É músico, já foi varredor e agora quer ser empresário

Anderson Ouro Preto era músico mas em 2020, devido ao confinamento e ao cancelamento de espetáculos, teve de ir limpar as ruas. Hoje está mais próximo de recomeçar a atividade musical e de abrir a própria empresa

Anderson Ouro Preto já não trabalha nas ruas mas continua cantando pela Lagoa © DL

Pelas ruas da freguesia do Rosário, na Lagoa, conhecemos Anderson Ouro Preto. Numa abordagem informal, chamou-nos à atenção pelas cantorias e pela boa disposição para com quem passa. 

Anderson Ouro Preto tem 43 anos é brasileiro, natural de Curitiba, e veio para Portugal há 16 anos, à procura de uma vida melhor. A sua primeira paragem foi na ilha da Madeira trabalhando na restauração, mas logo de seguida recebeu um convite de um primo que vivia em São Miguel para que viesse morar com ele. Fiiquei encantado com os Açores e toda a sua beleza natural e tive de ficar”, confessa, tendo-se dedicado à música.

Há dois anos, com o confinamento, todos os concertos e eventos ficaram cancelados ou adiados. Sem trabalho, Anderson teve de procurar trabalho para conseguir sobreviver. Em junho de 2021, ficou como ajudante de jardineiro e higienizador urbano na Câmara Municipal de Lagoa. Diz que aceitou a proposta que recebeu “pela necessidade de não ter trabalho na música”.

Anderson diz que foi difícil “ver as pessoas que trabalhavam comigo na música passarem por mim e cumprimentarem-me com um simples ‘olá’”. O músico fala num trabalho exigente que acabava por ser suavizado pelos colegas de trabalho que animavam. 

Músico teve ajuda da União Audiovisual dos Açores

Ouro Preto é um nome de família que Anderson se orgulha de ter. Na pior fase da pandemia garante que nunca se deixou “ir abaixo” sobretudo porque tem “muita fé” e também porque brasileiros e europeus são diferentes: “nós sabemos o que é não ter nada e mesmo assim vivemos a vida com felicidade”, garante.

Sem trabalho na área da música e com alguns problemas de saúde pelo meio, Anderson recorreu à ajuda da União Audiovisual dos Açores. O organismo ajudou-o a pagar a renda, a fazer as compras de supermercado e “até a comprar medicamentos esta união ajuda”.

Em entrevista ao Diário da Lagoa (DL) Anderson diz que foi importante passar por este momento mais difícil. Hoje, garante, conheceu pessoas muito importantes para si. Diiz que há muitas pessoas carentes na rua, tanto idosos como toxicodependentes. ”Os meus amigos varredores de rua e jardineiros têm uma profissão de extrema importância na companhia que fazem a essas pessoas” garante Ouro Preto relembrando que sentiu isso mesmo na pele.

Um dos aspetos que o ex-varredor salienta que foi mais gratificante foi o contacto com a comunidade e com os idosos, “aqueles idosos que vivem sozinhos mas que vão todos os dias à praça para poder conversar connosco, para poder contar a sua história”. 

“Se eu não sei servir eu não sirvo para ser servo”. Esta foi uma das frases que Anderson citou para explicar que todos deviam ouvir as histórias dos idosos e das das pessoas mais vulneráveis. “É essa visão que eu tenho e tento passar, vamos servir o próximo, vamos amar o próximo”. E foi por trabalhar na rua que hoje conhece melhor as pessoas da Lagoa.

Músico recorda que o mais difícil foi não poder ver os filhos por terem fechado a circulação entre concelhos © DL

Enquanto tenta retomar a sua vida musical, Ouro Preto está inscrito no centro de emprego onde tem direito a um subsídio por ter descontado tanto em Portugal como no Brasil. Diz que o que recebe não é o suficiente porque tem quatro filhos: dois em São Miguel e dois no Brasil que frequentam a universidade. “Já tenho muitas despesas, por isso eu preciso realmente criar uma situação para que possa cumprir com as minhas obrigações”, assegura.

Questionado sobre o que lhe fez mais falta neste período de isolamento pandémico, Anderson recorda que o mais difícil foi não poder ver os filhos por terem fechado a circulação entre concelhos: “entre tudo o que me faltou, isto foi o que me faltou mais”. 

Depois de ter algumas reuniões com o centro de emprego diz que pode haver uma possibilidade de criar a sua própria empresa. Num tom de felicidade e retrospectiva garante “já me deram um feedback positivo de que isso é possível” adiantando logo a seguir, com esperança:  “de varredor de rua a empresário“.

Anderson diz que o seu caminho é a música mas para que possa e consiga sobreviver com ela “é necessário haver mais apoios à cultura. Se olhassem para a cultura de uma forma mais generalizada tornaria as coisas mais fáceis, mas olham para a música clássica de outra forma”. O músico diz haver algum preconceito na atribuição de apoios dependendo do estilo musical.

A dedicação e a esperança trouxeram a Outro Preto as oportunidades e a possibilidade de fazer o que mais gosta © DL

Ouro Preto confessa que a sua dedicação a tempo inteiro à música veio há apenas sete anos, dos 16 anos que está em Portugal, mas sempre teve uma ligação à música dando também aulas.

Questionado sobre a mensagem que pretende passar a quem nos lê, Anderson diz que as pessoas “deviam pensar duas vezes” quando “olham para certos trabalhos e recusam”, é neles que “podem estar grandes lições para a vida ou até mesmo grandes oportunidades por detrás desses empregos mais trabalhosos”. No caso de Anderson Ouro Preto, foi o tempo, a dedicação e a esperança que lhe trouxe as oportunidades e uma possibilidade de fazer o que mais gosta que é tocar, cantar e, quem sabe mesmo, ter a sua própria empresa.

Sofia Magalhães
com Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de fevereiro de 2022

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