Centro Social e Cultural da Atalhada vai abrir pastelaria e lançar novo livro

Apesar da pandemia poder trocar as voltas aos planos, o novo espaço e a publicação sobre o bordado açoriano deverão ver a luz do dia ainda este mês

Presidente do Centro Social e Cultural da Atalhada, Nuno Martins, está ligado à instituição há 20 anos FOTO DL

É uma das instituições mais polivalentes do concelho. Envolve 700 pessoas e tem cerca de 40 colaboradores. O Centro Social e Cultural da Atalhada (CSCA) tem utentes dos 0 aos 100 anos. Inclui creches, centros de atividades de tempos livres, centros de dia para idosos ou uma antiga pastelaria. A lista é longa e é explicada pelo presidente da instituição. Nuno Martins, pós-graduado em Ciência Política e Relações Internacionais, está ligado ao CSCA há 20 anos, primeiro como voluntário e mais tarde como membro dos corpos sociais da instituição. Diz que ideias não lhe faltam e a pandemia não as cancelou, apenas atrasou o que aí vem: uma pastelaria com venda ao público na Atalhada, um livro e um projeto que conjuga agricultura e turismo.

DL: Teme que as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) sofram ainda mais com o isolamento inerente à pandemia?
As pessoas reconheceram durante a pandemia que as instituições têm um papel muito importante no apoio às populações e nas crises são elas a sair às ruas para resolver os assuntos mais prementes. Há uma frase que é muito partilhada nas redes sociais: “vamos ser melhores pessoas depois do confinamento”, eu não acredito muito nisto. Quem era boa pessoa vai continuar a sê-lo. Não me parece que a pandemia possa afetar positivamente seja lá o que for em termos de percepção social e capacitação psicológica. No caso das instituições, acho que a pandemia reafirmou o papel das instituições.

DL: De que forma a pandemia afetou o funcionamento do CSCA?
A pandemia afetou-nos a todos os níveis, afetando a vida das pessoas afetará as instituições. Foi um desafio muito grande, foi muito difícil, nós ainda estamos numa fase de reajustes, principalmente na rede educativa, tivemos de fazer mais algumas contratações temporárias para poder fazer face às imposições das autoridades de saúde. Se tivéssemos tirado fotos os nossos espaços antes e depois da pandemia seria muito interessante porque agora só vemos sinais, setas, linhas, circuitos e os procedimentos são todos muito diferentes.

DL: Qual é o maior desafio nesta nova normalidade?
Embora não seja epidemiologista, não seja da área da saúde, não seja cientista, não me parece que nos próximos anos seja possível um regresso à normalidade que nós conhecíamos em finais de 2019, não me parece, de todo. O confinamento não proporcionou só questões de ordem material, propiciou dificuldades psicológicas que não foram enfrentadas.

DL: O número de pedidos para apoio psicológico aumentou?
Aumentou. Um dos primeiros serviços requisitados pela região, e parece-me muito bem, foi exatamente o apoio das nossas psicólogas, embora em regime de teletrabalho com atendimentos telefónicos, mas que não havia outro enquadramento possível, era aquele que havia mas que foi muito requisitado. Criou-se esta sociedade do stress, a sociedade das coisas, a sociedade do ir viajar, a sociedade do ir para o restaurante. E não quero dizer que vamos acabar todos com problemas psiquiátricos, mas porque houve uma sociedade que nos incutiu uma série de regras e que nos imprimiu a tal normalidade que nós tínhamos. Esta normalidade que existia, a meu ver não era normal, era atípica e era relativa. Muito relativa de um produto que nós criamos, sem dúvida, alicerçada muito em preceitos capitalistas e individualistas, da procura de uma felicidade que é uma coisa do Homem nesta busca incessante pela felicidade. Os filósofos antigos também já falavam disto. Mas neste momento esta felicidade só se alicerça em coisas materiais e quando falham temos um problema. Eu acredito que isto é que tem que ser trabalhado.

DL: Têm um novo projeto que já está em fase de conclusão, em que consiste?
Nós tínhamos uma pastelaria num local que estava arrendado no Porto dos Carneiros [no Rosário] que neste momento vai mudar de espaço. Antes era vocacionada para a distribuição e indústria e agora vamos fazer venda ao público. Decidimos abrir um espaço onde se faça venda direta ao público sem distribuição e no qual nós consigamos reconhecer uma panóplia de produtos e desenvolver novos inclusive, que tenham haver um bocadinho com a nossa história e com a nossa realidade e sendo todos eles caseiros, artesanais. Porque parece-nos que é isto que tem que ser promovido, nem que seja como garante da preservação de tradições. Esta nossa nova pastelaria vai aparecer com um novo lógotipo, com novo nome. Interessa-nos os negócios se eles tiverem vocação social de promoção da empregabilidade.
Nós estamos também a editar um livro que será lançado em breve acerca do bordado regional e que já está pronto. É um manual no qual diz especificamente como é que se faz aquele determinado ponto do bordado. Isto é que é o tal património cultural imaterial que tem que ser preservado.

DL: A pastelaria vai empregar quantas pessoas?
Neste momento temos quatro pessoas alocadas àquele espaço, com a vontade de expansão. Interessa-nos expandir porque vamos acoplar àquela valência uma série de outras. Esta nova pastelaria nasce porque vem englobada num projeto que arrasta a cooperativa de artesanato, a carpintaria, arrasta tudo para o mesmo bolo. Quando se muda a imagem, dá-se uma mudança da marca exatamente para associar tudo isto e a nova valência que vamos criar dedicada à agricultura e ao turismo.

DL: Quer revelar o nome da pastelaria?
Não queria revelar ainda o nome da pastelaria mas tem muito haver com a nossa origem e tem muito haver com o Centro da Atalhada. Esta direção nunca achou muita piada que a nossa pastelaria antes se chamasse Senhora do Monte, porquê Senhora do Monte no Centro da Atalhada? E a primeira coisa que fizemos foi logo criar uma imagem da instituição para que toda a gente percebesse que o Centro da Atalhada estava ali, para manter alguma coesão. Depois quisemos trazer o espaço para o centro da Lagoa por questões comerciais. Vamos apostar naquilo que eram os produtos das culturas habituais a ver se conseguimos criar uma imagem de marca que espero que tenha sucesso. Estas coisas são sempre 10% de talento e 90% de trabalho e certamente vai correr bem. A marca como disse está muito ligada ao nome Atalhada que em breve daremos a conhecer.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de setembro de 2020)

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