“É de extrema importância evitar a exposição a rumores ou às «fake news»”

Psiquiatra alerta para os perigos da sobreexposição às notícias, analisa e aponta caminhos para manter o equilíbrio da saúde mental durante a pandemia

Carolina Almeida trabalha como psiquiatra numa unidade de internamento de Doentes Agudos (Foto: DR)

Carolina Almeida é natural de Santa Cruz, Lagoa, mas é em Lisboa que trabalha. É especialista em Psiquiatria e Assistente convidada na Nova Medical School, na Universidade Nova de Lisboa. Atualmente exerce funções numa unidade de internamento de Doentes Agudos num hospital público e lida de perto com os mais variados problemas psíquicos.

DL: De que forma é que uma pandemia como esta afeta a saúde mental de uma pessoa perfeitamente saudável?
Em primeiro lugar é necessário apontar a singularidade do momento em que estamos a viver. Como António Guterres afirmou, este é o maior desafio que a humanidade atravessa desde a Segunda Grande Guerra Mundial. Estamos a falar de um evento singular e é normal que a grande maioria das pessoas sinta medo, receio, preocupação em relação ao futuro. Uma pessoa, mesmo que não tenha nenhuma espécie de antecedentes a nível de doença mental, é natural que viva um período de tensão, incerteza, receio pela sua saúde e portanto este é um evento que nos afeta a todos independentemente do nosso passado.

DL: De que forma é que as pessoas se podem prevenir e proteger em termos psíquicos?
Não há formas certas nem erradas de reagir. O importante é estarmos conscientes de que isto nos afetará de alguma forma. O que é importante é que a pessoa mantenha, dentro do que é possível, a sua rotina habitual com os mesmos horários para as refeições, para trabalhar, se estiver em teletrabalho, e também que coloque em marcha toda uma série de mecanismos para que também se sinta bem. Quando nós estamos sob stress e tensão emocional geralmente ou vamos dar uma volta ou vamos procurar o convívio das pessoas que gostamos, tomar um café, dar um passeio, se isto não é possível temos de pensar em alternativas. É possível fazer exercício físico dentro de casa, é importante que as pessoas façam uso das redes sociais e do Skype, WhatsApp para estarem próximos das pessoas que gostam, mantendo uma rotina saudável em termos de alimentação. É muito importante que não se faça uso de álcool ou de tabaco para combater a ansiedade nestes períodos e também muito importante é não estar exposto permanentemente às notícias. Do ponto de vista da comunicação social, este é o tema do momento. Fala-se a toda a hora da Covid, do número de casos, do número de pessoas que faleceram. É importante que as pessoas se mantenham informadas nas fontes oficiais, não é relevante passar o dia todo nas notícias porque isto dá uma sensação de pressão e de tensão emocional que não é real.

DL: A informação pode ser uma armadilha para quem está em confinamento?
Exato. Por um lado é importante que as pessoas se mantenham informadas. Sabemos que neste momento a informação credível e verdadeira é extremamente importante. É um mau fator de bem estar psicológico nestas alturas de crise não termos confiança na informação que nos é veiculada. Por outro lado é de extrema importância evitar a exposição a rumores ou às “fake news” [notícias falsas]. É importante as pessoas distinguirem o que é que são factos e o que são rumores.

DL: As pessoas que têm quadros de depressão ou ansiedade deverão ter outros cuidados?
As pessoas que já têm um historial prévio ou que neste momento se debatem com uma situação sub-aguda ou aguda do ponto de vista da doença mental, naturalmente que estas pessoas têm o risco agravado. Devem reforçar a sua auto-vigilância e auto-monitorização do ponto de vista psicológico para que esta situação não condicione um agravamento. É preciso estar atento a um agravamento da qualidade do sono. É natural que quando as pessoas estejam mais ansiosas ou deprimidas o sono comece a diminuir ou a ser mais irregular ou a não ser tão reparador. Por outro lado, podem apresentar um sentimento crescente de ansiedade latente, sentirem-se sempre tensas, inquietas, a pensar que determinado sintoma possa ser indício de infeção ou a preocupar-se constantemente com quem lhes é próximo. Se as pessoas sentirem um humor muito triste, falta de esperança no futuro, uma visão pessimista em relação ao futuro, nestas situações as pessoas devem, por um lado, manter os canais abertos de comunicação com o médico ou o psicólogo que lhe está a tratar. É muito importante manterem a sua medicação habitual, se for o caso.

DL: Depois de passarmos o pico desta crise, considera necessário haver um reforço por parte do Sistema Nacional de Saúde específico para a saúde mental?
Já se fala de forma muito clara em antecipar problemas que serão recorrentes numa crise económica. Há estudos prévios que demonstram que as pessoas que ficaram em quarentena e em isolamento desenvolveram sintomas de perturbação de stress pós-traumático e de episódios depressivos. Por outro lado, os doentes que já eram conhecidos também têm de ser apoiados. O Sistema Nacional de Saúde terá de dar uma resposta muito robusta a todas essas pessoas e ninguém poderá ficar esquecido. Vai implicar um reforço das equipas de profissionais médicos mas também não médicos, nomeadamente assistentes sociais, psicólogos que possam ajudar as pessoas nas várias vertentes.

DL: Para as famílias em teletrabalho e com filhos em casa, quais são as melhores estratégias para obterem o máximo de harmonia nos seus dias?
É importante manter uma rotina de trabalho quer para os adultos quer para as crianças e adolescentes porque ninguém está de férias definindo os tempos de trabalho e os tempos de lazer. Quando há possibilidade, é importante que os cuidadores alternem entre si, para que permita que o outro também descanse e trabalhe. Relativamente às famílias com crianças, a situação tem de ser explicada com verdade e adaptada à idade das crianças.

DL: Não se deve esconder nada?
Não. A informação deve ser adaptada à idade da criança mas deve falar sempre com verdade. É natural que nesta fase em que estamos mais ansiosos e preocupados, as crianças procurem mais os adultos e precisem de mais atenção e cuidado.

DL: Há alguma mensagem que queira passar em geral enquanto profissional de saúde?
Quero passar uma mensagem de esperança porque muitas vezes sentimo-nos tentados ao desânimo, numa fase em que não temos uma data definitiva para o fim desta situação. Nenhuma pandemia dura eternamente, isto vai ter um fim. Quando nos mantemos isolados em casa, não estamos apenas a protegermo-nos, mas essencialmente à comunidade. É natural as pessoas se sentirem preocupadas, tensas mas devem manter-se ligadas às pessoas que lhes são próximas. Se sentirem que esta situação é muito difícil de lidar e que não estão a conseguir sozinhas ou com os recursos que têm, procurem ajuda. Há muitas formas de ajudar e que não passam necessariamente por recorrer a uma consulta presencial, há muitas linhas de apoio e todos esses recursos devem ser explorados.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição digital de maio de 2020)

Categorias: Entrevista, Saúde

Deixe o seu comentário