Ativista ambiental sueco que já percorreu perto de 50 países esteve na Lagoa para mudar mentalidades

Palestra de Erik Ahlström na Secundária de Lagoa alertou alunos para o impacto do lixo no planeta. Movimento, que já chegou aos Açores, combina caminhada e recolha de resíduos

Várias turmas do 10º e 11º ano encheram o anfiteatro da Escola Secundária © DL

Eram sete da tarde de uma quinta-feira quando o Diário da Lagoa recebeu uma nota de imprensa do movimento Plogging Azores. Plogging é uma modalidade desportiva que utiliza a caminhada para recolher lixo. A nota dava conta que, no dia seguinte, o fundador, um ativista ambiental, o sueco Erik Ahlström, iria estar na Escola Secundária de Lagoa, para realizar uma palestra. 

Na manhã seguinte, já na escola e entre o frenesim do momento de algo que estava prestes a acontecer, várias turmas do 10º e 11º ano foram enchendo o anfiteatro da escola. Curiosos, viram Erik Ahlström chegar com mais alguns elementos, sendo um deles o empresário Mário Rui Pacheco, responsável pelo movimento nos Açores.

Rapidamente Erik assumiu o palco e começou por mostrar o que classificou como a forma correta de, parar, baixar e recolher o lixo do chão para de seguida pedir a todos que se levantassem e retirassem o calçado e as meias. O riso instalou-se no anfiteatro. Foram todos surpreendidos.

Sempre em inglês, ao perguntar o que aconteceria se colocassem fita cola à volta dos dedos das mãos durante dez horas por dia, o ativista provocou, do outro lado, um silêncio. Acabou por ser ele a responder e explicar que acabariam por não conseguir mexer as mãos.

“Olhem para os vossos pés e reparem como os põem numa prisão diária 12 horas por dia”. Com esta frase conseguiu captar a atenção de todos e continuou: “30 por cento de todos os músculos no corpo estão nos pés. Vocês praticam, treinam os vossos pés?” Os alunos responderam com um “não” em uníssono e a atenção de todos tinha sido conquistada.

“Quando constróis uma casa o que é mais importante?”, questionou. “A fundação, a base. É isso que é importante. Para conseguir um corpo forte é necessário ter uns pés fortalecidos.” E começou por explicar a diferença entre dois tipos de calçado, defendendo que os certos devem ser mais largos na parte da frente para que os dedos dos pés se consigam agarrar bem o chão e não fiquem presos como acontece na maioria do calçado comum. 

Alertando para a necessidade de nos conectarmos com a natureza e de como isso começa por ter os pés bem assentes no chão, o sueco falava da importância da caminhada com foco no meio ambiente que nos rodeia, em alerta para os resíduos que podemos encontrar a poluir a natureza e de como o gesto de recolher, pode influenciar quem nos vê em ação, a fazer o mesmo.

“Vocês  vivem numa ilha tão bonita que estão tão dependentes do que está a acontecer no Atlântico, na vossa bonita ilha. Se cuidarem dela, terão um futuro fantástico”, assegura Erik Ahlström. 

O fundador do Plogging contou ainda como a Suécia atravessa o problema do sedentarismo e da dependência dos telemóveis e de como a falta de exercício e do “não nos mexermos o suficiente” poderá ser catastrófica. Falou do tempo que os resíduos demoram a decompor-se na natureza, entre imagens projetadas na parede, e apelou ao consumo de resíduos recicláveis. O ativista contou que no seu país existem um milhão de fumadores entre os 10 milhões de habitantes e de como cada cigarro, atirado ao chão, se fosse colocado lado a lado daria para ir de Estocolmo, a capital sueca, até à África do Sul, no continente africano, e ainda voltar para a Suécia.

Depois Erik explicou em que consiste o movimento “Plogga” e convidou todos a andar à volta do anfiteatro a fazer Plogging, a simular a caminhada, e o gesto de dobrar as pernas e recolher os resíduos numa preparação para o que seria depois feito no exterior.

