Atelier Brum, a Artista Beatriz, e a arte como forma de interação

O Atelier Brum, na Lagoa, é um dos pontos do festival Walk&Talk e espaço de trabalho de Beatriz Brum, uma artista que tem sempre presente a “condição de ilhéu” nos seus trabalhos

Beatriz Brum tem 26 anos e desde cedo se interessou pelas artes Foto Rui Pedro Paiva

Entre a Atalhada e o Rosário, inserido numa das casas da rua das Alminhas, está um pequeno portão branco, que abre as portas ao Brum Atelier, o espaço de trabalho da artista lagoense Beatriz Brum. Em tempos, foi uma antiga carpintaria, onde o pai e o avô de Beatriz trabalharam. Nas próximas semanas, o espaço irá ser o palco do projeto ´Figura-Lugar’, integrado na edição 9.5 do festival Walk&Talk.

“A ideia é ser um espaço de interação, de partilha, de reflexão com um lado muito experimental”, diz a artista ao Diário da Lagoa. Beatriz Brum recebeu no seu espaço outros dois artistas que atualmente partilham atelier no Porto: João Ramos, que vem da pintura, e Rodrigo Queirós, da escultura. O primeiro já tinha estado instalado no Brum Atelier. O segundo nunca tinha vindo a São Miguel. “Cada um traz as suas referências e interesses” explica Beatriz, referindo que o objetivo passa por perceber se os trabalhos “contaminam-se uns aos outros ou não”.

Portanto, nos dias marcados entre as 18h e as 22h, o atelier está aberto a visitas. E o espaço está sempre diferente. Quando o Diário da Lagoa lá foi, por exemplo, existiam figuras evocativas dos típicos bonecos de presépio, uma tela inspirada nos presépios de lapinha e a forma de uma lagoa em acetato. Neste projeto, o objetivo é promover a “proximidade”, fazer com que as pessoas sintam o “cheiro da tinta” e façam perguntas que nãonão fariam caso fosse uma exposição normal.

“Há exposições mais arrumadinhas que outras. Há umas em que o próprio processo é mostrado e eu acho isso bonito, porque é uma generosidade de quem cria e também uma maneira do trabalho do artista crescer”, resume a lagoense, salientando que através das conversas o trabalho artístico pode ir por caminhos diferentes dos inicialmente previstos. Para Beatriz, a interação entre o artista e o público não é apenas uma ideia alternativa para o festival. É antes a sua maneira de encarar a arte: “eu não partilho a ideia romântica de que um artista deve ficar a trabalhar sozinho no atelier” porque é essa interação que “ajuda imenso a crescer o trabalho”. Diz ela que foi uma perspetiva que ganhou quando estudou nas Caldas da Rainha, terra onde se sente muito a “troca de ideias criativa”.

“Desde novinha que queria ser artista”
Quando Beatriz Brum estava no 9.º ano já sabia que queria ir para Artes. “Desde novinha que queria ser artista”. Esse desejo fê-la andar a recolher assinaturas de alunos para conseguir abrir a área na escola Domingos Rebelo, que frequentava. Conseguiu. Acabou por ser o mote para o futuro que se seguiria.

Na altura da escolha do curso para a universidade, ainda ponderou optar por outras áreas com as quais também se identifica, como a Psicologia ou a Educação Básica. Mas as artes falaram mais alto. Em 2013, acabou por ingressar na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, escola integrada no Instituto Politécnico de Leiria. Se o início foi “difícil” devido às “saudades de casa”, acabou por se habituar à “vivência muito específica” de uma “terra pequena muito ligada às artes”, como as Caldas.

Licenciou-se em Artes Plásticas e tornou-se mestre, na mesma escola, em Artes Plásticas e Gestão Cultural. Pelo meio, no terceiro ano da licenciatura, ganhou o prémio do Walk&Talk destinado a jovens criadores. Também pelo meio, antes de concluir os mestrados, decidiu voltar a casa. Voltou aos Açores e à Lagoa. Tudo porque em janeiro de 2018, quando vinha de férias a casa, recebeu um “convite irrecusável”: trabalhar no serviço educativo do Arquipélago – o centro de arte contemporânea dos Açores, localizado na Ribeira Grande.

“Uma vez tinha ido visitar o Arquipélago e ao passar pelo serviço educativo olhei para a janela e pensei que adoraria trabalhar ali. São aqueles sonhos que se concretizam”, conta agora. Começou a trabalhar cinco dias após o convite e já lá vão três anos. Três anos em que procurou promover a arte com os diferentes públicos que vão ao centro de arte, com grande enfoque nas crianças. Um trabalho que permite a fusão da arte com a educação básica e a psicologia, as tais outras áreas de que sempre gostou.

Exposição de Beatriz intitulada ‘Figura-Lugar’ está instalada na antiga carpintaria da família Foto Rui Pedro Paiva

Um regresso sempre iminente
Foi aquando do regresso a casa que tornou a antiga carpintaria no seu atelier, porque, fez questão de manter o trabalho artístico paralelamente à sua profissão. Atualmente, o seu trabalho tem incidido muito “sobre a luz”, focando a “questão espiritual” e a “relação corpo-forma”. Se no início gostava muito de criar com o recurso ao fogo, hoje os seus trabalhos utilizam outras superfícies como o acetato ou o acrílico.

A preferência pelos materiais explica-se por aqueles permitirem começar as obras sem qualquer condicionante de cor. A utilização do acrílico e do acetato reflete também a influência dos Açores no seu trabalho. “Sinto liberdade de criar formas nessas superfícies que são transparentes como o mar e as lagoas”.

A “condição de ilhéu” reflete-se quase sempre nos seus trabalhos, uma vez que a ilha funciona como “lugar de contemplação”, que molda muito o “espírito criativo”. E influenciou, também, durante muito tempo, os próprios materiais de quem sempre pensou um dia em regressar a casa. “Quando estudava lá fora tinha vontade de fazer trabalhos grandes, mas havia sempre aquela ideia de não saber como iria transportá-los quando fosse para regressar”.

Atualmente, além do atelier, Beatriz é uma das artistas que contribui na galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada. Para o futuro, a artista plástica lagoense avança com duas intenções. Uma é aprofundar os seus conhecimentos em arteterapia, uma disciplina que faz da arte uma forma de terapia. A outra é ainda uma “possibilidade” e prende-se com abertura do atelier a outros artistas. “Estou a pensar na possibilidade de abrir o atelier a algum artista de cá ou alguém que esteja de passagem. Isso se alguém quiser. Tenho essa consciência que esta interação é importante para mim”. Uma intenção que deixa no ar a possibilidade daquele pequeno atelier, que já é um cativeiro de criatividade, se tornar num dos pontos essenciais do mapa da arte contemporânea em São Miguel.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de agosto de 2020)

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