É a resiliência, meu caro!

João Anselmo
Médico-endocrinologista

Em cada dia que passa, somos confrontados com situações gratificantes, mas também com um sem número de ameaças à nossa integridade e sobrevivência. De acordo com a chamada teoria do stress (Cannon & Sely), qualquer ameaça exterior desencadeia uma das seguintes respostas: luta, fuga ou bloqueio (fingir-se morto). Esta teoria não deixa de ser uma interpretação simplista de como os seres humanos reagem às ameaças externas, uma vez que não contempla uma classe de respostas mais complexas envolvendo o cortex cerebral. São estas últimas potencialidades que contribuem, no todo ou em parte, para aquilo a que chamamos a capacidade de resiliência humana. A palavra resiliência começou por designar uma propriedade física dos materiais, mas tem vindo a ser adaptada a outros contextos, nomeadamente no âmbito da psicologia e da psiquiatria e mais recentemente na área dos negócios. Durante a pandemia a expressão entrou no léxico do cidadão comum e é agora um lugar-comum na política e em particular na economia. As agendas e os planos de recuperação e resiliência são um exemplo disso, pelas confusões que geraram e pela muita tinta que fizeram correr. Então o que é isto de resiliência? Não é mais do que a capacidade intrínseca de um sistema recuperar da adversidade, a exemplo de um objeto elástico que se deforma pela influência de um fator externo, mas recupera a forma inicial quando o estímulo se extingue (retorno ao normal). A resiliência está nos antípodas do que se convencionou chamar resistência, cuja máxima de “antes quebrar que torcer” habituamo-nos a ouvir como sinónimo de força de caracter ou simplesmente de teimosia. Em boa verdade o conceito de resiliência, pelo menos na sua vertente biopsicossocial, é muito mais atrativo do que o de resistência, porque está mais próximo da realidade dos seres vivos e da forma como se têm perpetuado ao longo da história.

Os profissionais de saúde chegaram um pouco mais tarde do que os físicos e matemáticos à ciência da resiliência, isto porque durante séculos concentraram grande parte dos seus esforços na identificação dos fatores patogénicos, estiveram mais focados nas causas da doença e da sua prevenção do que no estudo e na promoção do potencial natural de recuperação dos seres humanos. De facto, a estudo da resiliência no âmbito da Medicina, só começou a emergir no final do seculo XX e teve por base a observação de indivíduos conhecidos pelo seu elevado risco social, mas que apesar disto mantinham uma vida saudável, quando todas as circunstâncias faziam prever o contrário. Estes indivíduos tinham em comum um forte sentimento de segurança e de competência e eram capazes de estabelecer e de usufruir de uma rede funcional e eficiente de contatos sociais.

O sistema nervoso dos organismos vivos, incluindo os seres humanos, evoluiu de forma a aumentar a sua possibilidade de sobrevivência. A integração das mensagens neuronais dos diferentes órgãos dos sentidos que na prática funcionam como uma espécie de radares, produzem estados neurofisiológicos que por sua vez desencadeiam respostas neuronais autónomas, cujo objetivo primordial é manter a integridade do indivíduo e a sobrevivência da espécie. Esta integração é conhecida por “neuroceção” (Stephen Porges) e a sua compreensão é essencial para o entendimento de como os indivíduos resilientes lidam com o stress, como constroem um sentimento de segurança, desenvolvendo oportunidades de intercâmbio social. Os indivíduos resilientes possuem qualidades inatas de temperamento e personalidade conforme se pode ler no quadro abaixo. Conseguem recuperar das ameaças externas através do reforço do sentimento de autoestima e da amplificação das suas conexões sociais. Por sua vez, o desenvolvimento destas capacidades psicológicas faz reduzir os níveis de hormonas de stress como o cortisol, cujo efeito na eclosão de doenças como a diabetes e depressão é por demais conhecido.

Caraterísticas dos indivíduos resilientes

Estigmas da personalidade
– Bom feitio desde criança, sentido de humor, empatia, controlo emocional.

