Dois pisos [e muito mais] que a pandemia separou

No Lar de Santo António há quarentena para quem tem consulta no hospital, visitas com distanciamento social e fortes restrições no dia a dia do grupo mais afetado pela pandemia

Olga Mercedes tem 97 anos e é a segunda utente mais velha do lar Foto DL

“Ah querido filho!”, é a primeira frase de Olga das Mercedes, 97 anos, assim que entra de cadeira de rodas na sala de convívio do Lar de Santo António e vê o filho, sentado numa cadeira, a dois metros de distância. Perguntámos-lhe há quanto tempo não o via: “já não sei”, responde. Olga não vê os três filhos, seis netos e seis bisnetos há pelo menos três meses. A pandemia veio impor uma distância que nunca conheceu em quase um século de vida. A segunda utente mais velha do único lar de idosos da Lagoa teve a primeira visita na primeira semana de junho.

A sala de convívio do piso zero, ampla e espaçosa, é agora cápsula de reencontros demarcados por fitas no chão. Por causa da Covid-19, as visitas nos lares de idosos, o grupo de risco mais afetado pela pandemia, têm fortes restrições. Quem chega, entra pelo exterior, diretamente para a sala onde vai se encontrar com o familiar. A máscara é obrigatória, a desinfecção das mãos também e o distanciamento social é maior do que nunca. Atualmente o Lar de Santo António tem 55 idosos, dos quais 7 são totalmente dependentes e estão na Unidade de Cuidados Continuados, e 16 funcionários. Cada utente só pode receber uma visita por semana que é previamente marcada e só dura 30 minutos.

Duas irmãs no mesmo lar mas em pisos diferentes
No Lar de Santo António existem dois lares num único edifício. Devido ao plano de contingência implementado na instituição, os utentes do piso um não se cruzam nem convivem com os do piso zero desde o início da pandemia, para limitar eventuais riscos de contágio.

“A minha irmã está lá em baixo e eu estou cá em cima, a gente não se vê”, conta com um sorriso Francisca Moura. A utente de 83 anos não vê a irmã, Francelina, há 3 meses: “faz de conta que ela está na sua casa e eu estou na minha”.

Quem tinha autorização para ir a casa, deixou de ter de um dia para o outro. Valentina Benevides, 84 anos, diz que “parece que estamos aqui há um ano”. Francisca garante: “a minha mãe falava que houve a febre espanhola, em 1917, mas nunca passei por nada disto”. Valentina também ouviu falar no mesmo: “a minha mãe também falava que houve uma altura, aqui na Lagoa, em que não havia tempo de forrar os caixões e as pessoas iam a enterrar nas tábuas”. Para a utente, o mais difícil “é a solidão de estar aqui só neste piso”.

Maria Evelina Cabral, 75 anos, já conseguiu receber visitas: “foi bom”, garante, “mas não levou muito tempo porque não se pode”. O tempo é diferente e os funcionários tentam minimizar as mudanças nas rotinas de quem cuidam.

Entre pisos ninguém se cruza
Carina Almeida é funcionária no lar há 10 anos e explica ao Diário da Lagoa o que mudou: “a organização dos serviços antes era feita de uma maneira e agora passou a ser de outra, implementámos novas normas de limpeza, confeção dos alimentos na cozinha mudou, desinfetamos os tabuleiros, todo o material que sai é desinfetado diariamente”, diz. A responsável pela cozinha e serviços gerais tenta incluir os idosos nas rotinas da instituição: “eles sentem falta da família, não querendo dizer que nós não façamos os possiveis para que eles estejam em contacto com as famílias, é claro que eles se sentem um pouco isolados. Tentamos que eles estejam ocupados, às vezes mando para cima legumes para eles estarem entretidos a descascarem, ajudam-nos a nós mas também se distraem”, garante.
Antes, os utentes assistiam à missa na capela do lar e podiam ir ao ginásio instalado na instituição. Agora, ambos os espaços não os recebem nem o próprio refeitório já que as refeições são feitas nos respectivos pisos [até à data de fecho desta edição].

Helena Alcaidinho faz a desinfeção dos quartos de isolamento Foto: DL

Consultas no hospital obrigam a quarentena no regresso
Nem os funcionários dos dois pisos se cruzam. Entram por portas diferentes e vestem a farda em locais diferentes. Helena Alcaidinho não vê os utentes do piso de cima há três meses. “As minhas colegas estão lá em cima com eles mas eu estou completamente sozinha. Se quero ver algum idoso chamo aqui na varanda e digo adeus à distância, é preciso é boa vontade porque não foi fácil esta adaptação”, garante. A responsável pela lavandaria diz que os procedimentos mudaram em todas as áreas do lar: “há roupas que têm de ser lavadas à parte, temos de ter muito cuidado porque a gente nunca sabe onde está o vírus”, diz.

Cada piso tem quartos de isolamento onde os procedimentos de higienização são ainda mais rigorosos. Cada vez que um idoso vai ao hospital a alguma consulta cumpre uma quarentena de 14 dias no quarto de isolamento onde faz todas as refeições, à parte dos restantes utentes. Helena Alcaidinho é responsável pela limpeza desses espaços: “hoje chegou uma senhora do hospital, ela não estará infetada mas como veio do hospital a roupa tem de ser lavada em separado e eu não posso entrar em contacto com a roupa dela, tenho de fazer isto tudo equipada”. Helena tem de vestir o Equipamento de Proteção Individual (EPI) composto por uma bata, pantalonas [proteção para os sapatos], dois pares de luvas, uma máscara, uma touca e uma viseira para efetuar a limpeza do quarto de isolamento, “ninguém me conhece com este fato”, brinca.

José Salvador construiu uma réplica da igreja da Ajuda da Bretanha Foto: DL

José Salvador passa os dias na oficina e não sabe o que é uma pandemia
Apesar de quase nada ser como antes, no Lar de Santo António houve quem não se apercebesse que uma pandemia tomou conta do mundo. José Salvador, 78 anos, está na instituição há menos de um ano. Passa os dias na oficina que instalou numa das garagens das instalações que o acolhem: “sempre gostei de trabalhar a madeira”, garante.

Quantas horas passa na oficina? “Não vejo as horas”, responde. Exibe com orgulho, para a fotografia, a igreja da Ajuda da Bretanha, de onde veio, feita pelas próprias mãos. Fala pouco e às perguntas responde de forma curta e concisa. Não vende os trabalhos que faz mas já teve várias encomendas: “algumas empregadas pedem para fazer umas carrocinhas, elas trazem as madeiras e as tintas e eu faço”, diz. Perguntámos-lhe se a pandemia lhe tinha mudado as rotinas mas nem sequer respondeu. José Salvador continuou a contemplar os seus trabalhos em madeira que o fazem esquecer que, lá fora, o mundo é outro.

Sara Sousa Oliveira

Categorias: Reportagem

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