Deixo-lhe tudo em branco

© D.R.

Como lhe dizer, agora, após uma montanha de papéis, anos e anos de homenagens (virtuais), artigos, intocáveis, meus, e dirigidos somente a si, que deitei tudo ao lixo? Livros, crónicas, a até fotos.

Sim. Deixei tudo em branco. Como se nada tivesse havido entre nós. Tudo foi para o Santíssimo Lixo, e a secretária está vazia.

Fiquei apenas com uma memória. A Sua.

Ela está estimada, guardada na minha cabeça, mente, e fechada a mil chaves. Trago-a comigo, no meu peito também, bem escutada, a memória de si, para que ninguém reconheça o inacessível aos olhos de todos.

Deixo, enfim, na superfície um rasto de quem bate em retirada de um território outrora ocupado. Nada.

Queimei tudo. Deixou de fazer sentido ser cumprimentado pelo Marcelo Rebelo de Sousa, pelo Eanes. Deixou de fazer sentido um diploma, uma Alta Condecoração.

Porque não serviu, afinal, para lhe salvar a vida, nem evitar a contaminação da morte. Nem lhe deu o maior presente. A eternidade. Era só isso que eu queria para si. A eternidade.

Um nome registado neste cadafalso existencial, fosse lá isso o que fosse.

Mas meteu-se a política. Meteu-se o dia. A noite. A palavra. O e-mail. Mas. Mas. Mas não era o ano. A altura. O dia. A hora. Nunca. Nem isso, nem era a pessoa, nem eras tu. E nem era por aí: era tudo um imaginário de coisas que não se traduziam em nada.

A eternidade é apenas outra forma de se ser efémero.

Tens, ficaste, com o fim, a teu bem-dizer, à tua beira. As tuas mãos desfolham um fim. Ligeiro, esquecendo-se de si. E tens, sobrando das unhas roxas, um neto que dará tudo de si para que tu não fiques sem nome neste Mundo.

A luta continua.

Nunca acaba.

És um grande Combatente. Nunca duvidei disso. E continuas a surpreender, sempre. Sei que isto vai ser duro. Mas quando for duro, eu direi: “foi mais duro para ele”. Ou pensarei. Porque foi.

Tenho no sangue o lume dos Tavares, do Grota. E isso faz-me muito teimoso. Nunca me morrerás. Nunca!

Júlio Tavares Oliveira

Categorias: Opinião

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