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“A ciência não tem de anular a fé nem a fé tem de anular a ciência”

Em entrevista ao Diário da Lagoa, o enfermeiro e romeiro Hélio Ponte reflete sobre como a espiritualidade e a evidência clínica se complementam no cuidado ao próximo, num testemunho onde a farda do hospital e o xaile da romaria se unem pelo mesmo propósito: a vida

Hélio Ponte nasceu em Vila Franca do Campo onde viveu até 2004, atualmente reside na Ribeira Grande © ACÁCIO MATEUS

Hélio Ponte nasceu em Vila Franca do Campo no ano de 1976, onde viveu até 2004, mas sem nunca perder a ligação à terra de origem. Atualmente vive na Ribeira Grande com a esposa e o filho. Toda a família e ascendentes são de Vila Franca do Campo.

Viveu uma infância normal, sem luxos, no berço de uma família humilde. Enquanto criança, passou muito tempo com os amigos, em particular no cais do Tagarete, mantendo sempre uma estreita ligação à igreja, inicialmente como acólito.

Filho de pai pescador e uma de família ligada ao mar, viu o pai mudar de vida quando passou a motorista marítimo, mas sem perder o ‘chão’ de água. A mãe, doméstica, tratava das lides da casa.

É o filho mais velho de três – irmão de Raquel e José Mário – e o seu percurso académico começou na então Escola Primária de Vila Franca do Campo (atualmente EB1/JI Prof. António dos Santos Botelho), Escola Preparatória de Vila Franca do Campo (agora designada de EB/S Armando Cortês-Rodrigues), Escola Secundária Antero de Quental e, mais tarde, Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada (atualmente Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores).

Nesta entrevista, fala da fé, da romaria, do ser romeiro, do ser enfermeiro e de como a ciência e a fé se podem complementar na salvação de pessoas.

© ACÁCIO MATEUS

DL: Quando decidiu ser enfermeiro?
O meu ensino secundário, por vários fatores, não foi totalmente linear. Alguns sobressaltos, dúvidas talvez típicas da idade. Nunca fui um “aluno de excelência”, mas tinha consciência que sempre dei o meu melhor. Em 1997 fiz exames nacionais e iniciei o curso de enfermagem nesse mesmo ano, ainda como curso de bacharelato terminando em 2000, mas tivemos oportunidade de fazer de imediato o ano complementar de formação em enfermagem que terminou em 2001 dando-nos a equivalência a licenciatura. Nesta altura já enfermeiros formados há vários anos já estavam a regressar aos bancos da universidade para obterem a mesma equivalência. Foi uma mais-valia ter-nos sido dada essa oportunidade.

DL: Foi algo que já queria ou foi uma oportunidade de carreira/estabilidade?
Um misto de ambas. Talvez tenha descoberto essa apetência bem tarde ou, se calhar, até foi no momento certo, será sempre uma incógnita, mas não me arrependo de nada e tenho a certeza que faço-o com rigor e dedicação. Não gosto de falar do termo “vocação”, acho demasiado forte e não acho que se adeque por completo a esta profissão. É, acima de tudo, necessário o saber, saber estar e saber ser. Na altura era uma profissão com muita saída e colocação garantida. Também foi uma oportunidade de estabilidade de carreira e rapidamente (em menos de um ano) entrei para os quadros do HDES.

DL: Sempre trabalhou na mesma área ou tem vindo a mudar de área?
Desde que comecei a exercer atividade profissional foi sempre nesta área e na mesma instituição, o HDES.

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DL: Ser romeiro foi uma decisão repentina ou já tinha outros familiares romeiros na família que o foram “puxando” para a romaria?
A pergunta foi muito bem colocada: desde quando és romeiro e não desde quando vais de romeiro. São duas perspetivas completamente diferentes porque a romaria é uma vivência para a vida e não só aqueles oito dias. Acaba por ser uma conduta e não um mero rito anual de penitência. Até podemos questionar o porquê deste penitenciar nos dias de hoje, mas não é uma procura de sacrifício desmedido porque, acima de tudo, quer-se misericórdia e não sacrifícios. Acaba também por ser um “peso” e responsabilidade porque somos logo apontados ao mínimo deslize no dia a dia. Não participamos numa romaria por sermos “santos e exemplo” (nunca haveria romarias assim), vamos na mesma por termos um propósito e um chamamento. Obviamente que há, infelizmente, quem se desvie do que é fazer e estar numa romaria.

Nunca tive familiares próximos que fossem romeiros na altura em que comecei. Fiz a minha primeira romaria em 2006 e desde então nunca mais deixei a mesma. Só me arrependo de não ter começado mais cedo. No entanto, tal não foi possível por múltiplos fatores, especialmente os estudos. Vila Franca do Campo só retomou as romarias no ano de 2000 depois de um grande interregno desde 1979 e, em boa hora, voltaram nas pessoas dos irmãos Carlos Saêta, José Pimentel e Hermínio Sousa, ficando depois entregue ao nosso atual mestre, irmão Carlos Vieira, e melhor entregue não poderia ficar.

Sempre gostei de ver os ranchos de romeiros, sempre tive a minha ligação à igreja e aos seus movimentos, como acólito, escuteiro e no Grupo de Jovens Vicentinos, mas nunca surgira oportunidade de o concretizar. Depois de ler o livro “Diário de uma Romaria”, de 2005, do irmão mestre Carlos Vieira, foi o incentivo que faltava. Não me sentia necessariamente afastado da igreja nessa altura, mas faltava algo e a romaria foi o que faltava.

