“As pessoas ajudam o meu negócio e eu ajudo as pessoas a não sair de casa”

A história de pequenos produtores lagoenses que tiveram de ir ao encontro dos clientes

Nélia Baron e Scott Baron são produtores há 4 anos
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O telefone de Nélia Baron não pára. Todos os dias recebe telefonemas e mensagens de pessoas de toda a ilha a pedirem-lhe fruta e legumes. A pequena carrinha branca com que faz as entregas não tem dado para as encomendas: “já disse ao meu marido vamos ter de arranjar uma carrinha maior para ver se consigo levar mais caixas”, conta, a sorrir, ao Diário da Lagoa.

Nélia Baron, 47 anos, e o marido vieram da Bermuda há quase quatro anos. Ele nasceu no estrangeiro mas é neto de açorianos, ela é natural da Ribeira Chã mas esteve 22 anos na Bermuda. Em 2016 decidiu que devia voltar com a família à ilha onde nasceu. Comprou casa na Lagoa e os 10 mil metros quadrados de quintal transformou-os em quinta de onde sai a maior parte do que vende: “temos um bocadinho de tudo, tentamos cultivar umas coisas um pouco diferentes, acelgas multicolor, cenoura arco-íris, batata, cenoura, rabanetes”.

Peixes que ajudam a fertilizar a terra
Nélia e Scott Baron tentam utilizar o menor número de químicos possível nos legumes que cultivam. Recorrem à aquoponia, uma forma de cultivo biológica e 100% sustentável. “Nunca vi aqui nos Açores e é muito parecido com a hidroponia. É um sistema ecológico que tem peixes e o peixe é quem fertiliza as plantas. Temos um tanque com peixes e depois aquela água passa por uns filtros onde se filtra as impurezas e depois vai para as plantas, sendo um fertilizante para as plantas”, explica Nélia. O marido tirou um curso nos Estados Unidos sobre o sistema que funciona em estufa e que ainda está em desenvolvimento na quinta de ambos mas garante que já dá o que colher: “temos alfaces, morangos através deste sistema, tomate”. A produtora explica que ainda não são muitos mas são mais limpos, duram mais no frigorífico e têm um sabor diferente: “no ano passado apanhava o pepino e havia muita gente no mercado que me dizia que o pepino era mesmo muito gostoso e realmente eram muito bons”.

Passa-a-palavra e internet trazem clientes
Nélia tem uma banca no mercado da Graça, em Ponta Delgada, que permanece aberto. Contudo e devido ao confinamento provocado pela pandemia Covid-19, havia cada vez menos pessoas a deslocarem-se ao mercado. “Comecei por ter alguns clientes mais idosos que tinham receio e pediam-me para lhes deixar os legumes em casa, depois foi uma amiga, depois outra”, conta, tendo também se disponibilizado para a entrega de fruta e legumes em casa, através de um anúncio na sua página de Facebook. Hoje, não tem mãos a medir para chegar a todos. Tem pedidos do Pico da Pedra, Fenais da Luz, Ponta Delgada ou Capelas mas diz que não consegue chegar a todos. “O serviço é muito cómodo e uma mão leva a outra, as pessoas ajudam o meu negócio e eu ajudo as pessoas a não saírem de casa”, garante.

António Silva dedica-se ao cultivo desde os 12 anos
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Quem também teve de alterar a sua rotina foi António Silva. O produtor natural da Lagoa dedica-se ao cultivo do que a terra dá desde os 12 anos. Hoje tem 51 e junto com os dois irmãos e o pai alimenta o negócio que também tem no Mercado da Graça. Apesar da sua banca continuar aberta, também ele teve de ir ao encontro dos clientes: “nós fornecemos a restauração mas como está fechada não conseguimos escoar os produtos todos e muita gente também ficou com medo de ir ao mercado”, conta. A entrega de legumes em casa passou a ser opção. Confessa que tem “medo mas as pessoas precisam de comer e nós precisamos de trabalhar”. António garante que a forma como trabalha também mudou e os cuidados, por causa do novo coronavírus, têm de ser redobrados: “começamos a utilizar luvas, tenho sempre álcool no carro e um borrifador. Mal acabo de atender o cliente borrifo as minhas mãos e as do cliente, antes isto era impensável”, conta.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição digital de maio de 2020)

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