Designer cria peças na Lagoa que já chegaram ao outro lado do mundo

Cláudia Borges criou a marca Dinina Design há nove anos e desde então soma e segue. Faz carteiras, fatos de banho e chapéus. Um deles chegou mesmo às mãos de Tony Carreira. Quisemos saber como e porquê

Cláudia Borges, 45 anos, desenha e confecciona as peças da sua própria marca © DL

A imagem fala por ela. Chega, ao encontro que marcámos, no jardim do Convento de Santo António, em Santa Cruz, na Lagoa, com aquilo que melhor define o seu trabalho e que salta logo à vista: um chapéu de inverno multicolor. Foi desenhado e confeccionado por ela mas não é o único filho desta “mãe” designer. A carteira azul que traz consigo também é sua filha e os restantes acessórios são outros filhos que faz questão de adoptar. “Precisamos todos uns dos outros. Estou aqui com uns brincos de uma artista e com um alfinete de outra artista”, conta Cláudia Borges. A designer, nascida na Relva há 45 anos, mas residente na Lagoa há 30, fala das parcerias que foi fazendo, com afinco. Falaremos delas mais à frente. Antes, quisemos saber quem é a artista que colocou nas mãos de Tony Carreira, uma das suas criações. 

Cláudia é “Dinina e “Dinina Design” é a marca registada que criou há nove anos, movida pela paixão que tem pela arte e pelo design. Antes de se agarrar à moda e viver dela, Claúdia dedicava-se ao universo da cosmética natural. A linha com com que trabalhava foi descontinuada mas “há males que vêm por bem e foi o clique”, garante. Sempre guardou um especial carinho pela costura, logo desde miúda. “ Sou muito teimosa e muito persistente, quando meto uma coisa na cabeça é para se fazer e quando dou a minha palavra eu cumpro.Por tentativa e erro consegui costurar e fazia a roupa das minhas bonecas”, conta. Decidiu criar peças da sua autoria começando por carteiras e malas de verão mas o grande desafio foi feito pelo sogro. “Ele era um homem muito visionário e disse-me ‘porque é que não fazes como a Chanel? Ela lançou uma linha de chapéus, é uma peça elegante que se destaca’, e eu disse ‘ah está bem, porque não?’. E assim foi. 

O primeiro desfile que fez foi no seu próprio quintal, na Lagoa, com as amigas a servirem de modelo. “Registei a marca, a Dinina Design, e nesse dia lancei um conjunto de peças num desfile com as minhas próprias amigas. Na altura tinha peças direcionadas para cerimónia, linhos, toucados, e também algumas peças práticas, foi muito giro”, garante a artista.

Porquê Dinina?

Cláudia é a última de quatro irmãs. “A mãe do meu pai era Claudina e ele queria que eu me chamasse Claudina. A minha mãe não gostava nada e disse ‘não, não, ela vai chamar-se Cláudia’, começa por contar. Mas o seu nome próprio nunca foi aquele que o pai adoptou. “Ele nunca me chamou por Cláudia, era sempre Dinina, sempre, sempre, sempre Dinina e ficou”, revela. Quando foi para registar a sua própria marca não hesitou na escolha que só poderia ser aquela: Dinina. Criada a marca, seguiram-se meses e meses de trabalho. Fazer moldes, criar modelos, costurar as peças. Tudo passa pelas mãos de Cláudia que procura sempre construir cada peça com os materiais e tecidos que encontra em São Miguel, e só mesmo quando tem de ser, vai buscá-los lá fora. Diz que, para fazer um chapéu, “o mais difícil é criar o molde até atingir o tamanho certo com as medidas corretas, com o design pretendido”, diz. “Esta mente não pára, é uma mente inquieta, é que estou sempre a trabalhar mentalmente”, garante Cláudia que assume ser “uma mulher de fé e uma grande sonhadora” e para quem a célebre frase de Fernando Pessoa – «Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce» faz todo o sentido e “uma das frases mais inspiradoras” pelas quais se rege. 