Da teoria à prática na Secundária da Lagoa

Alunos passaram da teoria à prática e acabaram juntar cerca de 12 sacos de pequenos resíduos © DL

Já no exterior, depois de reunir todos em círculo e soltar algumas frases motivacionais num breve aquecimento, passou-se à prática. Numa escola, à primeira vista sem vestígios de lixo, acabou por se juntar cerca de 12 sacos de pequenos resíduos.

Na ocasião, o Diário da Lagoa (DL) aproveitou para abordar o fundador do Plogging, que em jeito de conversa contou-nos que esta foi a sua primeira vez nos Açores. “Estou muito feliz por ver o quão tudo está limpo, a forma como cuidam dos jardins e da relva, penso que devem estar orgulhosos de serem açorianos”.

O ativista sueco diz que consegue “ver nos olhos das pessoas que sentem orgulho, então não custa nada apanhar o lixo, porque o lixo atrai lixo, e não faz qualquer sentido poluir uma ilha tão bonita como esta. É muito importante que as pessoas ganhem consciência disso”, alerta.

Erik salienta que nunca imaginou que um dia estaria a ter esta oportunidade de espalhar a sua ideia por todo o mundo: “todas as vezes tenho que beliscar o meu braço e questionar-me se estou a sonhar e se isto é real”, confidenciou ao DL, contando que já passou por cerca de 50 países desde que tudo começou há cinco anos. E rematou que “todas as pessoas podem fazer a diferença, porque a nossa geração fez asneira. Temos que ter uma mente Plogga, ou seja, mudar as nossas mentalidades, não é o teu lixo mas é o teu planeta. É da nossa responsabilidade, de todos, porque se limparmos o ambiente, passamos a confiar uns nos outros.” Enquanto se despedia confidenciou que depois iria rumar a Braga, Espanha, França e Itália com o mesmo espírito de missão.

Como chegou o Plogging aos Açores

Erik Ahlström e Mário Rui Pacheco (ao centro) com os elementos da comitiva sueca na Secundária de Lagoa © DL

Mário Rui Pacheco, já fazia atividade física com um grupo de amigos, nomeadamente, os seus amigos Paulo Pacheco e o Diogo Caetano, quando via “muito lixo nos trilhos, não havia aqui essa preocupação ambiental muito vincada, até porque temos este conceito de que somos uma ilha verde e que não há lixo em lado nenhum. Efetivamente existe e quem corre pelos trilhos consegue perceber que existe muito lixo”, assegura. Foi assim que começou a apanhá-lo. 

Questionado sobre a origem do movimento, conta que “nasce numa ação de formação”. Explica que andou à procura de conteúdo para fazer uma apresentação e “inocentemente, encontro o movimento Plogging, uma coisa que eu próprio também já tinha por objetivo fazer e, lá de vez em quando fazia, com um grupo de amigos, porque nós recolhemos o nosso próprio lixo. Então fiz a pesquisa, faço a apresentação, faço o primeiro contacto com o Erik e digo que quero fazer o movimento e pergunto como é que posso fazer e se existe algum entrave porque o nome já existe. Ele diz-me “não, não há qualquer entrave, qualquer um é livre de utilizar o nome Plogging, em qualquer parte do mundo, faz isso, tens o meu apoio”, conta.

O feliz acontecimento dá-se em 2019. Mário Rui  conta que fez algumas ações com um grupo de amigos em escolas, “desde escolas profissionais a secundárias, e temos tentado passar a mensagem. A covid não nos ajudou, estamos um pouco parados, porque as pessoas têm medo e não querem vir para a rua levantar o lixo porque pode ou não estar contaminado”, revela.

A importância da participação da comunidade

Quem também esteve presente foi o vereador da Câmara da Lagoa, Nelson Santos, mostrando apoio à iniciativa. Em declarações ao Diário da Lagoa, salientou que “acima de tudo, a mensagem de sensibilização ambiental é sempre importante” sublinhando que “estamos aqui a falar de uma particularidade, de um movimento que nasce daquilo que é juntar a atividade de jogging com a recolha do lixo no fundo com alegria, naquilo que é a mudança de um mindset, de um paradigma em que todos nós podemos ter pequenas ações que influenciam o bem estar de nós todos numa comunidade”.

Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de março de 2022

Categorias: Reportagem

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