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Histórias da minha antiga Vila D’Água de Pau – V

À marralha, era no largo grande que se jogava

© D.R.

Passou, um dia, certa velha por uma rapariga que tinha o amor da sua alma ausente, em terras do Ultramar a cumprir serviço militar.

Como era natural, a rapariga andava entristecida, cheia de saudades, o lenço sempre puxado sobre os olhos, a cabeça baixa. Enfim, quando o serviço militar recrutava os seus namorados, apresentavam-se assim as moças dos anos sessenta do meu tempo, quando saíam à rua.

– Que triste tu andas Amélia, disse-lhe a tal velha ao passar por ela. Tudo isso são saudades do que lá fora anda?

Amélia não quis, como se costuma dizer, dar o seu braço a torcer, e pôs-se então a desculpar com doenças e faltas de sono.

– É uma doença essa, minha filha, tornou a velha, e má doença que ela é! No meu tempo, quando eu era rapariga, chamavam-lhe – flautos do coração – que parecendo que não tem cura, curam-se afinal com mais facilidade que todas as outras. Às vezes basta pensar numa pessoa que trazemos no pensamento e ir aos lugares onde ela gostava mais de passar seu tempo, para a cura se fazer logo.

E com estas palavras, parece que se avivaram os olhares da rapariga, que levantando a cabeça se via que um raio de esperança lhe passava alegremente pelo rosto, que animou a velha a continuar na sua:

– Pois é, minha filha, isso que trazes são flautos do coração, que eu sei curar, se quiser, e curo-te numa só tarde de domingo, levando-te a ver aquele que sabes, e que está em terras do ultramar.

O espanto era cada vez maior na rapariga, que arregalando os olhos dizia que – o namorado estava em Angola na tropa, como soldado, correndo perigo de morte.

– Eu sei, insistia a velha, num sorriso manhoso, chegando-se então junto da Amélia, como se lhe quisesse dar uma grande novidade:

– Gostavas de o ver também?

– Ora se queria, faria qualquer sacrifício se fosse necessário, só para o ver com vida e saúde!

– Não é preciso nenhum sacrifício, nada disso, só tens de seguir os meus conselhos. Pois então, ouve lá, e toma bem sentido no que te vou dizer, para fazeres:

Afianço-te que se fores pedir emprestadas ao senhor Manuel Egídio da Cova da Onça, nove moedas do antigo dinheiro “marralho” (sem utilidade) do tamanho duma “pataca”, porque ele, ainda as tem guardadas no seu cofre, resolve-se o assunto. Depois, convidas duas amigas e leva-as para o largo do cemitério num domingo à tarde, mas antes das Trindades. Ali chegadas, dás a cada uma, três moedas e vão jogar à “marralha” no passeio cimentado, da parede do lado esquerdo do portão do cemitério. Tu serás a primeira a jogar atirando uma moeda marralha contra a parede e, as tuas amigas jogarão a seguir.

– Jogar à Marralha nos passeios do cemitério do largo grande, era o que o meu Gabriel mais gostava de fazer nos domingos à tarde, mas do lado direito do portão! – disse Amélia à velha.

– Pois era mesmo do lado direito do portão que o teu namorado jogava à marralha com os amigos.

– E porque teremos de jogar este jogo da marralha do lado esquerdo? – Perguntou à velha.

– De cada vez que tu venceres no jogo às tuas amigas, deves olhar para a direita e vais ver o teu Gabriel a jogar do lado direito com os seus dois amigos Amorim e Esteves.

Amélia não sabia se havia de acreditar pois nem sabia como jogar à marralha, mas a velha parece que lhe adivinhava os pensamentos.

– Quando atirares o teu “dinheiro marralho” contra a parede, tens de o fazer com peso e medida, ou seja sem demasiada força, mas o suficiente para a moeda cair e ficar o mais próxima da parede. Pois a que ficar mais rente à parede, ditará a vencedora. Deves treinar em casa antes de ires para o largo do cemitério.

– E se eu não vencer nunca verei o Gabriel?

