Breve história da única escola de condução da Lagoa

Instrutor de condução há mais de meio século, não há praticamente nenhum lagoense que, tendo aprendido a conduzir na Lagoa, não conheça Jaime Almeida. Quisemos saber mais sobre o fundador da Escola de Condução Lagoense

 Jaime Almeida deixou de dar aulas há mais de um ano © SOFIA MAGALHÃES/ DL

Tudo começou em 1974 quando conseguiu a sua licença de condução. Jaime Almeida começou por trabalhar na escola Ilha Verde, em Ponta Delgada, e após fazer um estudo prévio, percebeu “que havia muita gente da Lagoa, de Vila Franca e da Povoação para [aquela] escola de condução”.

Quando percebeu que seria uma mais valia para quem vivia longe, poder frequentar as aulas mais perto, e para a Lagoa, pôs mãos à obra. Como abrir algo novo custava muito dinheiro, um dos grandes desafios que enfrentou foram as dificuldades financeiras.

Não desmente que sempre quis trabalhar por conta própria: “é diferente quando somos os nossos próprios patrões”. Quando esta ambição nasceu, ainda não sabia em que área seria, mas sabia que desejava muito que acontecesse. Trabalhou 12 horas por dia, mas lá conseguiu que a escola tivesse pernas para andar.

Nos dias de hoje ainda dá uma ajuda, seja a alunos com algumas dificuldades de aprendizagem nas aulas teóricas ou nas práticas. Reconhece que é exigente, mas que persiste no aluno até que aprenda tudo o que deve: “comprometo-me que vou conseguir com que qualquer um tenha a carta de condução”, assegura.

Quando visitamos a escola de condução lagoense nas paredes encontramos quadros que contam um pouco da história de Jaime. Há um camião, um carro carocha e uma mota também antiga. Cátia Cunha é a primeira cara que vemos quando visitamos o local. É a responsável pelas inscrições e a rececionista da escola. Está há dois anos a trabalhar com a família Almeida mas foi também uma das alunas do “senhor Jaime”. Ao DL, garante que “como chefe não é tão exigente como nas aulas de condução” diz, num tom alegre.

André é o filho mais novo de Jaime e também instrutor na escola há já 27 anos. Foi num daqueles camiões antigos, expostos na parede, que com apenas oito anos conduziu uns metros. “Vinha assistir às aulas de código, via o meu pai a ensinar tudo aos outros alunos”, explica André que para quem “tirar a carta e fazer o curso de instrutor foi tudo bastante fácil”. Trabalhou com o pai durante todo o seu percurso profissional, mas “não é fácil trabalhar com a família”, admite.

O percurso de vida

Jaime nasceu e cresceu em Santa Cruz, berço da Lagoa. Começou a descobrir o mundo do trabalho logo aos oito anos com o pai, nas terras, numa loja de conveniência e num posto de leite, “a única coisa que queria era agradar o meu pai e ser muito bom em tudo o que fazia”. Explica que os pais queriam que crescesse muito cedo e num tom entristecido diz: “nem me lembro de ser criança”.

Antes de abrir o seu próprio negócio, em outubro de 1969, foi para Moçambique para a guerra de Ultramar. Apesar de todos os confrontos que presenciou, o antigo combatente recorda “era um local lindo para se viver” e que aprendeu muito apesar de ter sido durante a guerra.

Infelizmente a família teve de se separar para que os seus irmãos mais velhos não fossem enviados para a guerra. O irmão mais velho foi enviado para a Venezuela e o segundo filho foi enviado para o Brasil, um sacrifício que, lembra, o seu pai teve de fazer para os proteger.

Em fevereiro de 1972 regressou a Portugal. Um dos quatro irmãos ficou responsável pela loja e pelo posto de leite que a família tinha. Com apenas 16 anos, Jaime ao regressar procurou emprego durante quatro meses, tendo-o encontrado na Unileite (União das Cooperativas Agrícolas de Lacticínios da Ilha de São Miguel). Foi encarregado de recolha durante dois anos e a sua principal função era contratar lavradores para trabalharem na empresa. Andava por toda a ilha à procura dos melhores, assegura.

Com 24 anos recebe uma proposta de trabalho e é quando faz o curso de instrutor: “esta profissão sempre foi muito gratificante, mas também tem muita responsabilidade e é isso que tento passar aos meus alunos” de que tudo tem de ser feito com responsabilidade principalmente na condução.

Agora reformado, Jaime em conversa com o Diário da Lagoa (DL), admite que se reformou para poder ter tempo de fazer coisas de que gosta. Nunca conseguiu deixar o ensino, dá conselhos aos instrutores de como aplicar as melhores pedagogias para cada dificuldade que o aluno tenha porque conta com 50 anos de experiência: “uma das grandes bases que um instrutor tem de ter é paciência” e reforça que é “exigente porque um erro na estrada pode ser fatal”.

Jaime, hoje, formalmente reformado, mais conhecido pela sua escola de condução e pela exigência que as suas aulas tinham, deixou de dar aulas há mais de um ano durante o confinamento imposto pela pandemia de covid-19.

Com 50 anos de experiência de aulas de código, questionamos como foram as aprendizagens das aulas online: “não houve muita aderência”. Um dos problemas que sentiu foi não conseguir perceber se os alunos estavam a entender “há pessoas tímidas que muitas vezes têm medo de dizer que não entenderam e aqui em aula consigo perceber pela cara da pessoa se entendeu ou não e assim volto a explicar, online é muito difícil”. Confessa que não é o método mais eficaz de ensino e por isso acredita mais no ensino presencial onde pode ouvir e ser ouvido.

Sofia Magalhães com Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de julho de 2022

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