Famílias fazem máscaras sociais em casa

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Costureiras aliaram o saber que têm à ajuda dos filhos produzindo centenas de peças que seguem para vários concelhos da ilha

Nascimento Araújo e as filhas já fizeram mais de 300 máscaras Foto: DR

Os dias têm poucas horas para tanta encomenda. Maria João Araújo é Educadora social mas, desde pequena que vive entre linhas e tecidos. A mãe foi costureira durante 47 anos e apesar de já não estar no ativo mantém vivo o conhecimento de quase meio século de profissão. Tudo começou com a escassez de máscaras no mercado. “Nós aqui em casa quando queríamos ir ao supermercado ou à farmácia as máscaras estavam esgotadas tanto nas farmácias como nas lojas e então fizemos para nós, porque os meus pais são um grupo de risco”, começa por contar Maria João Araújo. Mais tarde, com a recomendação geral do uso de máscaras comunitárias pela população, por parte das autoridades de saúde, Maria João lançou o desafio à mãe: “porque não fazer e publicar [no Facebook] e assim quem quiser pode-se proteger”, conta. E assim foi, recorreram a uma máscara cirúrgica para tirar o molde para as de tecido. A base é sempre a mesma mas, consoante os pedidos, podem-se fazer ajustes ao nível dos elásticos, por exemplo. Os últimos pedidos têm tido um destinatário específico, os mais novos: “temos recebido imensos pedidos de máscaras para crianças, vou falando com as pessoas por mensagem, pergunto as medidas e vamos fazendo os ajustes necessários”, diz Maria João Araújo.

Mariana e Maria João Araújo colaboram com a mãe na produção Foto: DR

A falta de matéria prima, no mercado, não foi um problema para a família Araújo. “A minha mãe como tinha uma retrosaria tem muitos tecidos e estamos a reutilizar muitos desses tecidos que ela já tinha em casa”, conta Maria João. “Muitas pessoas acham que o valor da máscara está muito barato mas também pensamos na situação atual de algumas famílias, inclusive algumas estão desempregadas, outras estão em casa sem receber ordenados. Colocamos um preço simbólico, 2 euros, para pagar pelo menos o elástico ou linhas que não tenhamos e que teremos de adquirir”. O anúncio começou por ser feito por Maria João na sua página de Facebook, “a palavra foi passando de boca em boca e as pessoas começaram a entrar em contacto connosco”, conta, sendo agora três pessoas a dedicar-se exclusivamente ao fabrico de máscaras: Maria João, a mãe e a irmã, que também está em casa [até à data de fecho desta edição] devido ao encerramento temporário da clínica onde trabalha. “Sentimo-nos necessárias para a proteção das outras pessoas, sabemos que estamos a contribuir para a prevenção da doença e para as pessoas poderem ir às farmácias, supermercados, para se sentirem mais protegidas e, também, proteger os outros de um eventual contágio”, explica a lagoense.

Ana Paula conta com a ajuda dos dois filhos e da nora Foto: DR

Também em casa de Ana Paula Martins, os dias têm sido bem atarefados. A imposição de utilização de máscaras no interior de espaços fechados, no concelho e em toda a ilha, fez disparar a procura pelo artigo que passou a fazer parte da indumentária dos lagoenses. Ana Paula nasceu em Vila Franca do Campo mas reside na Lagoa há vários anos. Sempre fez trabalhados de costura, mas tirando a altura das Marchas de Santo António, diz que nunca teve tanto trabalho. “ A D. Filomena Oliveira pediu-me para lhe fazer umas máscaras e, sinceramente, respondi-lhe que não podia porque não tinha tecidos, nem material”, começa por contar. Mas depois, “durante a noite, lembrei-me que tinha uns elásticos que tinham vindo da América e comecei assim a tirar uns pequenos tecidos. Liguei-lhe de manhã a dizer que afinal podia fazer as máscaras que me tinha pedido, fiz 10”. Depois das primeiras dez, nunca mais parou. O anúncio também saltou para o Facebook e desde então os pedidos são muitos. Ana Paula garante que já fez mais de 500 máscaras. Diz que encontrar material no mercado não tem sido tarefa muito fácil mas, com os contactos que já tinha, quando se dedicava exclusivamente à costura, tem conseguido abastecer-se de tecidos e elástico. As máscaras que faz, à semelhança das da família Araújo, têm dois revestimentos de tecido com uma abertura para a colocação de um filtro ou TNT (Tecido não Tecido), tornando-as assim mais robustas. Também por causa do elevado número de pedidos que tem tido, Ana Paula teve de reforçar a produção. “Nas primeiras duas semanas estive sozinha mas a minha nora está em lay-off e disse-me «a senhora não quer ajuda?», e assim foi, agora somos quatro”, explica. Ana Paula, os dois filhos e a nora juntos já fizeram centenas de máscaras que seguiram para diferentes freguesias do concelho bem como para várias outras de Ponta Delgada ou Vila Franca. Ana Paula diz que o trabalho com a conceção das máscaras tem tido um efeito de união que já foi comentado pelos próprios filhos: “a quarentena serviu-nos bem, ficamos mais unidos”, diz.

Máscaras têm vários tamanhos e podem ser personalizadas Foto: DR

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de junho de 2020)

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