“A farmácia é a luz que está sempre acesa”

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É o local onde todos vão e que não fecha nem mesmo durante uma pandemia. Quisemos perceber o que está diferente e como é gerir duas das três farmácias da Lagoa

Ricardo Martins Mota é responsável pela gestão de duas farmácias em São Miguel e uma na Terceira. Foto: DL

Ricardo Martins Mota é farmacêutico de formação mas assume funções de gestão na área da saúde há mais de 20 anos. É dono de três farmácias em duas ilhas dos Açores. Tem a seu cargo 25 pessoas espalhadas pelo Rosário e Água de Pau, na Lagoa, e Angra do Heroísmo na ilha Terceira. Ainda antes de ser obrigatório, o uso permanente de máscara, passou a fazer parte dos seus dias de trabalho. É a alteração mais visível que a pandemia trouxe a quem trabalha em estabelecimentos fechados. Mas muito mais mudou.

DL: De que forma a pandemia afetou as farmácias?
Acho que as prioridades se alteraram. O utente hoje procura o essencial e existem áreas na farmácia que passaram muito a acessório. Na parte da dermocosmética, as pessoas compram menos por dois motivos: um tem que ver com a prioridade das pessoas que se alterou e o outro está relacionado com o próprio espaço. Com as medidas que tomamos está tudo menos à mão do consumidor. Gestos tão simples como o tocar o produto não é possível, só isso já diminui muito a venda. Ao limitarmos a entrada de pessoas na farmácia e também o próprio tempo de atendimento – que tentamos que seja o mais rápido – faz com que não haja tanto tempo ou disposição para esse tipo de vendas. Isso naturalmente fez com que determinadas gamas de produtos tivessem vendas abaixo daquilo que era habitual, o que se repercute naturalmente no negócio.

DL: O facto de as pessoas terem evitado recorrer aos centros de saúde e ao próprio hospital terá contribuído também para essa menor afluência?
Sim, e o próprio confinamento. O confinamento também protege de algumas doenças. Por exemplo, nós notamos aqui quebras nos antitússicos, vendemos menos. Dores de garganta, apareceram menos. As pessoas ao estarem mais confinadas no seu espaço também acabam por estar menos predispostas a outras patologias.

DL: Qual foi a maior alteração que sentiu desde a chegada da pandemia?
A mudança veio logo com a preocupação de manter aberto o espaço, foi a prioridade logo que surgiram os primeiros casos. Tivemos de fazer mudanças físicas com a colocação das barreiras de acrílico, a limitação do número de pessoas, o cuidado e reforço da ventilação no interior, a colocação dos desinfetantes. Depois, implementamos uma série de protocolos quer ao nível do atendimento de utentes, quer ao nível da desinfeção do espaço para mitigar a possível transmissão do vírus e não ter uma situação de alguém dentro da farmácia que ficasse contaminado e a farmácia ter de encerrar. A farmácia é a luz que está sempre acesa. A nossa atividade pauta-se muito pela proximidade, pela confiança e pela saúde e isso são valores que a farmácia tem de manter.

DL: Como é ter de gerir três farmácias em duas ilhas diferentes?
É desafiante e mais ainda nesta altura porque há aqui a própria gestão psicológica das equipas também. Uma pandemia cria uma pressão muito significativa nos colaboradores. Quando entram têm de se desinfetar, têm de vestir bata, têm um protocolo rigoroso, não podem falhar e isso cria uma grande pressão psicológica nas pessoas. Mesmo no atendimento ao balcão embora os utentes sejam muito compreensivos, os tempos de atendimento são superiores, isto tudo cria uma pressão muito grande e é esta gestão emocional das equipas que acho que é importante. Quem está no leme tem de traçar o rumo mas também dar a motivação de que vamos chegar a bom porto. É isso que eu aqui nesta posição faço, a de transmitir às equipas confiança e motivá-las.

DL: Enquanto gestor o que foi o mais difícil para si?
O primeiro mês foi muito difícil porque tivemos uma situação de abastecimento mais difícil. Em março houve um pico de consumo muito significativo. As pessoas correram à farmácia para aviar quase
todas as receitas que tinham, para pedir muitos medicamentos e foi uma pressão muito grande. Tínhamos de tentar educar algumas pessoas para o uso racional e consciente do medicamento, não se justificava levar tão elevado número de embalagens de um determinado medicamento. Por outro lado também tínhamos doentes crónicos e idosos que compreendíamos que viessem buscar uma medicação para três meses, por exemplo, para evitar que saíssem de casa. Mas isto altera completamente o perfil normal de gestão. Os nossos stocks não estavam adaptados para esta realidade e isso levou à rutura de alguns medicamentos. Lembro-me particularmente de começarmos a limitar o número de unidades de medicamentos como o paracetamol, algo que nunca aconteceu. Fazer esta gestão do medicamento nesta altura foi muito complicado, desgastante e assustador. Felizmente que se ultrapassou este período e agora está perfeitamente controlado, não existe qualquer tipo de receio de ruturas a esse nível.

DL: Acha que o atual modo de funcionamento das farmácias vai-se manter nos próximos meses?
Optámos por ter as equipas divididas em duas que não se cruzam para que, se um dos turnos ficar contaminado, não contaminar o outro. Se as coisas melhorarem vamos também ter medidas diferentes na área de atendimento, muito provavelmente começaremos a aumentar a área para o público. Em função da evolução da situação iremos adotar as medidas apropriadas. Há ainda uma situação que é relativamente recente e acho que é interessante abordar. A farmácia tem dispensado alguns medicamentos hospitalares. Aproveitando a proximidade da farmácia, o hospital fala com um utente, o utente determina qual a farmácia a que habitualmente vai, o hospital sinaliza a farmácia, envia os medicamentos e nós contatamos o utente para levantar os medicamentos.

DL: Deveria ser uma medida a manter?
Acho que sim, deve ser ponderado. Já existem alguns medicamentos hospitalares que são dispensados pelas farmácias, por algumas, mas acho que se deveria alargar. Naturalmente salvaguardas todas as questões de segurança, da dispensa e formação, tenho aqui dois casos já, um deles do Centro Hospitalar de Lisboa.

DL: Para muitos, o farmacêutico é aquele que, em termos de saúde, é o que está mais próximo. Com o distanciamento físico que existe mantém-se esta proximidade?
Perde-se um pouco esta proximidade, o calor humano que existia. Estou-me a lembrar de dois ou três utentes que vêm cá muitas vezes, são idosos, estão sozinhos em casa e normalmente ficam aqui sentados na farmácia e brincámos com eles. Nas circunstâncias atuais isto já não acontece. Eles podem vir, mas já não é assim. Espero que seja só agora nesta fase e que depois retomemos um bocadinho mais desta humanidade e proximidade do espaço da farmácia que nestes tempos se perde um bocado.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de junho de 2020)

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