Brincolage: a marca de brincos que surgiu na pandemia e se tornou um negócio

A Brincolage surgiu como um projeto-pandemia, em abril de 2020, quando as pessoas se viram obrigadas a ficar em casa devido aos sucessivos confinamentos. A marca nasceu pelas mãos de Carolina Soares, jovem lagoense de 23 anos, que reside na freguesia do Rosário, concelho de Lagoa. Atualmente, a marca tem já mais de 50 coleções lançadas com vários modelos

Carolina Soares tem 23 anos e é a criadora da marca Brincolage © CORTESIA DANNY JANEIRO

Carolina Soares tem 23 anos e é a fundadora da Brincolage, ou, como diz em tom de brincadeira, a CEO da marca. Ao Diário da Lagoa (DL), conta que tudo começou “apenas por diversão”. Estava em casa e decidiu começar a criar brincos para se entreter e passar o seu tempo.

“Vi imagens na Internet de como poderia fazer e comecei a fazer só para me distrair”, começa por explicar Carolina. “Comecei a usar os brincos que fazia, a dar à família, às amigas e surgiu a ideia. Começaram a dizer-me: «Carolina, por que não começas a vender?»”. Assim, primeiro para si, depois para a família e amigas, a produção foi crescendo.

Com o maior número de brincos criados, proporcionalmente ao esforço dedicado ao projeto, Carolina sentiu necessidade de divulgar as suas peças. Para isso, apostou em publicações nas redes sociais. “Decidi criar a página do Instagram e de Facebook, mas não tinha nome porque nunca pensei que fosse uma coisa que fosse durar muito tempo”, confessa. “Pensava que só iria pôr aqueles primeiros a vender, mas depois comecei a gostar daquilo que estava a fazer”, afirma.

Assim nasceu a Brincolage, resultante da combinação entre “brincos” e “bricolagem”. Um jogo de palavras que, só em parte, resulta do acaso: “o nome Brincolage remonta ao facto de eu gostar muito de artesanato e de criar coisas. E eu fazia muito isso com o meu pai em casa. Um dia, eu estava no hipermercado e vi que havia lá uma zona de bricolagem, e lembrei-me de fazer aí a troca de palavras”. 

“Há pouco tempo registei a marca, por isso Brincolage é marca registada, é minha e já ninguém pode tirar” avança Carolina, em tom de riso, mas sem esconder o orgulho.

No processo de criação dos brincos, principal acessório da marca Brincolage, Carolina experimentou vários materiais. “Primeiro, comecei a trabalhar com biscuit, que é uma massa que seca ao ar. O que acontecia é que eu não conseguia conservar muito bem, para depois voltar a trabalhar com ela. Às vezes pegava nela e os cantinhos já estavam secos e não dava para fazer nada”.

“Sendo que as lojas estavam sempre a abrir e a fechar, e houve alturas em que não podíamos ir às papelarias, porque não nos podíamos deslocar fora do concelho, comecei a fazer a massa em casa”, revela. “Fiz com farinha Maizena, cola branca e água. Misturava tinta acrílica…, mas também não dava assim muito certo”, confessa a jovem empreendedora de 23 anos.

“Até que finalmente descobri um site onde podia encomendar a massa”. Após vários testes, e aquisição de novo material “não só a massa, mas também a máquina do rolo, os moldes, as formas”, Carolina conseguiu chegar com a massa ao ponto pretendido. “Antes só fazia com os moldes de bolachas que eu já tinha em casa. Ou então fazia o desenho no papel e depois recortava. Atualmente, ainda faço isso. Se eu quiser uma forma diferente, para ontem, faço o desenho em papel e depois recorto. Não fica a mesma coisa, mas vai mais ou menos lá”.

Atualmente, surpreende-se com a dimensão do seu atelier. Com as ferramentas que comprou, os moldes, e tudo o que foi juntando e investindo na marca. Além de brincos, produz também colares, pulseiras, anéis, ganchos de cabelo, e chegou até a trabalhar com outro material, resina, com o qual produzia porta-chaves e marcadores de livros. 

Brincos da coleção Constança são dos modelos mais vendidos da marca, segundo Carolina Soares © CORTESIA CAROLINA SOARES

A Brincolage é uma marca de uma só pessoa. É Carolina quem produz os brincos, tira as fotos aos produtos, faz a divulgação e a distribuição. Confessa que “essa é a parte mais difícil de ser empreendedor”, porque pode ser desgastante e consumir muito tempo. “Sou só eu. Eu é que faço a confeção dos brincos, eu faço a montagem, eu tiro as fotografias e faço as entregas. Já tive foi ajuda de amigas, da minha irmã, ou das minhas primas, que já fizeram de modelos para as fotografias”.

No verão, por exemplo, conta como decidiu tirar umas pequenas férias, e o regresso ao trabalho foi mais difícil, porque o algoritmo do Instagram não gerava alcance suficiente para as publicações. “Quando o negócio sobrevive do Instagram, nós não podemos tirar férias. As feiras são esporádicas e no Instagram nós temos o problema do algoritmo”, explica. “Se calhar, tiro meia hora ou 45 minutos para publicar uma coisa que as pessoas veem em segundos. As redes sociais alimentam-se como fast food, é tudo muito rápido”, lamenta a jovem. 

Além da presença online, Carolina participa também em feiras, onde tem um contacto mais direto com as pessoas. “Ver as reações das pessoas, andar na rua e ver alguém com um modelo que tenha sido eu a fazer. É o reconhecimento, essencialmente. Ver as pessoas felizes, o reconhecimento de dizerem que já conhecem a minha página. Fico logo contente, porque às vezes nós não temos a noção. Vemos um número no Instagram, 200, 600, 1000 seguidores, mas não temos noção do que são realmente mil pessoas. E depois ver que as pessoas realmente nos conhecem”, confessa.

“Acho que é a melhor reação que podemos ter, quando as pessoas já nos compram e voltam a comprar. E eu tenho clientes que me compram desde que comecei, desde que eu usava outro material e continuam a comprar”, assegura a jovem empreendedora.

As coleções da Brincolage têm nomes de mulheres. Segundo Carolina, “é uma forma de as homenagear, e de cada uma ter o seu próprio modelo. Já que elas significam tanto para mim, porque eu cresci à volta delas”, explica a criadora que sempre viveu rodeada de figuras femininas. Para a motivar a continuar com a marca, Carolina conta com o apoio da família e do namorado. Atualmente, não é algo a que se dedique a tempo inteiro. Carolina estava a tirar uma licenciatura na Universidade dos Açores, e houve uma altura em que se dedicou em exclusivo à marca. Agora trabalha numa empresa na área de decoração de interiores, e é entre o trabalho e a Brincolage que divide o seu tempo. Mas, segundo avança, se houver essa oportunidade de crescimento da marca, a reação de Carolina será a mais natural: “não vejo por que não dedicar-me a tempo inteiro”. 

A quem queira iniciar-se no mundo do empreendedorismo, Carolina deixa um conselho: “façam o que gostam”. “Planeiem, tracem os vossos objetivos, saibam onde querem ir com a marca, e escolham a melhor altura do ano para avançar. Por exemplo, não faz sentido lançar uma linha de bikinis agora no Inverno. Mas façam o que gostam, porque quando fazemos o que gostamos, não é trabalhar”. 

Mariana Lucas Furtado

Reportagem publicada na edição impressa de novembro de 2022

Categorias: Reportagem

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