Diálogos sem palavras

Foto: DL

O tempo que atravessamos terá certamente um lugar de relevo na história do Séc. XXI. Muito tem acontecido com consequências à escala global e a informação, ou as imagens, chegam até nós rapidamente. A facilidade com que se recolhe e divulga informação tornou o mundo mais pequeno e permite a cada um ter um conhecimento de tudo o que acontece ao minuto.
Um pouco por todo o mundo são muitas as imagens que vão ficar na memória pelas mais diversas razões. O poder da mediatização faz a sua divulgação e cada um vai fazendo o seu álbum, os seus arquivos.
A imagem dos cenários clínicos que, à escala mundial, pensávamos apenas serem possíveis nas telas do cinema, são uma realidade que já começa a causar pouca estranheza, mas não deixa de ser assustadora. Fortemente mediatizadas foram também as imagens de uma Veneza de águas límpidas onde a fauna regressou, ocupando um espaço que sempre foi seu! Também fica na retina a Praça de S. Pedro completamente vazia com o Papa Francisco, um pouco a imagem de um pastor sem ovelhas, num dos tempos do calendário religioso mais fortes da vivência cristã. É também difícil esquecer o regresso das “valas comuns” que se viram em alguns países para dar resposta às inúmeras mortes que estavam a verificar-se. Enfim, a lista de imagens que não vamos esquecer é abrangente e infindável. Cada um fará o seu álbum de memórias.
Mas há dois quadros que não me vou esquecer! O primeiro é o de um senhor italiano de avançada idade que foi abordado por um jornalista quando finalmente saiu à rua. Perante as insistentes perguntas que lhe eram feitas só conseguiu responder com lágrimas que não tinham legendas. Possivelmente a alegria de voltar a ver o sol e respirar o ar da rua, de voltar a ver gente nos passeios, ou então só a alegria de estar vivo!… O jornalista não insistiu e também não disse mais nada. Talvez também ele tenha sido apanhado de surpresa com a reação daquele octogenário que apenas chorava cada vez que tentava falar.
A segunda imagem é uma fotografia da Reuters que vi num jornal diário nacional. Uma menina, de três anos, a Ayse, limpava as lágrimas que corriam no rosto da sua avó. A mãe da menina acabava de ser mais uma vítima a acrescentar aos muitos profissionais de saúde que sucumbiram no Reino Unido. Um forte diálogo de emoções se poderia ali também adivinhar. De um lado, a inocência de uma neta de três anos que consolava a sua avó, sem ter certamente a noção das causas da sua dor, mas com um gesto de ternura comovente. Do outro lado, também sem legendas, podia ler-se um rosto que chorava a morte da filha e também a dor de ver a sua pequena Ayse, agora sem mãe e com toda uma vida pela frente.
Não faltam protagonistas nem iniciativas interessantes que também se evidenciam e que marcam este tempo. Mas há imagens, há momentos, que sem sombra de dúvida nos marcam e que chegam até nós pela mestria dos repórteres profissionais ou pelo acaso de um repórter acidental. São imagens fortes, onde tantas vezes se estabelece um diálogo sem palavras e que são as que melhor transmitem este tempo de pandemia.
A facilidade de registo e de divulgação de que hoje dispomos multiplica de forma exponencial as possibilidades de captação das imagens que fazem a história. Mas nenhuma tecnologia conseguirá ler, ou traduzir os sentimentos que naquele momento inundam o momento captado a estas pessoas que vivem e sentem.
Só a sensibilidade de cada um poderá legendar as imagens deste tempo.

Alexandre Oliveira, Professor

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de junho de 2020)

Categorias: Opinião

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