“Chega ao hospital e passam a ficha à frente porque o médico não sabe comunicar com a paciente? Isto não é aceitável em pleno século XXI”

Mãe de utente surda garante que a filha foi discriminada no Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) por um médico que a terá recusado atender. HDES garante que vai “apurar responsabilidades e adotar medidas corretivas”

Hospital de Ponta Delgada garante que vai averiguar a situação denunciada ao Diário da Lagoa. © DL

Um pequeno papel com um número de telefone e uma denúncia verbal. Chega-nos ao Diário da Lagoa (DL) a mensagem, já pela noite dentro, com um contacto telefónico. Quem o entregou, relatava um acontecimento que, segundo as suas palavras, merecia todo o destaque para que “se corrija a situação e não se volte a repetir”. 

Na manhã do dia seguinte, pegamos no telefone e ligamos a Paula Freitas, mãe de Diana, de 23 anos. Num primeiro contacto, é evidente o transtorno. Escuta-se do outro lado um coração de mãe, indignado. E foi assim que Paula Freitas começou a contar o que se tinha passado com ela e com a filha no passado dia 15 de março. 

“A Diana tinha a tensão muito baixa, e o ritmo cardíaco, devido a um medicamento que ela toma. Qual não é o meu espanto quando chegamos lá [às urgências do HDES] ao meio dia e cinco — claro que na ficha aparece que ela tem uma deficiência auditiva — e perto das quatro horas da tarde eu apercebi-me que estavam a chamar pessoas que tinham chegado depois dela”, relata. 

Questionada sobre como reagiu perante isso, continuou: “voltei à triagem e perguntei o que é que se passava. A senhora disse que o médico já devia ter chamado a Diana e que iam ligar para ele. Depois de tanto tentarem falar com o senhor doutor, ele disse que realmente tinha passado a ficha dela porque não a entendia”, garante a mãe de Diana, enquanto demonstra no seu tom, do outro lado da chamada telefónica, a sua incredulidade.

“Foi o segurança que tentou falar com ele, foram as meninas da triagem. Não veio cá fora falar comigo, não, nem sequer se deu ao trabalho de vir cá fora, falar comigo”, revela desapontada. “Até mesmo a equipa que estava de serviço, desde a triagem, à PSP, ao segurança do hospital, todos acharam que aquilo não era uma boa atitude a que o médico teve. E mesmo depois de falarem com ele, continuou sem atender a Diana.”

Paula garante que as duas ficaram à espera que “um dos dois médicos que estavam de serviço resolvesse aceitar” a filha. Revoltada com a situação, garante que já se vinha embora do hospital de Ponta Delgada mas foi travada por quem lá estava: “o segurança disse «oh senhora, não prejudique a sua filha, não a leve sem a tratar por causa de uma maldade de um médico. Vamos tentar que a outra médica atenda a sua filha», descreve.

“Sem comer, com frio, viemos embora para casa”

Algures, durante a chamada com o DL, que não demorou mais de 15 minutos, fez-se um breve silêncio. Paula faz uma pausa, para depois ser ainda mais assertiva na força das suas palavras. Está habituada a lutar pelos direitos da filha desde sempre mas garante que nunca passou por nada semelhante. 

Ao fim de várias horas de espera, a filha lá acabou por ser vista: “quando entrou ao serviço outra médica que acabou aceitar” atender a filha “às quatro e um quarto da tarde”.

A mãe garante que “depois até correu tudo bem” e não apresentou queixa porque só estava “com o pequeno almoço, só saímos de lá às seis da tarde, sem comer, com frio, viemos embora para casa”.

Paula garante: “não se justifica, porque a Diana tem a mãe que a acompanha mas há surdos adultos que não têm quem os acompanhe. Os que entendem e sabem mexer num telemóvel, normalmente são sócios da Associação e fazem uma videochamada e tem um intérprete que traduz as consultas. Mas há surdos que não têm acesso a esses meios de comunicação”, defende a mãe de Diana Freitas.

os surdos pagam impostos,
(…) não podem deixar de atender uma pessoa
só porque fala outra língua.”


E para o caso dos surdos que não têm quem os acompanhe, dá outros exemplos comuns que se passam com a filha. No autocarro, “o senhor não percebe, ela escreve no telemóvel para onde é que quer ir e o senhor tira o bilhete. Ela quando vai votar já não é preciso eu entrar, ela entende-se perfeitamente com as pessoas que lá estão e exerce o seu direito de voto”. 

Paula Freitas prossegue: “os surdos pagam impostos, têm os seus direitos, os surdos votam, não podem deixar de atender uma pessoa só porque fala outra língua. Eles sabem ler e escrever, e, a maioria entende o médico porque sabe fazer leitura labial, o médico é que não entende o que o paciente responde mas se não entende pede para escrever”, diz.

“Fiquei triste, quero que ajudem os surdos”

Quisemos saber da própria Diana o que sentia. No mesmo dia, à tarde, fomos ao seu encontro, na cidade de Lagoa e, frente a frente, na presença da mãe —  que serviu de intérprete —, contou-nos: “eu não tinha intérprete, mas tinha a minha mãe comigo e ninguém me chamou. Esperei, esperei e esperei tanto que fiquei cansada. Queria ir para casa já, ser atendida depois pelo médico na Lagoa. Fiquei cansada, fiquei triste, quero que ajudem os surdos. Somos iguais aos ouvintes, temos os mesmos direitos. Queria que se tivesse passado o mesmo quando vou, por exemplo, à consulta de otorrinos em que sabem que sou surda e, apesar do médico não me entender, a minha mãe faz o diálogo. É importante que atendam as pessoas.”

Apurar responsabilidades e adotar medidas

Depois de apurado todo o contexto e relato, contactamos o Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) via e-mail, colocando várias questões e solicitando esclarecimentos. O HDES remeteu ao jornal o seguinte texto:

“Em resposta às questões colocadas cabe-nos esclarecer que o Serviço de Urgência e o Hospital em geral tem como missão a salvaguarda do melhor interesse do doente/pessoa vulnerável. Aliás, o Hospital tem implementado um procedimento de chamada de intérprete de linguagem gestual, em parceria com a Associação de Surdos de S. Miguel, com a qual temos vindo a trabalhar.

Sobre a situação relatada, cumpre-nos informar que foram tomadas as devidas diligências para averiguar a situação, no sentido de se apurar responsabilidades e adotar as medidas corretivas.”

Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de abril de 2022

Categorias: Reportagem

Comentários

  1. MANUEL ARTUR CARREIRO TAVARES NETO 3 Abril, 2022, 11:03

    Tudo tem que ser averiguado e levado até às últimas consequências, e, a ser verdade, esse médico castigado exemplarmente, e posto na RUA!

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