Lembro-me perfeitamente da minha primeira romaria. A minha primeira pernoita de sempre na Fajã de Cima foi mesmo um testar das forças e de força de vontade, não pela família que nos recebeu que foi de um carinho formidável, mas por outros fatores desde água fria e eu, por respeito e ainda acanhado e novato, tive vergonha de dizer, desde barulho de vizinhos…dormi pouco ou mesmo nada. Na madrugada seguinte, no Alto da Mãe de Deus, em Ponta Delgada, só me apetecia vomitar. Não estava fisicamente bem e questionei mesmo o que eu fazia ali. Foi o primeiro e único momento desde que sou romeiro que essa “tentação” de sair da romaria me passou pela cabeça. Não estava mesmo bem. Mas os irmãos mais experientes foram sempre me incentivando. A refeição na paragem na Casa de Saúde de Nossa Senhora da Conceição foi o volte-face. Desde então que não consigo imaginar um ano sem ter essa semana de isolamento e introspeção. Sei bem ao que me vou sujeitar, ao desconforto, à dor, a poucas horas de sono, a dias que podem ser mesmo violentos. Sim, dependendo de várias circunstâncias, uma romaria pode mesmo ser violenta física e psicologicamente. Os três anos de interregno devido à pandemia não foram fáceis de lidar.

DL: Sendo um homem da medicina, onde por vezes se operam verdadeiros milagres que salvam pessoas, até onde vai a medicina e onde começa a fé/devoção das pessoas?
Numa das reuniões de preparação da romaria falamos precisamente disso, do equilíbrio entre a fé e a ciência. Faz-se a comparação com as duas asas de uma ave. A mesma só voa em segurança se as duas asas estiverem bem. Uma asa é a razão (a ciência) e a outra é a fé (Deus). É perfeitamente possível esse equilíbrio desde que vejamos esse equilíbrio na base da complementaridade e não do conflito. São duas formas complementares de se buscar a verdade. O próprio Einstein via a ciência e a racionalidade do universo como evidência no limite de algo superior, de uma inteligência criadora. Várias pessoas ligadas à igreja foram também cientistas como Georges Lemaître, sacerdote, que desenvolveu a teoria do Big Bang, do átomo primordial. A ciência explica como aconteceu e a fé o porquê de acontecer. A ciência não tem de anular a fé, nem vice-versa. Na nossa civilização ocidental, se é que é permitido usar esta expressão sem que me atirem sete pedras, a criação de universidades cristãs são o exemplo de como a fé cristã pode fomentar o conhecimento e desenvolvimento científico. A meditação também é vista como ciência da mente.

Entendo que consegui uma formação catequética e católica lúcida no sentido de entender que há espaço para a fé e a ciência conviverem e complementarem-se uma à outra. Efetivamente, já fui questionado nesse sentido, não necessariamente apenas relacionado com a profissão que exerço, mas porque há uma correlação muitas vezes errada com o grau de ensino e a crença numa religião, credo ou fé. Uma não invalida a outra, mas é certo que me baseio no dia-a-dia na evidência científica no exercício da minha profissão.

© ACÁCIO MATEUS

DL: Já teve algum paciente que pensou que poderia não sobreviver e, sem que nada aparente o pudesse justificar, recuperou-se?
Sim, várias vezes. Cada pessoa tem mecanismos fisiológicos ou condicionantes provocados por doença que originam diferentes formas de adaptação à alteração do seu estado normal de saúde como situações de traumatismo grave, por exemplo, em especial das células nervosas. Neste preciso momento em que partilhamos estas ideias acredito que está a acontecer uma situação destas num caso extremamente delicado e instável.

Mas voltando ao tal equilíbrio necessário entre a fé e a ciência, a primeira também pode influenciar decisões relacionadas com o prolongamento de medidas de suporte artificial de vida ou até mesmo interrupção da mesma em casos extremos. Há sempre a questão de tratamentos ou prolongamento dos mesmo que se transformam em autêntica distanásia. A dignidade até no morrer está acima de tudo, e um morrer sem dor acima de tudo. É lícito usarmos a fé para manter medidas desproporcionadas ao doente que até podem atentar à dignidade humana? É o tal equilíbrio que é necessário.

© ACÁCIO MATEUS

DL: A fé salva pessoas?
Sendo católico não posso excluir isso, mas como disse anteriormente, no dia-a-dia, baseio-me na evidência científica no exercício da minha profissão. A fé, numa vertente catequética também é falada nas nossas reuniões de preparação. É o acreditar sem ver. É um dom gratuito da graça de Deus e não o resultado de obras humanas, a tal dicotomia entre a ciência como evidência e a “falta” da evidência que é a fé, o acreditar sem ver. Mas a fé também pode ser intelectual, não tem necessariamente de estar ligada a uma crença ou religião, mas também a uma filosofia de vida, por exemplo. A mesma promove a ligação a algo maior que não se vê, o tal acreditar sem ver. Pode trazer paz e conforto em momentos difíceis, de forma alguma está descartado que a fé não desempenhe o seu papel na recuperação de uma doença, nem que seja no conforto e esperança.