“Esta mente não para,
é uma mente inquieta,
é que estou sempre
a trabalhar mentalmente”

Da Lagoa para a Austrália, França e Estados Unidos

A sua veia autodidacta levou-a longe. Para além do design, Cláudia Borges gostar de nadar em mar aberto, de ler, viajar e praticar karaté. “Estou no último castanho e este ano, se tudo correr bem, primeiro dan, cinto preto, mas tenho que trabalhar muito”, confessa. E trabalho é coisa que não lhe falta. 

Para além das peças que tem expostas para venda na loja do Museu Lagoa-Açores, no Convento de Santo António, e em outras lojas de Ponta Delgada, Cláudia montou uma loja online, e da Lagoa envia os seus chapéus para todo o mundo. “Estados Unidos, Inglaterra, França, Austrália e Grécia, foram estes países que me chamaram mais à atenção”, revela, explicando também que é possível os turistas que visitam a ilha também terem levado as suas peças para os seus países, que a própria desconhece, através das lojas onde tem as suas criações.

“Ele [Tony Carreira] pegou no chapéu e disse: ‘está muito bem feito’”

Mas o episódio que levou o Diário da Lagoa (DL) ao encontro de Cláudia aconteceu na ilha de São Miguel com Tony Carreira. “Foi um feliz acontecimento, eu estar no sítio certo à hora certa”, começa por contar a designer. Sem dizer quando e onde, Cláudia lá começa a relatar a história da fotografia que publicou na página da sua marca no facebook. “Eu estava a usar uma das minhas peças que é aquela que ele tem na mão [um chapéu], e começamos a conversar”. A designer disse ao cantor o que fazia e a que se dedicava. Mais à frente na conversa, “ele [Tony Carreira] pegou no chapéu e disse: ‘está muito bem feito, é muito bonito, é uma peça que chama a atenção’”, conta. Cláudia explica, enquanto conversa com o DL, que aquilo que pretende transmitir com a sua marca é também a sua máxima e o seu slogan: “arrojadamente simples”. O diálogo com o cantor ainda durou  “algum tempo”. Cláudia teve luz verde de Tony Carreira para publicar online a fotografia:“fiquei muito grata por isso, ele é uma pessoa muito simples, muito simpático, fiquei muito sensibilizada e surpreendida”, garante. O chapéu que Cláudia usava não seguiu na mala de Tony Carreira mas a designer diz que “no futuro” talvez isso aconteça. 

Mas não só de chapéus vive a “Dinina Design”. No ano passado, decidiu ir ainda mais longe. A marca “made in Lagoa” lançou uma linha de biquinis e fatos de banho “para todos os corpos” tendo já feito uma linha de camisas para homem e até laços. E porque valoriza as tais “parcerias” de que falámos no início desta reportagem, Cláudia já uniu esforços com vários outros artistas, tais como Andreia Sousa, natural de Vila Franca do Campo, Vanessa Branco, ilustradora, ou Américo Lopes, lagoense, com o nome de “AJL Design”, que imprime objetos em 3D e “biodegradáveis”.

Já foram muitas as colaborações com outros artistas e Cláudia já planeia novos voos. Diz que pela primeira vez, no ano passado, teve de contratar e liderar uma equipa de costureiras porque ficou com “um projeto grande, fora de São Miguel”. Explica que não pode ainda revelar do se trata mas está já em fase de conclusão e vai ter de “viajar para entregar” a encomenda. Cláudia está realizada com o que conseguiu. Vive exclusivamente da sua marca e deixa aquilo que considera ser a receita para o seu sucesso: “consegui colocar a minha paixão como um negócio mas também porque é um negócio com paixão”, conclui.

Sara Sousa Oliveira

Reportagem publicada na edição impressa de fevereiro de 2022

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