
Numa edição que trata o jornalismo, o Diário da Lagoa (DL) deu voz a leitores e jornalistas que, em conjunto, definiram literacia mediática. “É analisar e avaliar aquilo que [os media] nos colocam à frente”, começa o leitor Octávio Lima, ao que Adriana Rebelo, também leitora, acrescenta: “Inclui questionar, comparar fontes e distinguir entre factos, opiniões e possíveis manipulações.” O jornalista Vitor Tomé esclarece que são “competências que nos permitem analisar os conteúdos dos media de forma crítica e não um consumo passivo”.
A presidente da direção da Associação Literacia para os Media e Jornalismo (ALPMJ), Sofia Branco, simplifica esta questão: “Precisamos de saber explicar a qualquer pessoa, tenha ela seis anos de idade ou noventa, o que é o jornalismo e como funciona, para que é que serve e qual a sua importância.” Apesar de achar que o progresso “pode ser lento” nesta área, mostra-se otimista. E prossegue: “Se ganharmos uma pessoa, para mim já é um sucesso.”
Em termos históricos, antes, “as pessoas só podiam consumir aquilo a que estavam autorizadas”, uma perspetiva que “não esconde uma forma de censura”, explica Vitor Tomé, também da ALPMJ. Depois, surgiu a ideia de que o importante seria preparar os cidadãos e não os proibir. Contudo, hoje, o jornalista considera que “a lógica de proibir está a voltar” no mundo. E, ainda, “com a inteligência artificial e o avanço exponencial da tecnologia, é muito difícil preparar todas as pessoas ao mesmo tempo e a todo o momento”, confessa.
João Freitas e Octávio Lima, que acompanham o DL há cerca de dez anos, defendem a criação de mais iniciativas, nas escolas e não só, para promover a literacia mediática. “Há 10 anos, usavam-se recortes de jornais nas aulas a propósito do tema que estava a ser abordado para os alunos debaterem”, recorda Octávio Lima sobre o tempo em que lecionava. Por sua vez, João Freitas reforça que “as pessoas têm de ser ensinadas a selecionar informação”, em vez de os media o fazerem por elas.
Na ótica de João Freitas, hoje há mais tentativas de “criar informação falsa do que no passado”, pelo que a sua maneira de olhar para a informação é “sempre com alguma desconfiança”, diz ao DL. E especifica: “Até quem quer passar a informação de forma correta tem dificuldade.” No caso da Internet, os dados aparecem atualmente como verdade quando, antes, o que estava online era “à partida mentira”, opina.
Sofia Branco considera que sempre existiu manipulação de informação, mas que hoje ganhou “uma dimensão muito mais preocupante” com as redes sociais. E é precisamente nessas plataformas que se centra um dos problemas apontados pelos leitores e jornalistas: “O jornalismo está numa fase em que se deixa levar em demasia no ritmo das redes sociais e na forma como partilham conteúdos”, destaca.
Mas há uma distinção que, segundo Sofia Branco, precisa de ser feita. Primeiro, que os jornalistas trabalham sob um código deontológico, ao contrário das redes sociais, que “não têm código ético de espécie alguma”, afirma. E continua a explicar: “Por mais críticas que tenham, todas legítimas e devem ser ouvidas, podem ter a certeza de que isto não é uma estrutura de engano, pelo contrário, é uma coisa que busca a verdade.”
“As redes sociais hoje dizem-nos como pensar. O jornalismo não é isso que deve fazer”, acrescenta. Por outro lado, o jornalismo “dá todas as ferramentas possíveis para que a pessoa pense e tire as suas conclusões”, sublinha a jornalista. Além disso, ainda que exista “mau jornalismo”, admite, realça que “as pessoas podem confiar numa estrutura acerca da qual se podem queixar, pedir correções, fazer direitos de resposta – toda uma série de garantias, enquanto cidadãos”.

João Freitas acredita que o papel do jornalismo na formação de cidadãos informados é “determinante”. Homem da ciência, aplica um critério usado na sua área para avaliar se uma notícia é credível: a validação. “Para alguma coisa ser validada, ela tem de ser revista e reconhecida por várias entidades. Uma informação, para ser real, não pode aparecer só num jornal”, explica o leitor a sua perspetiva.
Noutro tópico, João Freitas considera que “há uma grande necessidade de pôr as notícias o mais depressa possível cá fora” mas que isso nunca deveria ser “à custa da validação da informação”. Em resposta, Vitor Tomé concorda com a afirmação, porém, diz ao DL que, “às vezes, o mais depressa não quer dizer que seja a notícia mais fiável”.
Aliás, o que pode acontecer quando uma órgão de comunicação social é o primeiro a publicar algo é ser recebido pelo público com alguma desconfiança, uma vez que “as pessoas têm a sensação de que as primeiras versões das notícias são ao calha”, ou seja, sem a devida verificação. Segundo Vitor Tomé, este fenómeno pode “contribuir para o que se chama de evitar notícias ou news avoidance”.
Adriana Rebelo também acompanha o Diário da Lagoa desde a sua criação e vê o jornalismo como “um pilar da democracia”. Costuma verificar se a notícia vem de uma “fonte reconhecida e de confiança”, se cita fontes oficiais ou especialistas, e se apresenta dados concretos e não só opiniões. Além disso, à semelhança de João Freitas, procura cruzar a informação com outros órgãos de comunicação social para “confirmar se é consistente”, partilha com o DL.
Por sua vez, Octávio Lima acredita que os títulos das notícias são outro aspeto importante, uma vez que são “meio caminho andado para uma pessoa ser atraída e ler”, mas que podem ser “enganadores quando não condizem com o texto”, o que, na sua opinião, tem de ser confirmado com uma “leitura rápida” do texto antes de uma leitura mais profunda.
O jornalista Vitor Tomé vai mais além e acredita que “também cabe ao leitor, se quer saber diferentes pontos de vista, em vez de esperar que um mesmo jornal exprima todos”, procurar ler um determinado assunto em diferentes órgãos de comunicação, que terão perspetivas distintas. E acrescenta: “É necessário criar condições para que haja uma grande diversidade ao nível dos media.”
Este último tópico surge em resposta a um pensamento de Octávio Lima, que diz respeito aos artigos de opinião. “Muitas vezes, o tipo de colaboradores chamados para painéis não cobrem o espectro total da sociedade portuguesa”, salienta. Por sua vez, Vitor Tomé reage: “Nos painéis não pode estar toda a gente representada, não cabe, aliás. Não podem intervir todos ao mesmo tempo.”
Já a perspetiva de Eduardo Marques, que acompanha o DL há dois anos, é diferente: “Em Portugal, o jornalismo não está bom e a população não compreende a sua função.” Para o leitor, os media estão “alinhados a agendas políticas neoliberais” e, por isso, “já não há um jornalismo livre”. Além disso, considera que hoje “a maior parte dos media tradicionais estão completamente reféns de interesses económicos”. A esta questão, Sofia Branco responde: “Não acho de todo que a maioria dos jornalistas em Portugal estejam nessa situação. Acho que tentam dar o seu melhor, embora, obviamente, haja falhas.”
A Associação Literacia para os Media e Jornalismo procura desde 2019 apoiar professores e outros públicos em Portugal, ao oferecer ferramentas, recursos e metodologias que possam ser aplicadas em práticas de literacia mediática dentro e fora da escola, incluindo nos Açores. Este projeto tem jornalistas e académicos especialistas da área do jornalismo responsáveis pela formação de docentes, em sessões com componentes teóricas e práticas.