Este é um facto real. Um Cavaleiro da Ordem de Santiago de Compostela, residente em Ponta Delgada, em 2013 confiou fervorosamente a oração ao nosso rancho por um bisneto que tinha nascido com várias complicações. Os médicos tinham muitas reservas sobre a sobrevivência do mesmo. Na romaria de 2014 esta intenção foi rezada fervorosamente, assim como todas as outras, e a verdade é que o menino é hoje uma criança saudável. O seu bisavô testemunhou esta vivência à Ordem. A mesma atribuiu a Medalha de Ouro da Ordem ao Rancho de Vila Franca do Campo. Terá sido só a medicina? A oração e a fé? Ambas juntas? Dá que pensar estas e muitas outras situações. Como já foi dito numa romaria “busca-se também aqui o que a Ciência não resolve!”

Outra situação que também dá que pensar. Na igreja da Senhora do Rosário na Povoação há uma imagem invocada como Senhora do Ó ou Senhora do Parto. Invocada para que a futura mãe tenha uma “hora pequenina” (parto sem dificuldade) ou por quem não consegue engravidar. Duas situações ocorreram em que após anos a tentar engravidar, mesmo com o auxílio de medicação tal não aconteceu e após o pedido de oração do nosso rancho à mesma imagem no ano seguinte estava-se a agradecer a concretização do pedido de oração. Inclusivamente este ano uma das mães levou a sua menina à igreja acompanhando-nos na oração.

Semana Cultural da EBI de Ponta Garça une tradição, ciência e desporto

Cerca de 200 alunos encerraram as festividades esta sexta-feira com uma romaria escolar até à igreja de Nossa Senhora da Piedade, marcando o culminar de um programa diversificado que envolveu toda a comunidade educativa

© EBI PONTA GARÇA

A Escola Básica Integrada (EBI) de Ponta Garça, no concelho de Vila Franca do Campo, viveu durante os últimos dias, uma intensa Semana Cultural que transformou a rotina dos seus alunos e professores. O encerramento oficial aconteceu esta sexta-feira, 27 de março, com uma simbólica romaria escolar.

Organizada pela Associação de Pais e Encarregados de Educação, a iniciativa levou cerca de 200 alunos, acompanhados por docentes e assistentes operacionais, numa caminhada de fé e tradição até à igreja de Nossa Senhora da Piedade, onde se celebrou uma eucaristia. Segundo a nota enviada pela direção da escola ao Diário da Lagoa, o evento terminou com um encontro familiar no Polivalente da Casa do Povo, reforçando os laços entre a escola e a freguesia através desta herança secular dos romeiros açorianos.

© EBI PONTA GARÇA

Ao longo de toda a semana, o estabelecimento de ensino foi palco de um vasto leque de atividades que cruzaram o saber tradicional com as novas tecnologias. No campo da literatura, os destaques foram para o “Chá com letras” — onde as avós de Ponta Garça partilharam histórias de tempos passados com os mais novos — e para a apresentação do livro “Aqui nasceu Ponta Garça”, de Renato Nunes. A escola soube também adaptar-se aos tempos modernos com o concurso Booktoker (via TikTok) e as Olimpíadas da Língua Portuguesa através da plataforma Kahoot. No plano ambiental e científico, os alunos hastearam a bandeira Eco-Escolas, participaram em observações de cetáceos com a Terra Azul e exploraram a robótica e a astronomia com o apoio do OASA e do Expolab.

© EBI PONTA GARÇA

O desporto e o futuro profissional dos jovens não foram esquecidos nesta edição. Os alunos puderam ainda visitar o Complexo Desportivo Pedro Pauleta, onde foram recebidos pelo próprio antigo internacional português, e participaram em sessões de manutenção física e dança.

A vertente do artesanato e da economia local também esteve presente com bancas de guloseimas de Páscoa, venda de plantas e trabalhos em tecido. A técnica tradicional da espadana foi um dos pontos altos da programação, com a realização de um atelier onde os alunos produziram flores a partir desta planta.

A Semana Cultural incluiu ainda a II Edição da Feira de Empregabilidade, Formação e Educação, que contou com uma mesa-redonda de antigos alunos e a participação de diversas escolas profissionais e forças de segurança (PSP e GNR), servindo de contacto direto entre a comunidade escolar de Ponta Garça e as opções de formação e carreira disponíveis na região.

Faial acolhe 25.º Encontro da Rede de Centros Ciência Viva

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O Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, na ilha do Faial, acolhe esta segunda-feira, 12 de maio, da sessão “Os Centros Ciência Viva: a diversidade nas suas multidimensões”, no âmbito do 25.º Encontro da Rede de Centros Ciência Viva.

O encontro, que decorre de até 13 de maio, tem como objetivo promover a reflexão sobre o impacto científico, social, cultural e económico da Rede Ciência Viva em Portugal, destacando a interseção entre ciência, inovação e sociedade como motor de inspiração e colaboração.

De acordo com o secretário regional do Ambiente e Ação Climática, Alonso Miguel, presente no evento, “trata-se de um prestigiante evento de âmbito nacional, que se realiza pela segunda vez nos Açores, depois de em 2017 se ter realizado em São Miguel, no Expolab, e que tem um significado profundo para o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, para a ilha do Faial e para a Região Autónoma dos Açores”.

