Vida triste há 100 anos em Água de Pau – A Febre Espanhola

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Passos e vozes do outro lado da porta silenciaram-nos. Apenas ouviam-se os roncos do nosso estômago.
– São as raparigas – disse Maria da Luz.
O vento soprou uma mão cheia de «escalhada», que se instalou no chão e nos cobertores, assim que a porta se fechou atrás das minhas irmãs. Germina chorava.
– Temos pão, mãe – disse ela. – E duas cebolas.
Ninguém reagiu.
– Trouxemos pão para toda a gente – repetiu Germina, com a voz a tremer. – Chega para todos. Vá, venham comer. – A minha irmã parecia trémula.
Deixou-se cair ao lado da mãe, cobriu a cara com as mãos e chorou desalmadamente.
– Germina – murmurou a minha mãe. Era como se quisesse questioná-la, mas não se atrevesse. – Germina – tornou. – Mas…
– Estamos a morrer de fome – alegou Germina, com as faces húmidas. – Todos.
Com apenas oito anos, percebi o que se passava. As minhas irmãs tinham-se deitado com homens, desconhecidos, e permitido que eles lhes tocassem, em troca de comida. O nosso desespero chegara ao ponto em que tudo o que aprendêramos nada significava, nem a palavra de Deus. Não roubar e não mentir eram meras palavras, escritas algures onde as pessoas não passavam fome nem frio, não estavam doentes nem cansadas. O certo e o errado não importavam, e eu tinha tanta fome que nada fazia diferença.
O meu pai estava destroçado, quebrado; perdera a concentração, a sua consciência desvanecia-se, a sua vida esfumava-se. Já não era o homem que me levava à igreja da Senhora dos Anjos ao domingo nem à terra para desviar a praga dos melros. Esse desaparecera e eu sentia a falta dele. Ansiava pelas suas histórias e pelo seu toque. Receava que já nem sequer me reconhecesse, ou à minha mãe ou irmãos. Não sei como, mas sabia-o condenado. Por um momento, achei que estávamos todos condenados.
– Amanhã, levo o Júlio – decidiu a minha mãe, e abraçou-me. – Têm razão. Não podemos esperar mais tempo.
Fiquei sem fôlego, como se tivesse levado um murro no estômago. O sangue latejava-me nos ouvidos. Não sabia ao que ela se referia, mas tinha a certeza de que fosse para onde fosse que pensasse levar-me, eu não queria ir. A minha família era a minha vida; tudo o que sabia, e tudo o que alguma vez quisera saber, ouvira-o da boca deles. O que seria eu sem eles? O que seria de mim? Alguma coisa me dizia, contudo, que, se a minha mãe pretendia levar-me para algum lado, era porque queria que eu ficasse bem e melhor do que estava com eles; desejava proteger-me da fome e do infortúnio, que em breve a febre espanhola poderia provocar. Não queria que eu visse nenhum dos meus irmãos ou irmãs morrer. Eu era ainda uma criança. Tinha de ser salvo.
Os meus pais levaram-me a pé pela serra de Água de Pau, subindo o boqueirão, atravessando as terras dum lugar que dava pelo nome de «Jardim das Murtas» e depois de grande canseira chegamos aos Lourinhos, lugar frondoso de castanheiros com vista sobre a nossa vila. Um casal de camponeses lavrava a terra. A minha mãe dirigiu-se a eles e suplicou-lhes que a ajudassem. Os Silvas conheciam meus pais de longa data. Quando rapazes, cavaram juntos muita terra do Ti-Silva velho. Ele fora para o Brasil e regressara à ilha com umas «patacas» bem acrescentadas e investira na sua vila em propriedades, nos Vales, Junqueiras, Lourinhos e Terra da Forca.
A mulher virou-se para o marido, nas suas costas, á espera de orientação. Ele desviou o olhar e regressou ao trabalho, pensativo. A quinta era grande, e, apesar do ar frio, senti o cheiro da terra e dos animais. Deixei que o ar deslizasse pela minha língua, na esperança de que, de alguma maneira, me enchesse o estômago. Isso não aconteceu, portanto, olhei em redor. Ansiava por ver pão a arrefecer num peitoril ou sopa a fervilhar numa panela de ferro suspensa sobre o lume. Ao invés, vi dois rapazes embrulhados em cachecóis e casacos pesados de lã a consertar uma vedação de madeira, à distância. Um olhou para trás e acotovelou o irmão para lhe chamar a atenção para nós junto ao estábulo.
Observei a casa. As pedras cinzentas que se encavalitavam para formar as paredes davam-lhe um aspeto robusto, e imaginei que o interior fosse quente e seco. O fumo que se elevava da chaminé somou-se aos meus desvaneios, mas a mão da mulher a apertar-me as faces despertou-me. Inspecionou-me, virando-me a cabeça ora para um lado ora para o outro.
– Está imundo – concluiu.