Estigmas cognitivos
– Quociente de inteligência (QI) acima da média, leitores ávidos, bons estudantes, eficazes na resolução de problemas.

Família
– Regras familiares, disciplina, rotinas, rituais, diálogo, frequência de locais de culto.

Participação
– Desporto, clubes, trabalho voluntário, organizações socias e de juventude.

Relações sociais
– Relações familiares calorosas em particular maternas, parceiros positivos, mentores fora do contexto familiar.

Perspetivas
– Expectativas realísticas, fé, otimismo, sentimentos autoestima e de autocontrolo.

A pandemia COVID-19

A pandemia de COVID-19 continua a ser uma ameaça global à espécie humana. A perceção subconsciente desta ameaça, desencadeia manifestações comportamentais aberrantes por vezes difíceis de interpretar. Uma das consequências mais óbvias da pandemia foi a perda de rotinas, nomeadamente no horário das refeições, nos ciclos de sono-vigília e de trabalho-lazer, em eventos significativos, como festas de aniversário, casamentos, celebrações religiosas. Como consequência, temos assistido a um aumento das perturbações mentais (23% de aumento do consumo de medicamentos psicoativos em Portugal no ultimo ano) e da frequência de doenças crónicas não transmissíveis como a obesidade e a diabetes (aumento da prevalência em 5% e 3% respetivamente, em diversos países da Europa entre eles a França). A capacidade de resiliência ficou severamente comprometida com as medidas restritivas – confinamentos – ao impedirem a expressão de manifestações sociais com interação física capazes de garantir o reforço dos sentimentos de competência e segurança, bem como o desenvolvimento das conexões interpessoais. Sem esse potencial relacional, os estímulos internos recentraram o individuo sobre si próprio. A solidão, o medo de se infetar, o sofrimento pela separação e morte de entes queridos, a ausência de luto e as preocupações financeiras, foram algumas destas ameaças que continuam a ter um enorme impacto no bem-estar dos indivíduos e consequentemente no bem-estar das comunidades.

O caminho de regresso

Com o abrandamento das medidas de contenção da COVID-19, iniciamos o caminho de regresso à normalidade, por vezes também designada como o novo normal e que não será muito diferente do velho normal, porque a evolução dos padrões mentais não é tão rápida quanto as expectativas da transição digital. Apesar de tudo, o teletrabalho, o ensino à distância, a telemedicina, as videoconferências e todas as outras digitalizações de processos que ocorreram ao longo destes dois anos irão manter-se, não só por força da inércia, mas porque demonstraram ser uma alternativa válida à interação presencial. O novo normal será sem dúvida mais digital, com ou sem agendas mobilizadoras. Abre-se assim um imenso espaço para a mobilidade das pessoas o que poderá contribuir para ultrapassar o drama de desertificação das regiões periféricas. E de fato inquéritos realizados em diversos países demonstram que um número significativos de pessoas tenciona mudar-se, a curto prazo, das áreas urbanas para zonas rurais, ou pelo menos periféricas das grandes cidades, não só por razões económicos mas também por acharem que há melhor qualidade de vida. Mas até que ponto e por quanto tempo poderá um trabalhador cumprir as suas tarefas à distância? A regulamentação dos ciclos de trabalho e lazer vão certamente necessitar de grandes alterações no futuro. O anseio por semanas de trabalho mais curtas, com menos horas de atividade cresce um pouco por todo o lado e começa a merecer a atenção das empresas e dos governos. Mas uma redução dos horários de trabalho, pelo menos do horário presencial, cria uma maior disponibilidade para o tempo de lazer. É preciso que estes momentos sejam construtivos e que resultem num ganho real da qualidade de vida das pessoas. Hoje, mais do que nunca, há evidência científica de que a atividade física é uma fonte de bem-estar na vida das pessoas. Mas ainda há pouco ouvi uma proposta que visa transformar o ginásio “aquafit” da CM Lagoa num restaurante com vista para o mar.  Ah, era de um vereador da oposição!

Categorias: Opinião

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