Alongo Miguel explica que “a Rede Centros de Ciência Viva configura um instrumento fundamental para a disseminação do conhecimento e da investigação científica e tecnológica em Portugal, funcionando como plataformas de interação e de aproximação dos cidadãos e das instituições à ciência”.

O secretário regional lembra igualmente que o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos foi integrado, muito recentemente, em novembro de 2024, na Rede de Centros de Ciência Viva, como membro associado, juntando-se ao Expolab, na ilha de São Miguel, como únicos representantes da região, num lote muito restrito, de apenas 21 Centros de Centros que integram esta rede, “prestigiando, assim, a região, em geral, e a ilha do Faial, em particular”.

Alonso Miguel destaca ainda que “esta é uma oportunidade única para garantir o desenvolvimento de projetos colaborativos de investigação e de educação ambiental que, com certeza, poderão permitir aprofundar o conhecimento científico sobre este ecossistema único, consolidando o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos como um espaço de excelência no domínio da literacia científica e ambiental”.

“O Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos acrescenta também valor e notoriedade à Rede de Centros Ciência Viva, contando a fascinante história da erupção que originou o terreno emerso mais recente de Portugal”, acrescenta o secretário regional do Ambiente.

A iniciativa conta com a presença da presidente da Rede e diretora do Pavilhão do Conhecimento, Rosalia Vargas, assim como representantes das equipas de direção dos 21 centros que integram a rede.

Recreios das escolas ganham vida com o projeto “Nichos de Biodiversidade”

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No âmbito do projeto europeu LEVERs (Learning Ventures for Climate Justice), do qual o Expolab -Centro Ciência Viva é instituição parceira, responsável pela implementação das atividades em Portugal, está a ser desenvolvido o projeto educativo “Nichos de Biodiversidade”, segundo nota enviada pelo ExpoLab.

O projeto tem o objetivo de, a partir da criação de jardins de Laurissilva, promover uma maior compreensão sobre a importância da manutenção de uma biodiversidade resiliente, como forma de mitigação das alterações climáticas, lê-se.

Os alunos têm a oportunidade de visitar áreas de Floresta Laurissilva, contactar com investigadores e implementar ações de monitorização dos seus jardins.

Ao longo da próxima semana, entre 27 e 31 de janeiro, serão plantados cinco jardins, em cinco escolas distintas: dia 27, na EB1/JI Dr. Francisco Carreiro da Costa; dia 28, na EBI Lagoa (Fisher); dia 29, na Escola Secundária de Lagoa; dia 30, na EBI Ginetes; dia 31, no Jardim Escola João de Deus.

O projeto LEVERs tem como premissa central o uso da educação como promotor da justiça
climática. Através da criação de “Learning Ventures” em 9 regiões (Bélgica, Chipre, Eslovénia, Grécia, Irlanda, Portugal, Sérvia, Suíça e Reino Unido), co-desenhadas por 11 instituições parceiras, lideradas pelo TRINITY COLLEGE DUBLIN, irá desenvolver e implementar programas de literacia científica, recorrendo a novas formas de ação em prol da justiça climática, através de parcerias locais com múltiplos stakeholders (escolas, universidades, unidades de investigação, centros de ciência, ONGs, entre outros), explica a mesma nota.

Numa ação promovida pelo ExpoLab – Centro Ciência Viva, desenvolvida em parceria com a SPEA -Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e o Serviço Florestal de Ponta Delgada – Direção Regional dos Recursos Florestais e Ordenamento Territorial; com o apoio da Câmara Municipal de Lagoa, CEFAL – Centro de Educação e Formação Ambiental de Lagoa, MUSAMI – Operações Municipais do Ambiente EIM SA, Câmara Municipal de Ponta Delgada, Junta de Freguesia de São Pedro e Junta de Freguesia de Ginetes.

Maria João Sousa regressa à escola para desenvolver oficina de ciência

© CM NORDESTE

No âmbito do programa “Cientista Regressa à Escola”, o executivo da Câmara do Nordeste, representado pelo vice-presidente, recebeu a cientista Maria João Sousa, formada em Bioengenharia, natural da freguesia da Lomba da Fazenda, antiga aluna da escola primária daquela freguesia e da escola básica e secundária do Nordeste.

A cientista regressou às duas escolas básicas do agrupamento da escola básica e secundária do Nordeste para realizar oficinas de ciência com as crianças do 4.º ano, tendo o programa o apoio da Direção Regional para a Ciência e Tecnologia.

Para os promotores do programa, o regresso da cientista às suas origens “é uma excelente oportunidade para criar pontes e estreitar relações entre a cientista e o município e aumentar nas crianças a curiosidade e o gosto pela ciência”.

Tal como no ano letivo de 2021/2022, a Câmara Municipal do Nordeste fez questão de acolher Maria João Sousa nos Paços do Concelho e fazer o registo das oficinas que foram desenvolvidas nas duas escolas do ensino básico.

Tal como na última visita, o vice-presidente da autarquia demonstrou “enorme satisfação por ver o percurso de excelência que têm tido vários alunos do concelho, e demonstrou a abertura do município para a eventualidade de alguma parceria nas áreas de investigação que a cientista venha a desenvolver e que seja benéfica para o concelho do Nordeste”.

Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos integra Rede Nacional de Centros Ciência Viva

© DL

O Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, na ilha do Faial, tornou-se membro associado da Rede de Centos Ciência Viva.

