeças de cartaz Pedro Mafama, no dia 4, Calema, no dia 5, e Starlight, que atuam a 6,o palco do Chicharro vai também receber este ano os artistas Ronda da Madrugada, Karetus, Deejay Telio, André N, Rudinho, Engle, Antoine C, Cisco Bottle e Anos 2000.