Desigualdade de género é “mais preocupante” nos Açores

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A União de Sindicatos de Angra do Heroísmo (USAH) alertou hoje para o agravamento das desigualdades de género durante a pandemia da covid-19, alegando que o problema é “mais preocupante” nos Açores.

“Nós não temos dúvida nenhuma de que a situação regional é muito mais preocupante do que a situação nacional. Aliás, a realidade também demonstra isso. Se nós formos ver os pedidos de apoio que são feitos às entidades regionais, a esmagadora maioria deles são feitos por mulheres e muitas delas mulheres trabalhadoras”, afirmou o coordenador da USAH, Vítor Silva, numa conferência de imprensa, em Angra do Heroísmo.

Citando dados de estudos de âmbito nacional sobre as consequências da pandemia nas condições laborais, em especial nas mulheres, Vítor Silva admitiu não ter dados concretos sobre a situação nos Açores, mas defendeu que os efeitos negativos serão mais acentuados na região.

“Sendo esta a situação nacional, nós não temos dúvidas nenhumas em afirmar que a situação regional é ainda pior do que essa”, frisou, acrescentando que é difícil traçar o cenário nos Açores, “porque as entidades não disponibilizam esses dados”.

O sindicalista justificou a convicção com o facto de nos Açores a entrada das mulheres no mercado de trabalho ter sido mais tardia e de haver uma maior desigualdade nos salários.

“Um dos grandes problemas que os Açores tiveram ao longo dos tempos e que contribuiu para agravar a situação de pobreza e exclusão social foi exatamente as dificuldades no acesso ao trabalho por parte das mulheres. E agora que esta situação está a ser ligeiramente ultrapassada, existe um outro problema que tem a ver com os baixos salários auferidos pelas mulheres nos Açores”, frisou.

Segundo o relatório da Organização Internacional do Trabalho sobre os salários em 2020-2021, de entre os 28 países europeus estudados, Portugal foi o que registou maiores perdas salariais no primeiro e segundo trimestre de 2020, mas enquanto os homens registaram uma quebra média de 11,4%, as mulheres verificaram uma redução média de 16%.

“São também as mulheres que auferem, em maior número, o salário mínimo. E, se a situação já era grave, com a pandemia piorou. Com as situações de ‘lay-off’, dispensas para apoio extraordinário à família, entre outras, as mulheres sofreram uma perda salarial na ordem dos 16% no ano de 2020. Isto num quadro em que a maioria das trabalhadoras desempregadas não tem acesso a prestações de desemprego”, salientou o coordenador da USAH.

No início da pandemia de covid-19, chegavam à União de Sindicatos de Angra do Heroísmo, afeta à CGTP, queixas sobretudo relacionadas com a perda de emprego, em situações de contratos precários, mas agora são mais os casos de “desregulação dos horários de trabalho”.

“Tem havido um acréscimo muito significativo das horas que as trabalhadoras fazem, o que implica que não tenham depois tempo para conciliar a vida profissional com a vida pessoal. Ainda vivemos infelizmente numa sociedade muito machista e aqui na região essa situação é notória. E uma mulher depois de fazer 10 e 12 horas numa empresa ainda vai para casa fazer mais cinco ou seis horas de serviço”, alertou.

Vítor Silva defendeu que é preciso denunciar a desigualdade de género e combatê-la, não apenas no Dia Internacional da Mulher, que se assinalou na passada segunda-feira.

“É preciso tomar medidas diárias para que essa situação possa ser alterada. E também se combate alertando os próprios patrões de que há pequenas situações que podem contribuir para nós evoluirmos significativamente. Uma delas é consagrar nos contratos coletivos de trabalho cláusulas que promovam a igualdade de género”, reiterou.

Lusa/ DL

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