O secretário regional do Ambiente e Ação Climática, Alonso Miguel, procedeu hoje, 11 de novembro, à assinatura do protocolo de integração do Centro de Interpretação na Rede nacional.

Alonso Miguel realçou o trabalho desenvolvido para a disseminação do conhecimento e da investigação científica, “assumindo-se como um polo dinamizador da educação e literacia científica e tecnológica em Portugal”.

“Estes centros representam relevantes plataformas de interação e de aproximação dos cidadãos e das instituições à ciência, bem como repositórios essenciais de conhecimento e de informação histórica e contemporânea em matéria ambiental, cultural e social, com reflexos importantes para o desenvolvimento das nossas sociedades”, prosseguiu.

Segundo o governante, “a integração do Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos num lote restrito de centros que integram a Rede de Centros de Ciência Viva do País, é um momento que muito prestigia a Região e a ilha do Faial, em particular”.

O Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos junta-se ao Expolab, instalado na cidade da Lagoa, em São Miguel, como membros associados da Rede de Centros de Ciência Viva, e como representantes da Região Autónoma dos Açores num conjunto de 21 Centros em todo o território nacional.

O Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, inaugurado em agosto de 2008, é um espaço que valoriza o património científico e sociocultural, tendo um caráter informativo e didático.

O governante sublinhou ainda que “com esta integração, como membro associado da Rede de Ciência Viva, neste ano, em que se comemora os 67 anos do início da erupção, o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos reafirma o seu compromisso para com a educação ambiental, a investigação científica e a promoção do turismo sustentável”.

Alonso Miguel concluiu afirmando que “trata-se de uma oportunidade única para reforçar o conhecimento científico, através de projetos de investigação e de educação ambiental,  com colaboração nacional e internacional, que, com certeza, podem aprofundar o conhecimento sobre este ecossistema único e promover a literacia científica”.

Nuno Moniz, o investigador açoriano de Inteligência Artificial nos Estados Unidos que cresceu entre computadores

Para o investigador natural da ilha do Faial, “os Açores estão numa posição particularmente boa para explorar a IA” por exemplo nas áreas marinha, sismologia ou agricultura, diz em entrevista ao Diário da Lagoa

Nuno Moniz é professor associado de investigação na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos da América © D.R.

Cresceu rodeado de computadores. Tirou licenciatura e mestrado em Engenharia Informática. Nuno Moniz, 37 anos, natural da ilha do Faial, começou em Portugal a sua carreira como professor e investigador e desenvolveu projetos premiados. Com a aplicação meuparlamento.pt recebeu um prémio internacional e outro nacional. Na sua tese de doutoramento, desenvolveu um método para antecipar a popularidade de conteúdo online, que lhe valeu o prémio Fraunhofer Portugal Challenge 2017.

Há cerca de dois anos, Nuno Moniz iniciou uma aventura nos Estados Unidos da América, onde investiga temas como o desenvolvimento responsável da Inteligência Artificial (IA),  automatização de previsão de casos e valores e privacidade de dados.

DL: Qual foi o seu percurso formativo?
Sempre tive um grande interesse por computadores. O meu pai tem uma informática no Faial. Durante o meu percurso inicial, acabei por ficar indeciso entre três áreas:música, história e engenharia informática. No fim acabou por ganhar engenharia informática. Era o amor mais antigo. Tirei licenciatura e mestrado em Engenharia Informática no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP).Ganhei uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia para fazer o doutoramento e fi-lo na Universidade do Porto (UP). Acabei em 2017 e a partir daí continuei o meu trabalho enquanto investigador na INESC TEC. Comecei como professor convidado na Faculdade de Ciências da UP. Há três anos, comecei a explorar outras opções, principalmente fora do país. Aceitei uma posição na Universidade de Notre Dame, no Indiana, Estados Unidos da América (EUA). Estou lá agora como professor associado de investigação, no instituto particular Lucy Family Institute for Data & Society. Desde 2023 sou diretor de um centro conjunto com a Notre Dame-IBM Technology Ethics Lab.

DL: Que investigação realiza nos EUA?
A minha área de investigação, de forma geral, é a inteligência artificial (IA), mas olho para três coisas. A primeira é um tópico particular que se chama “aprendizagem desbalanceada”: como se pode automatizar a previsão de casos ou de valores que não são tão comuns. Olho também para problemas de privacidade de dados e para um tópico mais geral, que inclui várias questões ligadas ao desenvolvimento responsável da IA. Isso toca o aspeto prático da questão: como é que na prática se desenvolve tecnologia de IA que pauta por um guia de responsabilidade desde os seus momentos de desenho, desenvolvimento, progressão, até aos aspetos de interação.

DL: Em que outros trabalhos está envolvido?
Grande parte daquilo que tenho feito recentemente é o tipo de trabalho que realmente me entusiasma, para além do trabalho de organização e serviço à comunidade. O ano passado organizei a Conferência Portuguesa de IA na ilha do Faial. A nível de trabalho científico, estou a trabalhar com colegas da Universidade Católica da Croácia no conceito de modelação de memória, ou seja, investigar de que forma ferramentas como o ChatGPT podem modelar a nossa memória de momentos históricos.