– Não temos onde lavar-nos – respondeu a minha mãe.
– Onde vivemos não podemos fazê-lo…
– Manda-os embora – disse o marido sem tirar os olhos do arado.
– Por favor, só o meu filho. Por favor, deixe o rapaz ficar aqui.
– Eu quero ir com vocês – pedi, em voz baixa, à minha mãe.
– Caluda – ordenou ela.
– Estão doentes? Apanharam a febre espanhola? – Cheiram tão mal.
– Matam-nos a todos se tiverem apanhado a febre.
– Não tivemos ainda. Mas, não temos é comida para as bocas da nossa casa. A gente, os mais velhos enfrentaremos o nosso destino. Mas, o Julinho não por favor, ele é tão novinho! Pelo amor de Deus!?
Ambos os rapazes nos observavam. Um tinha uma pá e apoiou o queixo sobre as mãos, entrelaçadas em redor do comprido cabo da mesma. O outro sorriu para mim e encolheu os ombros. Pela altura deles, percebi que eram mais velhos do que eu, embora a distância e o volume da roupa dificultassem a identificação exata da sua idade.
– Deixe-o ficar, pai – gritou o rapaz, sorridente, desde a estrema do serrado de terra.
– Não leram os letreiros na Praça? – A febre, essa peste espanhola, ou lá-quié, está a alastrar-se! Aqui em cima, nos Lourinhos, estamos seguros até ao dia em que ela chegar aqui também.
Os rapazes regressaram de imediato ao trabalho.
Havíamos caminhado muito até chegar à quinta dos Silvas. A luz do dia já esmorecia. Tinha os pés molhados e frios e doíam-me as mãos por causa dos ventos que sopravam desde manhã. Entretanto, doíam-me as faces também, dos beliscões da mulher. Esfreguei a cara com a costa das mãos para mitigar a dor.
– Há letreiros por todos os lados n’Água de Pau e n’áLagoa – disse a mulher à minha mãe.
– «CUIDADO, A FEBRE ESPANHOLA ESTÁ EM TODA A ILHA» é o que dizem. Estão afixados por todo o lado. Se a apanharmos, matam-nos até antes de morrermos da doença. – Olhou de relance para o marido.
– Maria do Céu – disse o marido, transigindo. – Está bem. Leva-os para dentro e dá-lhes qualquer coisa para comer. Assim c’mássim, somos todos filhos de Deus e Ele não vai deixar de nos ajudar se não ajudarmos essa família. Como te chamas rapaz? – perguntou.
– O nome dele é Júlio – respondeu a minha mãe.
– E ele não tem língua? – indagou o agricultor, num tom brincalhão.
– O meu nome é Júlio Senhor – disse eu. – E gostaria de comer qualquer coisa, se não se importasse.
– Mãe, como vamos nos tornar a ver quando esta febre acabar? – perguntei à minha mãe, junto à vedação que conduzia ao caminho das Junqueiras às Escaninhas até ao nosso casebre coberto de palha. A minha mãe agachou-se e observou com atenção o meu rosto. Passou as mãos pelos meus braços e ombros, acariciou-me as faces e roçou-me os olhos com os polegares.
– A febre vai passar e ainda vamos voltar a viver todos juntos de novo meu rico filho – disse ela.
Tinha os olhos cheios de lágrimas. Aqui ficarás em segurança e longe desta doença maldita – garantiu, falando tão baixinho que quase não se ouvia. – Um dia tornaremos a juntar-nos. Prometo – Prometo. – Beijou-me a testa. – Amo-te Júlio.
Pôs-se de pé, deu meia volta e afastou-se pelo caminho abaixo o mais depressa que pôde.
Começara a chover. Parte de mim sabia que não voltaria a vê-la, embora só vários anos mais tarde o tenha admitido.
Júlio adivinhara, pois jamais se reencontrou com os pais e os irmãos. Faleceram todos com o surto da febre espanhola, que assolou, não só a ilha de São Miguel, mas os Açores, Portugal inteiro e o mundo todo.
Adotado pelos Silvas como um filho, Júlio cresceu e fez-se homem robusto, honesto e casou-se. Um dia, na cozinha, com a mulher e os seus sete filhos, no aconchego do calor vindo do forno a cozer pão, duma das casas da rua do Foral Novo, que deram lugar aos antigos casebres cobertos de palha das Escaninhas, contou-lhes um «causo» – a história da sua vida. Pediu a Deus que seus filhos não viessem nunca a conhecer tal castigo como a pandemia da febre espanhola que assombrou a sua e milhares de famílias em 1919/1920 por todo o mundo.
Cem anos depois, em 2019 e 2020, nova doença pandémica regressa e alastra-se pelo mundo, com origem agora na China – o coronavírus.
Felizmente a terra do Júlio, a Vila de Água de Pau até ao dia 8 de maio era das poucas terras dos Açores e de Portugal onde ninguém ainda tinha sido apanhado ou infetado. Graças a Deus e ao seu povo que soube isolar-se, proteger-se e ser coerente, gosto de pensar.

Por: RoberTo MedeirOs

(Crónica publicada na edição impressa de junho de 2020)

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