Da saga – “A arte não serve para nada, a não ser para nos salvar a vida!”

Diana Cabral Botelho

Advogada

Quando me convidaram para escrever este artigo de opinião, quis esperar até pisar novamente o solo da ilha para o fazer. Por ser o primeiro, por ser para o Diário da minha terra e por haver qualquer coisa no ar da ilha que ajuda à inspiração. Contudo, nunca tive dúvidas sobre o que escrever, por ser algo que, neste momento, me aflige a alma e deveria, se ainda não o faz, afligir a todos os que cá vivem – a situação da cultura nos Açores.
Cultura essa que ocupou um lugar de destaque para cada um de nós durante o período de confinamento, mas que hoje se vê relegada para segundo plano por uma única razão – falta de iniciativa política.
Com efeito, não nos faltam bons artistas, não nos falta a inspiração que se respira em qualquer canto desta ilha, não falta organização nem vontade por parte dos artistas, mas falta sim o apoio do poder político a uma causa que parece silenciosa, quando deveria ser bastião desta nova fase de desconfinamento no arquipélago.
Ao invés, os artistas açorianos, louvados nos mais variados eventos organizados pelas autarquias e pelo governo regional, estão agora a ser calmamente esquecidos por quem de direito e a verem todas as áreas de atividade retomarem, menos a sua.
De facto, desde 1 de Junho de 2020 que podem abrir ginásios, restaurantes e bares mas a proibição de organização de eventos só é levantada no arquipélago a 1 de Julho de 2020, ao contrário do estipulado para o resto do país e sem ser apresentada qualquer justificação aos principais lesados – os artistas.
Lesados estes que, no silêncio dos seus lares, passam fome, têm contas atrasadas, rendas por pagar, e a situação apenas não é mais dramática porque, num meio típicamente de competição, as pessoas, e em especial o Ricardo Cabral, agente cultural que dispensa apresentações, se têm unido e demonstrado um espírito de solidariedade e entreajuda nunca antes visto.
Para se ajudarem uns aos outros, organizaram angariações de fundos e alimentos, criaram a União Audiovisual dos Açores, chamaram a atenção para o problema nos mais variados meios de comunicação social, fizeram pedidos diretos a várias autarquias locais (que viram recusados) e nunca baixaram os braços.
Mas falhou o essencial: a resposta social e política a um problema que é grave e não se compadece com as medidas adotadas. Os apoios existentes não são adequados, nem pensados para os trabalhadores independentes que são os artistas – com um rendimento errático e sazonal, muitas vezes com dívidas à Autoridade Tributária e Segurança Social, e com uma instabilidade laboral constante.
E falta, acima de tudo, deixarem os artistas fazerem aquilo que sabem fazer melhor – viverem (d)a sua arte. Porque se o poder político criar as condições para que os artistas açorianos possam voltar a laborar e, mais ainda, possam ter um rendimento digno com que viver, creio que em muito pouco tempo, conseguirão ter a força para fazer aquilo que sempre fizeram: salvarem-se e salvarem os outros pelo caminho, ao tornarem este mundo um sítio melhor.
E por isso, a todos vós, Obrigada.

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de julho de 2020)

Categorias: Opinião

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