Cultura só para alguns?

Joana Simas
Museóloga

Fresquinho é o relatório, acabadinho de sair com os resultados do inquérito, realizado em 2020, sobre as práticas culturais dos portugueses. O referido trabalho, encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian e espelhando todo o território português (ilhas incluídas), teve como primordial intuito traçar o perfil de hábitos de consumo cultural do público português e como referenciado no estudo, “os domínios pesquisados abrangem consumos culturais através da Internet, da televisão e da rádio; práticas de leitura em formato impresso e digital; frequência de bibliotecas, museus, monumentos históricos, sítios arqueológicos e galerias de arte; idas ao cinema, concertos e espetáculos ao vivo, incluindo festivais e festas locais; participação artística e capitais culturais.”

Estava curiosa para ler a síntese dos resultados e, caros leitores, tenho a dizer-vos que não podemos estar orgulhosos. Ao longo de cerca de 100 páginas, os dados revelam alguma preocupação, pois, ao que parece, nós, portugueses, somos fraquinhos nesta matéria, colocando-nos, de um modo geral, no patamar em que a população consome pouca cultura. Pessoalmente, estes resultados não me surpreendem. De forma breve, destaca-se entre as várias áreas alguns dados que saltam mais à vista, nomeadamente, 61% dos portugueses inquiridos não leram um livro no último ano, (antes da pandemia, ressalve-se), 90% vê televisão pelo menos uma vez por dia, apenas 28% visitaram espaços museológicos e somente 31% visitaram monumentos históricos.

Resumidamente podemos concluir, a partir desse inquérito, que existem três fatores decisivos a contribuir para as diferenças dos hábitos culturais: a idade, o nível de escolaridade e os rendimentos. A idade está relacionada com o nível de (des)interesse nas atividades culturais. Por sua vez, pessoas com um maior grau de instrução e estabilidade financeira têm uma participação mais ativa no consumo de cultura, influenciando, indubitavelmente, os hábitos familiares das gerações descendentes ao proporcionarem experiências culturais. Os produtos culturais disponíveis para usufruto da sociedade são, ainda, encarados como bens de luxo e não de necessidade. Normal, quando os rendimentos familiares são baixos e há que priorizar os bens de primeira necessidade em detrimento de coisas consideradas, neste caso, de supérfluas.

Paralelamente ao acesso vedado por motivos financeiros, julgo que também o nível de desinteresse pelas atividades culturais tem subjacente uma barreira psicológica “isto não é para mim”, relacionada com as palavras “artes” e “cultura”.

Diante de tais resultados constata-se que há uma clara e urgente necessidade de se reverter esta situação, permitindo uma melhor reflexão em torno do tema. Soluções ideais com impactos milagrosos não creio que existam, mas a curto, médio e longo prazo têm de ser traçadas estratégias que passam pelo reconhecimento da cultura como uma necessidade básica para o desenvolvimento do conhecimento da sociedade, reclamando-se um maior investimento económico neste setor. Mas isto não é tudo. São precisas, igualmente, mudanças de hábitos e de mentalidades através de incentivos. Só quando se valorizar e apostar na cultura acessível a todos poderá ser mudado o paradigma cultural.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de março de 2022

Categorias: Opinião

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