Estou a desenvolver um projeto com o hospital oncológico infantil do México, que olha para um problema muito particular das comunidades indígenas. É difícil desenvolvermos trabalho quando não temos informação e dados sobre os problemas. Estamos a desenvolver um projeto que facilita a escolha da informação diretamente da fonte, ou seja, das comunidades indígenas do México para permitir que a comunidade médica perceba o impacto e situação das crianças que têm cancro. 

Tenho também desenvolvido alguns projetos mais académicos, com a unidade de investigação da IBM Research,  desde em transparência em IA, governança da IA, a nova geração de soluções para a IA, principalmente aquelas que tenham baixo custo energético.

DL: A IA pode ser aplicada em inúmeras situações que podemos não ter noção?
Temos uma tendência para sermos muito positivos com a tecnologia. Acabamos, muitas vezes, por nos deslumbrar com feitos tecnológicos. A IA tem um potencial imenso para ter um impacto fundamental numa série de áreas da nossa vida coletiva que são urgentes, desde a medicina, agricultura, clima, mas muitas vezes não são essas as áreas às quais somos interpelados com múltiplas notícias sobre como esse tipo de tecnologia pode nos ajudar a melhorar. Depois, há toda uma série de questões com a IA que têm de ser reconhecidas: a IA quando desenvolvida e utilizada e posta disponível ao público em geral, quando não é feita de forma ponderada, responsável e humilde, pode ter impactos societais graves e alguns deles irreversíveis. Acho que esta é a adolescência da IA: aquele encontro com a realidade e perceber que não estamos sozinhos no mundo e que aquilo que fazemos tem impacto concreto, por isso já não podemos permitir certas atitudes. Esse é um debate que assistimos hoje. Não é só discussão pública, mas também uma legislação e regulamentação não só a nível nacional como internacional. Acho que não há nenhuma organização internacional que não esteja a ponderar de que forma é que a IA poderá impactar o seu dia a dia e a operação.

DL: Acredita que a IA representa algum perigo para a humanidade?
Não acho que seja um perigo para a humanidade, por definição. Isso faz parte de uma narrativa sem qualquer base prática. Estamos a falar de algo que é incapaz de relatar histórias ou factos históricos de forma correta; que tem dificuldade, às vezes, em fazer matemática simples. Estamos muito longe de qualquer catástrofe a nível de IA, mas isso não quer dizer que não existem perigos concretos, hoje. O que muitas vezes ouvimos sobre os perigos da IA é uma distração completa. Os problemas dessa tecnologia são mais difíceis de discutir, porque existem questões concretas, por exemplo, sobre o ambiente.

DL: Poderemos vir a ter cidades geridas completamente por IA?
Coloco essa questão na categoria de distrações. No entanto, na gestão das cidades, existem imensas oportunidades de como a IA pode ser utilizada de uma forma extremamente positiva. Por exemplo, em antecipar situações de bloqueio ou problemas do dia a dia das cidades, desde focos de poluição e trânsito, até no desenho de políticas públicas. Precisamos de olhar para as questões concretas de como a IA é útil ou inútil/perigosa tendo em conta aquilo que está a ser desenvolvido hoje. Esses problemas são gravíssimos. Estamos num frenesim de construção de centro de dados e centros de computação avançada, de uma forma completamente massiva, que tem um impacto muito considerável no ambiente e que é perigoso para a sociedade.

DL: Como ainda poderemos aplicar a IA aos Açores?
Penso que os Açores estão numa posição particularmente boa para explorar a IA. Os Açores têm desde a parte da biologia marinha, sismologia, dependência da agricultura, enfim. Existe uma série de domínios muito práticos nos quais a IA pode ser explorada.  Há muitas coisas que podem ser feitas, por exemplo, ao nível de perceber melhor aquilo que é a realidade das pescas nos Açores, os ciclos das espécies que nos são muito queridas e economicamente vantajosas. Também, em termos da sua operacionalidade, a nível do governo e das suas instituições. No entanto, temos de ter sempre presentes as limitações de uma região como os Açores e Portugal num todo: a restrição de fundos para uma exploração mais ambiciosa. Já existe evidência suficiente à volta do mundo sobre os benefícios de IA em regiões como os Açores, para haver uma discussão muito guiada e particular sobre que coisa explorar. Tenho a expetativa que esse debate, se ainda não aconteceu ou está a acontecer, que venha a acontecer porque o potencial positivo é claro e é muito entusiasmante.
Acho que em relação aos Açores, seria extremamente interessante perceber até que ponto podemos formar os nossos próprios cientistas nesta área. Existe um potencial enorme de exploração concreta e eficiente de IA em problemas que encontramos nos Açores, só que nós não podemos estar reféns de “fornecedores”. Temos de ter a capacidade autónoma de investigar e desenvolver soluções para os nossos problemas e a Universidade dos Açores seria uma pedra basilar.

DL: Está a sugerir criar-se um curso na área da Inteligência Artificial nos Açores?
Seria um passo entusiasmante na direção de termos iniciativa de explorar como esta área de investigação e de aplicação pode ser benéfica para os Açores.

DL:  A IA ainda não está a ser bem explorada na região?
Tendo em conta a informação que tenho, não. Imagino que não seja, muitas vezes, por falta de vontade, mas pelas limitações orçamentais. No entanto, como tudo na vida, fazemos investimentos. No que toca à nossa posição internacional vantajosa, para áreas como a biologia marinha, existe aí uma série de interseções que podem ser exploradas e estão a ser. Espero que venhamos a ver os frutos disso e que as pessoas expandem essas capacidades dos Açores de fazer investigação e desenvolvimento a nível da IA, ao nosso ritmo e ao nosso tamanho, claro.

