Comércio lagoense com quebras nas vendas

Comerciantes do concelho traçam o retrato dos seus negócios num dos períodos mais desafiantes das últimas décadas

Helena Furtado está à frente do negócio fundado pelo pai em 1971 Foto: DL

Numa das lojas mais conhecidas da Lagoa, os balcões estão numerados e delimitados entre si por fitas no chão. O desinfetante passou a fazer parte da mobília e as máscaras também: “é cansativo”, suspira Helena Furtado, “mas pronto a gente habitua-se”, garante. “Claro que quando vamos a casa de um cliente e subimos as escadas com um colchão e de máscara ao chegar lá acima a gente fica morrendo”, diz a proprietária da conhecida Loja do senhor Gilberto. Não tem esse nome no letreiro mas é assim que toda a gente conhece o pequeno espaço onde cabe praticamente tudo, no centro do Rosário, e onde até vai quem precisa de pagar a conta da água. “Eu não fiz publicidade nenhuma”, garante Helena. “Fechou o Posto de Turismo e as pessoas ficaram alarmadas que não iam pagar a água mesmo estando avisadas que não iam pagar juros ”, explica. A palavra foi passando e o número de pedidos de quem vai à loja pedir-lhe para pagar a conta da água foi aumentando: “tenho 500 euros de água para pagar mas aquele dinheiro não é meu, tenho que estar a depositar o dinheiro que as pessoas me dão, que são meus clientes, para depois fazer o pagamento, não tenho lucro nenhum”, garante a comerciante que diz fazê-lo sem qualquer contrapartida.

Cordões sanitários fizeram aumentar as vendas
A loja que lhe ocupa a maior parte do tempo nunca fechou durante a pandemia. “Havia dias em que era como se estivessemos fechados, não aparecia ninguém, foi quase como um terror que as pessoas estavam vivendo”, garante Helena. Durante várias semanas e sem possibilidade de as pessoas entrarem na loja, a comerciante arranjou alternativas para continuar o negócio: “punha o balcão lá fora, chovia e punha o balcão para dentro, depois montei umas rodas por causa disso”.
Durante o confinamento, os hábitos alteraram-se. “Passei as coisas todas para a frente da loja para as pessoas poderem ver da porta e o que é que eu vendia mais? Lixívia, rolos de plástico, papel higiénico, pilhas para os relógios, eram as coisas que estavam todo o dia a bater”, garante.
A implementação de cordões sanitários em todos os concelhos da ilha de São Miguel ajudou a contornar as quebras, durante algum tempo, mas durante o mês de junho, as vendas voltaram a cair: “as pessoas já têm mais sítios onde comprar mas também ainda há muita gente que ou não tem trabalho ou estão em layoff ou foram mesmo para casa”.

“As pessoas primeiro vão comprar comida e só depois vêm aqui”
Helena Furtado diz que a pandemia trouxe quebras na ordem dos 20% ao negócio. “Por esta altura, as pessoas já estavam todas a comprar coisas para as festas e este ano não há nada disso, eu própria guardava as loiças para expor só na altura das festas mas já as pus cá fora para vender logo”, conta, ao mesmo tempo que se posiciona para tirar uma fotografia num dos balcões onde atende quem chega.
Numa outra loja do concelho, falámos com uma das donas que não quis ser identificada. Ela veio com o marido de Pequim, na China, em 2008. Montou o negócio primeiro em Ponta Delgada e depois na Lagoa. Com a ajuda do telemóvel e de uma aplicação para traduzir as perguntas que fazíamos em português, para mandarim, conta-nos que o negócio tem estado muito fraco. “As pessoas primeiro vão comprar comida e só depois vêm aqui”, diz, com dificuldade em expressar-se em português. A pandemia veio mexer e muito com o negócio. Antes as encomendas que faziam na China demoraram 15 dias a chegar. Agora chegam só chegam passado um mês. A empresária diz que, neste momento, apenas ela e o marido dão conta do negócio sozinhos uma vez que as vendas estão bem mais fracas.

Sónia Furtado Ferreira é fotografa profissional há 20 anos Foto: DL

Serviços de fotografia com quebras de 60%
Num ramo distinto está Sónia Furtado Ferreira. É fotógrafa profissional há mais de 20 anos e também ela teve de parar durante três meses. “Tinha decidido que este ano não fazia casamentos”, começa por explicar, “os casamentos tiram-me muito tempo para fazer aquilo que mais gosto que é os recém-nascidos”, garante a fotógrafa. “Não tive grande sorte com esta pandemia mas não me está a faltar trabalho, graças a Deus”, assegura.
Apesar de ter quebras na ordem dos 60% devido também aos reajustes que teve de fazer nas marcações, Sónia Ferreira garante que o desconfinamento lhe trouxe muito trabalho tendo a agenda preenchida até ao final do mês.

Fotógrafa vê bebés primeiro que os avós
Atualmente dedica o estúdio, no Rosário, quase em exclusivo, à fotografia de recém-nascidos: “há bebés que vêm cá nascer vindos do Pico, do Faial, Santa Maria e como eles têm um timing para voltar, saem do hospital e vêm para aqui direto, às vezes os avós nem viram ainda os seus netos e eu já os estou vendo”, conta. Antes da pandemia, fazia em média 12 sessões por dia, agora faz no máximo seis. “Já tinha um cuidado extremo com a limpeza mas agora redobrei esses cuidados, o estúdio acaba por ser muito grande para limpar, desinfetar e tive que reduzir as sessões para ter o estúdio limpo”, explica a fotógrafa.
Para o ano pretende retomar a fotografia de casamentos. Garante que as reservas são mais, nesta altura, do que em anos anteriores, sobretudo de estrangeiros que procuram cada vez mais os Açores para casar.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de julho de 2020)

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