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Tenho uma doença mental, e depois?!

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

Gostava de falar um pouco da “nossa”, da “minha” POC – Perturbação Obsessivo-Compulsiva, reconhecida como nos indica o site do Serviço Nacional de Saúde, como “uma doença psiquiátrica que, como o próprio nome indica, se caracteriza pela presença de obsessões e/ou compulsões” e, sem ser nenhum especialista médico, mas como utente, unicamente, falo, na verdade, apenas como sou, estando acompanhado, por um especialista, há tempo suficiente para entender que isto não é, para ninguém, fácil.

De facto, a minha Perturbação realiza-se mais no campo das obsessões permanentes: são pensamentos repetitivos, impulsos ou imagens repetitivas, que me atormentam todos os dias, e que surgem de forma bastante intrusiva e independente da vontade da pessoa – da minha vontade –, provocando imensa ansiedade, sofrimento e mal-estar. Daí surge, no meu caso, a necessidade exaustiva de perguntar “se está tudo bem”, de verificar, com os outros, até à exaustão, se os ofendi, magoei, se estão bem ou mal (e isso pode levar-nos até às compulsões).

As minhas obsessões, confesso, são de várias naturezas específicas: são verificativas, intrusivas, com pensamentos ruminados constantemente que geram uma ansiedade aflita; à necessidade obsessiva de controlar o que está ao meu redor, e o que mais amo e estimo, protegendo até a um limite que muitos considerariam excessivo, agressivo e limitativo da sua liberdade.

Uma das minhas maiores consequências negativas de ter POC, nem por isso, é a de, definitivamente, ter perdido, justamente, pessoas muito importantes pelo caminho, estreito, da minha Felicidade, que se vá vazando aos poucos de Esperança; pessoas que, no nosso caminho, vão aparecendo, pessoas bonitas, que se afastam, porque julgam-me um caso perturbador da sua paz, da sua essência e da sua Liberdade embora seja perturbado todos os dias, na minha paz, por uma doença mental que, de facto, lhes pode afetar também, e bastante – como o Alzheimer, o Parkinson, a Esquizofrenia, e outras patologias, julgo, afetam não só os utentes, mas as pessoas ao seu redor.

As mudanças repentinas, e exaustivas, de humor, a falta constante, e persistente, de forças, de ânimo, as contradições, o cansaço e a desmotivação plena, em alguns dias, levar-nos-iam pela minha rotina – mental e física – diária: pensamentos intrusivos e tóxicos, misturados com desejos absortos e abstratos, difíceis de controlar; até às naturezas mais diversas das minhas obsessões e compulsões, que, ora aqui, ora acolá, me deixam só sozinho comigo mesmo na minha indefinição mais comum de todos os dias.

A solidão é, assim, uma constante. Porque as pessoas não estão prontas para essa conversa. Mas nem por isso lidamos de bem com a solidão que se traduz, essa, em isolamento. Repetimos a nós próprios que “isto vai passar”, mas nunca verdadeiramente passa – e, mudando de vida, as coisas levam-nos, volta e meia, ao ponto de partida – à “nossa” velha amiga, a doença mental.

A Perturbação Obsessivo-Compulsiva é uma doença mental, e depois?! As pessoas, como eu, não escolhem ter as doenças físicas ou mentais que têm; mas podem optar por fazerem as pazes com a sua doença, na sua aceitação e no tratamento correto, e rigoroso, que lhes compete.

Foi isso que eu fiz há bem pouco tempo, procurando, em primeiro lugar, ajuda especializada. Comecei, devagarinho, a aceitar os meus maiores erros, as minhas maiores falhas; aqueles que a minha doença originou, e que me levou a rejeitar, até com agressividade, aceitar, de ânimo leve, circunstâncias normais da vida: fins de relacionamentos, opções de vida, respostas negativas, são alguns exemplos.

A doença mental que me levou a ter, para com pessoas muito importantes na minha vida, comportamentos indesejados ou perigosos, em fase, que estava, de descontrolo, são hoje arrependimentos que, por causa de uma condição, se manifestam, hoje, na sua máxima potência; mas, na verdade, aprendi a caminhar, de pés descalços, sobre o vidro fino da minha saúde mental.

Aprendi que nenhum Caminho é definitivo, nem nós somos definitivos, e que nenhuma doença mental é incurável; porque tem cura. Como todas, a POC – Perturbação Obsessivo-Compulsiva –, associada a ansiedade e à depressão regulares, pode ser controlada: seja com fármacos, com psicoterapia, seja com a nossa vontade extrema de mudar. Essa vontade traduz-se em prática regular de exercício físico, uma alimentação boa e equilibrada, uma boa higiene do sono, meditação, para quem gosta, e vontade própria em ser diferente consigo mesmo, tratando-se melhor, e com os outros, seus mais próximos.

Fala-vos alguém que já está “aqui”, neste ponto de paragem, há muitos anos, e que toma vários medicamentos diariamente, pela sua saúde. Fala-vos alguém, agora, que vos diz: sim, é possível ter uma vida completamente normal com a “nossa” doença mental, viver com ela, e dormir com ela, aceitando como ela “é”.

A “nossa” doença mental não nos define, nem nos limita a sermos quem quisermos e a perseguirmos os nossos sonhos. A “nossa” doença mental não diz absolutamente nada sobre a nossa própria vontade de mudança, de sermos outros, da nossa essência. Retocada, limada, bem aceite, e fazendo as pazes com ela, no nosso coração, podemos até, depois de descer ao fundo do poço, crescer muito com ela ao nosso lado, ali, a “vigiar-nos” na sua influência constante: a nossa doença mental não é uma catástrofe ou uma condenação para toda a vida. E contra toda a resistência e opressão que a tua doença mental impõe, sê forte, admite, e o Tempo encarregar-se-á, devagarinho, de uma cura. Um passo de cada vez…