Investigadores monitorizam contaminantes em organismos marinhos nos Açores

Estudo sobre os níveis de contaminação encontrados permite conhecer melhor as espécies comerciais, bem como alertar para os níveis considerados preocupantes para o consumidor

 Investigadora da Universidade dos Açores é quem coordena o projeto © CORTESIA INÊS MARTINS

Nos Açores desde 1999, Inês Martins nasceu em Oeiras, distrito de Lisboa, mas é na Universidade dos Açores que trabalha e se dedica à ecotoxicologia, a área que estuda “como é que os animais do mar profundo se adaptam fisiologicamente a um meio tão diferente e inóspito como o fundo do mar, e em particular, às fontes hidrotermais”. A investigadora auxiliar é a coordenadora do projeto “Conhecer para Decidir” que complementa o Plano de Monitorização Regional de Contaminantes em Organismos Marinhos para Consumo Humano (MoniPOL). Quisemos aprofundar o tema e estivemos à conversa com a investigadora.

Como surgiu a ideia de monitorizar contaminantes em pescado nos Açores?
A ideia surgiu há uns cinco ou seis anos e foi posta em prática no final de 2022.
A necessidade deste projeto era grande, sabíamos muito pouco em termos científicos. Por sermos ilhas de origem vulcânica, temos metais pesados presentes no oceano, as espécies que habitam a coluna de água do Atlântico, à volta das ilhas, estão mais expostas.
Desenvolvemos trabalhos ao longo dos anos, sabíamos que havia espécies que acumulavam mais do que outras, mas nunca tinha sido feito um estudo dirigido às espécies que são procuradas comercialmente e que entram na alimentação dos consumidores.
E sabendo, à priori, que comemos cada vez mais espécies de fundo e que estas, à partida, acumulam mais contaminantes, é necessário saber o que é que isso significa para a saúde humana. Esse interesse não era só científico, mas também público, por isso o Governo regional quis financiar. Decidiu-se então fazer uma lista de espécies que, não sendo só comerciais, poderiam efetivamente ser espécies com mais quantidade de contaminantes. O objetivo é trazer valor acrescentado ao nosso pescado, conhecer o que comemos. 

DL: De que tipo de metais se trata?
Por exemplo, mercúrio, cádmio e chumbo. Podem até ser os chamados metais essenciais, que o nosso corpo reconhece como sendo necessários como o ferro, o cobre e o zinco, o manganês. Todos são relevantes para o conhecimento do peixe que consumimos, é uma contaminação natural que deve ser monitorizada para podermos considerar o número de vezes que consumimos as espécies que apresentam maior acumulação de contaminante.
O mercúrio, o cádmio, o chumbo, e o alumínio também, são os chamados metais pesados. Antes era usada esta nomenclatura porque são metais de peso molecular muito elevado, mas agora também é usada para caraterizar os tais metais que o corpo conhece sempre como um corpo estranho.
Nos Açores, por sermos de origem vulcânica, toda esta lista de metais tem origem magmática. As fontes hidrotermais que temos na Zona Económica Exclusiva são um fator de entrada desses metais para a coluna de água, juntamente com a geologia que carateriza as nossas ilhas. A erosão das rochas liberta os metais para a água e esses metais que estão presos na forma mineral, nas rochas, vão se libertando e tornam-se disponíveis para os organismos marinhos. Há metais que ficam acumulados e que se vão amplificando na cadeia trófica. Os grandes predadores que comem os animais dos níveis da cadeia trófica mais baixa vão acumular esses mesmos metais.

DL: O atum está na lista. Não receiam uma reação dos pescadores?
Pensamos nisso, por isso temos um projeto de comunicação, que é o “Conhecer para Decidir”. Com a ajuda do Observatório do Mar dos Açores, temos programas não só nas escolas, mas também nas comunidades de pescadores. O patudo é sempre assunto, porque quando falamos em metais pesados as pessoas lembram-se logo da quantidade de mercúrio que o atum tem. Mas o atum, além de ser um grande predador, tem uma grande variedade de tamanhos. O patudo que é comercializado tem um tamanho e um peso que é representativo dos juvenis. Os grandes atuns, que acumulam mais metais, na realidade, não são comercializados na região com tanta frequência. As análises mostram que não é a espécie que acumula mais mercúrio. Já a melga e o boca-negra acumulam muito mais e são muito mais pequenos, mas vivem mais anos e por isso acumulam mais. Há toda uma sensibilização, ao ficarmos a saber quais são as espécies que têm mais, desmistificamos alguns mitos. Trata-se de esclarecer as pessoas, pois o receio vem do desconhecimento.

DL: Quando serão publicados os resultados?
Há um boletim que elaboramos que já tem bastantes resultados e que advém de um relatório final. Preparamos também um artigo científico. Além da informação dos contaminantes, tem também o valor nutricional. Decidimos fazer este trabalho em paralelo, porque o peixe não tem só contaminantes, tem muitas mais coisas que interessam ao consumidor, como a quantidade de proteínas, gorduras, água, sal, etc. E fizemos um gráfico dos ómegas porque é uma componente da gordura muito falada em termos nutricionais. Ainda não fizemos em muitas espécies, mas vamos fazer em muitas mais. Aumentamos a lista para espécies mais acessíveis.

