
Eduardo Ferreira
Especialista em Otorrinolaringologia
no Hospital CUF Açores
A perda de audição no adulto é uma queixa muito frequente nas consultas de Otorrinolaringologia. Vários fatores podem estar envolvidos no surgimento da surdez, que pode iniciar com uma simples gripe ou ser provocada por algum tipo de traumatismo do ouvido, pelo uso de determinados medicamentos ou, até, devido a um acidente vascular cerebral.
A perda de audição, que pode ser súbita ou progressiva, inclui quadros de surdez que implicam uma compensação, que pode ser alcançada através de uma prótese auditiva externa, como um aparelho auditivo convencional, ou implantes colocados cirurgicamente, como é o caso dos implantes cocleares. Por outro lado, existem também situações em que a audição pode ser recuperada através de tratamentos farmacológicos ou de pequenas intervenções cirúrgicas.
Por exemplo, algumas pessoas desenvolvem um crescimento exagerado do osso do canal auditivo externo (onde se acumula a cera), que pode provocar uma oclusão total. Esta situação é mais frequentemente verificada em quem está muito exposto a água fria, como os surfistas, mas pode ocorrer sem qualquer causa identificável. Nestes casos, pode ser feita uma cirurgia de “ampliação” deste canal, um procedimento simples e seguro quando feito em quadros menos avançados.
Também os quadros de otite crónica, quando desvalorizados, podem levar à destruição do tímpano e dos pequenos ossos do ouvido médio (martelo, bigorna e estribo). Para reduzir a probabilidade disso acontecer, é importante prevenir e tratar atempada e adequadamente as infeções frequentemente associadas.
Num ouvido não infetado, as cirurgias de reparação do tímpano têm riscos relativamente pequenos e podem ser feitas, frequentemente, em regime de ambulatório.
Por outro lado, há casos em que se verifica um crescimento anormal de pele no ouvido médio, implicando uma cirurgia mais complexa. Esta cirurgia tem como objetivo principal deixar o ouvido médio sem resíduos de pele, ou seja, totalmente livre de doença – chamada colesteatoma. Na ausência de cirurgia, a doença vai continuar a progredir, destruindo cada vez mais o ouvido, com risco de infeções quase constantes, agravamento da surdez, paralisia facial e vertigem.
Outros casos de surdez poderão dever-se à fixação de um dos ossículos do ouvido médio. Neste contexto, poderá ser feita uma cirurgia com restauração da mobilidade dessa cadeia ossicular, procedimento que conta com uma taxa de sucesso bastante elevada, pois consegue melhorar significativamente a audição em cerca de 90% dos casos.
Por fim, quando em vez de um ouvido médio bem ventilado, observamos um preenchimento por líquido seroso que se mantém após medicação, pode ser necessário efetuar uma drenagem. Este cenário é muito comum em crianças e envolve a colocação de tubos no tímpano. Em adultos com uma surdez persistente após uma otite média aguda, essa drenagem também pode estar indicada. Por outro lado, adultos com líquido no ouvido médio sem qualquer causa aparente deverão ser avaliados por um especialista, para excluir uma possível causa tumoral.
A conclusão é clara: antes de pensar em aparelhos auditivos, há outras possibilidades a explorar. Diagnosticar precocemente e conhecer as várias opções terapêuticas pode fazer toda a diferença na qualidade de vida de quem começa a manifestar perda de audição.
Comentários
E quando é surdez por otosclerose, e com muitas tonturas, o DrEduardo Ferreira diz que as tonturas não tem a ver com os ouvidos. Então tem haver com o quê?