Cerâmica Vieira renovada mas com poucos turistas

Instalações da fábrica mais antiga de São Miguel foram reabilitadas, a retoma está a ser lenta mas as irmãs Viera são otimistas quanto ao futuro do negócio

Manuela (à esq.) e Teresa (à dir.) Vieira gerem o negócio da família FOTO DL

O contraste entre o branco das paredes e o negro das pedras, que suportam o edifício, salta à vista de quem procura a fábrica mais antiga da ilha de São Miguel. Os últimos oito meses foram de renovações: “alargámos mais a nossa entrada, a nossa secção de vendas, aproveitamos para expor a pedra e agora está tudo com mais luz e mais vida e os clientes podem circular à vontade”, começa por explicar Teresa Vieira que, junto com a irmã, Manuela Vieira, conduzem os destinos da Cerâmica Vieira, um dos ex libris do concelho da Lagoa.

A fábrica foi criada em 1862 e inicialmente instalada junto ao Porto dos Carneiros, no Rosário. Está há cinco gerações na mesma família e foi criada por Bernardino da Silva, natural de Vila Nova de Gaia, que escolheu a Lagoa para montar o negócio: “ele viu que não havia nenhuma fábrica de cerâmica vidrada e quando regressou aos Açores veio com um colaborador seu e com uma sobrinha e ela é que casa com o nosso bisavó de cá”, conta Manuela Vieira numa conversa descontraída com o Diário da Lagoa. As duas irmãs são o rosto do negócio mas garantem que o pai é visita assídua na fábrica: “ele passa cá todos os dias para ver como estão as coisas”, garantem as duas irmãs.

“O turismo não aparece e as vendas não se fazem”
A maior e mais visível presença da fábrica, eram, até à chegada da pandemia, os turistas. O local chegava a receber oito autocarros por dia carregados de turistas, atualmente, os lugares do parque de estacionamento da fábrica, estão quase sempre vagos. “Foi ficar sem chão, de um dia para o outro, realmente o turismo não aparece e as vendas não se fazem, mas é preciso é não baixar a cabeça”, garante Manuela.

Apesar da queda acentuada no número de visitantes, a fábrica continua a ser procurada pelos que chegam a São Miguel. Mas a pandemia fez com que os locais redescobrissem a sua terra: “ainda ontem esteve aqui um senhor de cá que nunca tinha posto os pés aqui, ele veio fazer uma encomenda para si mas ficou muito satisfeito com o que encontrou na fábrica”, conta Teresa Vieira.

Percorremos as várias salas da fábrica e durante esse percurso cruzámo-nos com três turistas, todos de máscara, e de telemóvel ou máquina fotográfica em punho. Nas várias secções, os visitantes podem acompanhar todos os processos. Tudo começa nos montes de terra que se encontram no exterior, que é importada do continente e da ilha de Santa Maria. “Não pode ser uma terra qualquer, os nossos fornecedores mandam-nos amostras, nós testamos e depois escolhemos”, explica Manuela Vieira. Na Cerâmica Vieira faz-se o barro que depois é moldado na roda de oleiro, e são várias espalhadas pelo edifício. Depois a peça é cozida, pintada e vidrada, até ter o acabamento brilhante para estar finalmente pronta para ser vendida.

Graça Cordeiro é das artesãs mais antigas da Cerâmica Vieira FOTO DL

“Ultimamente têm saído muitas canecas”
Graça Cordeiro é uma das ceramistas mais antigas da Cerâmica Vieira onde trabalha há 40 anos. “Vim para a fábrica quase a fazer os 15 anos”, conta. “Na escola sempre tive jeito para o desenho e sempre gostei de desenhar, o meu avô já era oleiro aqui e foi ele que me trouxe, experimentei, peguei no jeito e fui ficando”, explica Graça que tem em mãos a pintura de um prato, fabricado de forma totalmente artesanal. “Adoro pintar e pintar ouvindo música é muito terapêutico”, garante a ceramista que já perdeu a conta à quantidade de peças que já lhe passaram pelas mãos: “algumas peças faço a olho, outras são por decalque, varia, as pessoas por vezes trazem desenhos e nós fazemos, vamos criando, inventamos mas sempre dentro do mesmo padrão”, garante.

A fábrica continua a receber encomendas específicas sendo a tradicional louça da Lagoa, azul e branca, a mais vendida: “tanto saiem peças grandes como os souveniers mas ultimamente têm saído muitas canecas, está muito na moda as pessoas tomarem tudo em caneca”, revela Manuela Vieira.
Sobre o futuro, em tempo de pandemia, as duas irmãs estão otimistas e acreditam que o negócio secular vai continuar na família: “os nossos filhos avançam se for preciso, sem dúvida”, diz Teresa Vieira. Apesar de não arriscarem previsões, as duas irmãs acreditam que aos poucos a retoma vai acontecer e que os turistas irão voltar gradualmente para conhecer a história da fábrica mais antiga da ilha de São Miguel.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de setembro de 2020)

Categorias: Reportagem

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