Se os tempos e as vontades nos tornam egoístas e fechados em campânulas cada vez mais egocêntricas, o saber da experiência e os saberes da vida são substituídos pela luminosidade dos écrans e pelas teclas das tecnologias. Não ficamos menos dignos por isso, não somos menos e piores pessoas com isso, mas afastamo-nos, perdemos laços com gente e com terra que, noutros tempos e com outras vontades, eram a norma e faziam a diferença.
Rebuscamos longe o que, por vezes, está junto à porta. Prescrutamos nos outros o que, afinal, vive em nós e connosco. São momentos que teimam em passar num ápice, e que só distantes nos parecem, afinal, tão próximos e tão íntimos. O que o tempo ajuda a perceber, o tempo também permite reencontrar. Os valores que dizemos de cor e dificilmente se juntam para dar forma e sentido à vida, estão, afinal, tão cerca e tão fortes que nos fortificam e aproximam. É aí que fazemos das ideias um ideal, é aí que as pedras soltas que trilhamos ao longo de anos se juntam numa calçada segura, num caminho definido e num rumo certo.
Vim à Lagoa encontrar o exemplo e reencontrar o caminho. Não somos mais homens por vivermos mais. Somos mais homens por sentirmos melhor. E é nessa dimensão, na dimensão puramente humana do sentimento pelos outros, da capacidade de perceber necessidades, de encontrar equilíbrios, de sorrir quando a tensão aperta, de estender a mão quando o balanço se perde, de abraçar quando a tristeza se acerca, de olhar o outro quando ele ainda nem compreendeu o risco, de amar cada minuto da vida como se dele dependesse a felicidade e o futuro do mundo, é nessa dimensão múltipla que nos reencontramos e percebemos que, afinal, ainda há exemplos assim. Ainda há heróis de carne e osso, heróis de alma e de memória. Os que nos fazem concluir que o céu e o sonho estão tão perto e tão reais. Há heróis que nos mostram o caminho, que nos apontam a calçada.
Da dignidade ficamos a saber que não se aprende. Nasce com a alma. O digno sente um semelhante antes de se sentir a si próprio. Antecipa a solução sem que o problema tenha sequer florescido. O digno é-o com todos, antes de ser, até, consigo próprio. A alma do digno é maior que a vontade do mundo. É ser e fazer. E, com isso, ser e fazer feliz.
Da sabedoria não ficamos a saber. Percebemos que queremos saber. Perguntamos e olhamos em volta. Voltamos a perguntar. Ouvimos. Escutamos, que é mais profundo e mais seguro. Olhamos de novo. E vemos, que é mais forte e mais maduro. Tocamos o que está à nossa volta. E tocamos os outros. E sentimos, sentindo os outros, o que precisam e como precisam. Temos o tempo pelo nosso lado. O tempo é sabedoria. Lembro a magia das palavras de Pedro Calderón de la Barca: “Que o diga o tempo, pois ele, embora mudamente surdo, é o único que, sem dizer nada, diz tudo”.
Do espírito nem sabemos nem aprendemos. Sentimos. Sentimos a presença e a ausência. E nela, na ausência, voltamos a sentir a presença. Porque é o espírito que nos aviva a memória e nos reforça o exemplo.
Dignidade, sabedoria e espírito. O que foi, é. O que é, será para sempre. É a memória que dá sentido à vida. Com ela, percebemos tudo. Com ela, podemos ser gratos e caminhar juntos. Dorvalino. Tem nome o meu herói.
Rui Almeida
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