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O Ministério da Artificial Inteligência

Alexandra Manes

Fernando Alexandre, atual Ministro da Educação, Ciência e Inovação, bem como detentor de nome de artista de música pimba que vem atuar nas festas de Verão da freguesia, apresentou uma vasta proposta de reformas do sistema pedagógico português, tendo por base aquilo que apelidou como sendo uma visão unificadora do aparelho público.

Não é novidade para o eleitorado do nosso país a realidade de se votar num partido, ou coligação, e depois verificar que quando chegam ao poder o que estava no seu programa não é para cumprir. Há uns programas sombra que estão sempre guardados na gaveta, prontos a entrar em ação, se por acaso forem eleitos. O que se imprime e coloca disponível para o público raramente corresponde à intenção dos grandes partidos. E do partido do veneno, pior ainda, mas isso será matéria para outro dia.

Em relação às mudanças do senhor Ministro, imaginamos um gabinete cheio de adjuntos e secretários-gerais a abanar a cabeça em concordância, mesmo que muitos não percebam o que foi dito e será feito, enquanto outros sabem, mas também reconhecem a necessidade de manter o cargo e o estilo de vida a ele associado. Essa é também uma realidade bem conhecida, já retratada em muitas narrativas de ficção, que só pecam por serem demasiado meigas com a verdade. O senhor Ministro quando fala, é para cumprir, mesmo que seja para fazer mal às gentes. A palavra do chefe é dura, mas é a palavra do chefe.

Assim verificamos a nefasta extinção em curso de uma série de gabinetes e projetos estatais com resultados positivos para o país, em nome do dinheiro e da ideologia neoliberal que governa os corredores do poder. Foram várias as vozes que de imediato se levantaram em defesa de duas das instituições que correm o risco de desaparecer: o Plano Nacional de Leitura e a Rede de Bibliotecas Escolares.

Profissionais do arquivismo e da educação continuam a apelar ao coração de um governo que não quer saber, em defesa de um direito básico da Humanidade, que agora surge mais ameaçado do que nunca. Ler é uma necessidade que deveria ser elementar, porque é nas palavras que encontramos o conhecimento necessário para escapar ao obscurantismo do populismo.

Vivemos tempos desesperantes nesse sentido. Cada vez se lê menos, e quando se lê, os nossos cérebros estão atrofiados pela sensação de modernidade das redes sociais, formatados para manchetes e soundbytes, quase que incapazes de ir mais longe do que a rede de desinformação que reina entre nós. Para combater essa crescente ignorância, em muito semelhante aos tempos de Salazar e dos seus capangas, precisamos de mais leitura e mais acesso à mesma. Precisamos de um plano que nos indique caminhos, e sinalize obras de referência, capazes de educar os mais novos e promover o seu crescimento sustentável. Era isso que fazia o tal plano nacional, mais coisa, menos coisa, e que agora está em vias de poder desaparecer, se o senhor Ministro não acordar bem-disposto.

Quanto à rede de bibliotecas, a situação é ainda pior. O trabalho existente, obtém sucesso comprovado, com indicadores que demonstram um maior sucesso a nível de resultados escolares, bem como de literacia, nos espaços que contam com bibliotecas adequadas, geridas por profissionais devidamente capacitadas para o efeito. Retirar o acesso a essas ferramentas será colocar novos entraves ao futuro e às nossas crianças, abrindo a porta a uma maior facilidade de consulta de outras soluções, tais como a famigerada Inteligência Artificial. Não nego a importância que pode vir a ter.

Mas verifico, tal como qualquer pessoa com dois dedos de testa, que o uso de aplicações que fazem a leitura por nós, pensam em nosso lugar, e depois apresentam propostas de resposta, pode vir a ser profundamente maligno.

A Inteligência Artificial é manipulável, como Elon Musk já demonstrou. E é também uma fonte de controlo de massas. Retirar a leitura do nosso circuito de livre pensamento é abrir as portas à conquista de uma nova sociedade onde questionar o poder vigente não só será

proibido, como nem sequer será imaginado, porque as crianças perderão o poder de imaginar. Não imagino realidade mais triste do que essa.

Não que a atual seja particularmente melhor. Vão começando a sair os resultados do acesso ao ensino superior, e o que verificamos é desastroso, no sentido de começar a corroer o democrático corredor do conhecimento. Cada vez menos alunos com situações familiares financeiramente instáveis conseguem aceder a essas oportunidades.

As promessas de Montenegro, referentes à devolução do dinheiro das propinas, parece que ainda estão por cumprir. As instituições periféricas, como a nossa Universidade dos Açores, estão votadas ao abandono, com taxas de incorporação bastante fracas, que vão levar ao encerramento inevitável de alguns cursos, e ao afunilamento do pensamento e da forma de o aplicar.

Estes cenários parecem impossíveis de acontecer, mas já estão em curso. Os ministros do Luís dos fogos e maus vinhos dizem-nos que nada vai mudar. Que extinguiram a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, só que as competências da mesma permanecem. Despediram as equipas que gerem o plano nacional de leitura e a rede de bibliotecas escolares, mas ficará tudo na mesma. Atiram-nos areia para os olhos.

Sabemos que a realidade nunca é assim. Quando nos retiram algo, raramente fazem por nos devolver, e mesmo que o façam, nunca volta de forma igual. Montenegro quis ver-se livre de chefias incómodas. E para isso, quem vai sofrer são as crianças, adolescentes e jovens.

Para além de que a procissão ainda vai no adro. Qualquer dia, alguém se vai lembrar de reconstruir uma mocidade à moda portuguesa. Marquem estas palavras. Ou façam por elas não se concretizarem.

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