DL: E há evidências de que o mar nos Açores esteja a sofrer alterações?
Não há evidências científicas. Agora vamos explorar a parte das dioxinas e também os poluentes orgânicos, porque apesar de não termos poluição industrial, temos muita poluição por macro e micro plásticos, que também são vetores de contaminação.

DL: E depois de finalizado o estudo?
O estudo vai continuar, temos contratualidade até 2027. Vamos fazer também o estudo das biotoxinas. Há uns quantos indicadores científicos que dizem que a alteração da temperatura da água do mar tem feito com que várias espécies do sul migrem mais para norte, porém ainda não há registos de que essas espécies tenham chegado aos Açores.

Investimento de cerca de 958 mil euros monitoriza contaminantes e seus efeitos biológicos nas espécies marinhas dos Açores

Diretora regional das Pescas diz que objetivo passa por “contribuir para a valorização do pescado regional”

© D.R.

A Secretaria Regional do Mar e das Pescas, através da Direção Regional das Pescas (DRP), está a financiar “na ordem dos 958 mil euros” um Plano de Monitorização Regional de Contaminantes em Organismos Marinhos para Consumo Humano (MoniPOL), durante o quinquénio 2023-2027. Os valores foram esclarecidos ao Diário da Lagoa pela própria DRP.

Trata-se de de um projeto que integra objetivos de “monitorização de contaminantes e os consequentes efeitos biológicos nas espécies comerciais” e que pretende “permitir tomar decisões mais sustentadas, no que respeita à determinação das possibilidades de pesca, implicando um maior rigor na análise, implementação e controlo das quotas anuais atribuídas, e, por outro lado, dar resposta às atuais imposições comunitárias para o setor”, segundo foi anunciado pelo Governo regional dos Açores, em dezembro de 2021.

Sobre este projeto, o DL questionou a diretora regional das Pescas, Andreia Henriques, sobre que importância tem este estudo para a Região Autónoma dos Açores.

“Este plano de monitorização de contaminantes enquadra-se nos Objetivos da Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável”, explica a diretora regional, acrescentando depois que este “pretende contribuir para a valorização do pescado regional, satisfazendo as exigências e expetativas do consumidor e ao mesmo tempo reforçar a sustentabilidade do sector de acordo com os compromissos assumidos pela tutela” em mar e pescas.

A respeito da reação que as conclusões do MoniPOL podem provocar no setor das pescas a Direção Regional das Pescas refere que ao “investirmos no conhecimento científico para uma melhor valorização do pescado, nomeadamente ao nível do risco-benefício associado ao consumo humano de diferentes espécies marinhas comerciais, antecipando potenciais ameaças e avaliando as ferramentas disponíveis para a sua mitigação, reforçamos as estratégias governativas no sector das Pescas e garantimos melhores rendimentos aos pescadores”.

Quanto à continuidade do estudo vir a abranger outras espécies, Andreia Henriques refere que: “este plano é já hoje bastante audacioso ao ser dirigido a uma dúzia de espécies de pescado com elevado interesse comercial e/ou de maior representação nas descargas em lota, designadamente o boca negra, goraz, abrótea melga, juliana, alfonsim, imperador, atum-patudo, atum-bonito, congro, veja e a lapa brava. Oportunamente, e à luz dos resultados obtidos no MoniPol, serão avaliados novos investimentos alinhados nas diretrizes da Política Comum de Pescas e da Diretiva Quadro da Estratégia Marinha.”

Os níveis de contaminação encontrados vão permitir reportar informação obrigatória, bem como alertar para os níveis considerados preocupantes para o consumidor.

Observatório Vulcanológico realiza ação de divulgação científica no miradouro Vista do Rei

© CM LAGOA

Celebrando o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, o Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA) propõe a realização de uma ação de divulgação científica no miradouro da Vista do Rei nas Sete Cidades, segundo comunicado do OVGA.

A iniciativa intitulada “UM OLHAR REAL NA VISTA DO REI” decorrerá no dia 18 de abril, naquele local, entre as 10h00 e as 12h00, e propõe “desvendar o Vulcão das Sete Cidades para além da Vista do Rei e interpretar o vulcanismo e geologia que são a base de uma das paisagens mais emblemáticas da ilha de São Miguel”.

Na ocasião, no miradouro da Vista do Rei, os técnicos do OVGA darão a conhecer aos presentes neste local as diferentes fases de formação do Vulcão das Sete Cidades, incluindo a formação da caldeira de colapso, e a diversidade de materiais vulcânicos produzidos.

De acordo com o OVGA, “pretende-se com esta atividade valorizar este local emblemático da ilha de S. Miguel, alertando para a necessidade de o conhecer para o preservar.”

O Dia Internacional dos Monumentos e Sítios foi instituído em 18 de abril de 1982 pelo ICOMOS e aprovado pela UNESCO no ano seguinte. A partir de então, esta data comemorativa tem vindo a oferecer a oportunidade de aumentar a consciência pública relativamente à diversidade do património e aos esforços necessários para o proteger e conservar, permitindo, ainda, chamar a atenção para a sua vulnerabilidade.