– Não te atormentes, vais vencer, mas ainda tens outra coisa que não poderás fazer. Nunca olhes para dentro do cemitério através dos balaustres. Se o fizeres, nunca verás o amor da tua vida nem naquela tarde, nem nunca mais. Pensa bem.

E, a rapariga, agora de olhares espantadiços, voltou à acostumada melancolia, meia receosa, numa indecisão, meia incrédula, queria certificar-se, saber como era aquilo e se seria capaz de levar por diante o desafio lançado pela velha.

Naquela vontade e ânsia de ver o namorado, a rapariga acedeu à aventura que o acaso lhe deparava e prometeu à velha seguir o seu conselho.

– Está bem…, sempre quero ver como isso vai ser e um sorriso malicioso e incrédulo assomou-lhe aos lábios.

E a velha despediu-se.

Amélia, obteve sem dificuldade as 9 moedas escuras de dinheiro marralho assim como a anuência de duas amigas de vizinhança, da rua do Valverde de Baixo.

Desengane-se quem pensa que houve malícia na escolha do lugar e do jogo por parte da velha. A juventude da vila de Água de Pau da década de 1950/60 dirigia-se muito ao largo do cemitério para “jogar à marralha” nas tardes domingueiras.

O único inconveniente era que por vezes tinham de “fugir a sete-pés” quando sabiam aproximar-se do local o Ernesto Polícia, para os multar.

Para ele, o que tilintava ali no cimento do passeio do largo grande, era dinheiro! Queria lá saber se era dinheiro marralho ou patacão, ou seja, escudos ou serrilhas? Jogo a dinheiro era proibido!

Todavia, não apanhou ninguém. Fugiam todos antes dele chegar a meio da antiga canada que ligava a rua da Vila Nova, ao largo onde a rapaziada jogava à marralha.

Voltando à nossa história, Amélia e as duas amigas seguiram os conselhos da velha e na segunda partida quando ela venceu as amigas, olhou para a direita e, lá estavam, alguns rapazes a jogar de corpo inclinado, atirando moedas à parede. Um deles, a dado momento, levantou-se e virou-se para onde Amélia estava. Estava vestido de camuflado e de bivaque na cabeça. Era o seu Gabriel… dizia Amélia consigo, quase desfalecendo, tamanha era a sua alegria!

– Joga Amélia, trouxeste a gente para aqui e estás a olhar para anteontem. Não tem ninguém ali naquele lado. Vamos, joga agora tu . . . é a tua vez!

Nisso, ouviu-se umas gargalhadas, vindas de dentro do cemitério. Mas, a rapariga lembrou-se do conselho da velha e manteve-se serena, concentrada no jogo da marralha, atirando um e outro dinheiro marralho contra a parede do cemitério, vendo ainda por mais algum tempo o seu Gabriel, sorridente e bem disposto.

Passados 11 meses, Gabriel regressou do ultramar vivo e são, cheio de saúde. Tivera sorte e não apanhou maleita alguma, apesar de o seu batalhão ter sofrido ataques dos “turras” num dos matos de Angola.

Mais tarde, num dos serões à volta da mesa da cozinha, Gabriel contou à família que tinha sonhado em Angola, com a sua Amélia a jogar à marralha no largo do cemitério! – O que havia um homem de sonhar ó minha mãe?!

– Pois é, meu rico filho… vê lá, era um sinal das saudades que tinhas da tua Amélia!

Amélia, sentada a seu lado, de braço enfiado no dele, olhava Gabriel, num sorriso manhoso, mas feliz. Porém sabia que nunca poderia contar nada a ninguém, pois ninguém acreditaria. Talvez um dia, contasse aos netos. E, contou.

Quanto ao “Jogo da Marralha” continuou muito popular pelo menos até a maior parte dos seus principais jogadores e amantes da modalidade terem emigrado para os Estados Unidos e Canadá.

Anos depois, como já se jogava, nas mais das vezes, com escudos e não dinheiro marralho, em determinada altura, a polícia proibiu aquele tipo de jogo definitivamente. No entanto, a tradição deste jogo ficou registada na memória dos pauenses, pois usos e costumes deste povo, nunca se perderão.