(Tenho saudades dos meus alunos…)

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Foto: DR

O dia acorda igual a si mesmo e, ao mesmo tempo, tão diferente de todos os outros… Grata por estar bem, pelo menos por enquanto, e por saber que as pessoas que amo também estão, preparo-me para iniciar a minha jornada.
À medida que os minutos passam, sinto na pele as diferenças que, hoje, o mundo nos atirou à cara, como se de uma bofetada se tratasse…. e estas diferenças começam nas coisas mais simples: estou a trabalhar… em casa. E sou grata, que fique bem claro, por poder, tanto quanto possível, guardar-me desse inimigo invisível que apareceu nas nossas vidas, consciente de que há tantas pessoas que não têm essa sorte e que há sempre alguém da nossa família que não pode ficar em casa, tendo de sair para trabalhar…
Olho para o relógio e dou por mim a sorrir, com uma angústia no peito: penso na turma com a qual estaria, a esta hora, num dia “normal”… e volto a sorrir. Num dia “normal”, já teria brincado com os meus alunos, já os teria visto rir, já teria reclamado com a Josefina, porque nunca está calada, já teria elogiado o trabalho da Maria, chamado a atenção do Joaquim para estar sossegado, reclamado com a Felismina, que nega fazer aquilo que todos a viram fazer, já teria sorrido, com orgulho, para o João, pela resposta dada… já teria sentido, dentro de mim, a emoção que é ver os outros chegarem a um caminho do qual fizemos parte, no qual demos a mão… hoje, tudo mudou nas nossas vidas, vivemos o ensino à distância (que ficará, quem sabe, para outro texto, porque há tanto neste que, quem está de fora, não faz ideia do que tem sido) e andamos a correr como loucos, dentro das nossas casas, numa tentativa de ajudar e apoiar todos…
Mas o que me assalta… é que tenho saudades dos meus alunos. E ao dizer isso, ao pensar e sentir isso… sinto um aperto no peito. E arrepia-me a perceção de que nós assumimos grande parte das coisas na nossa vida como garantidas: há uns meses atrás, ninguém imaginava que estaríamos como estamos, confinados às nossas casas, em caminhadas que não duram mais que minutos, porque não há mais nada que percorrer, entre as paredes dos nossos lares, limitados a determinadas ações, sem podermos sair para trabalhar, ir às compras, tomar um café… para ir dar uma volta, espairecer, ver gente, sentir gente… falar com alguém… há uns meses atrás, ninguém imaginava que teríamos de evitar estar com os nossos pais e com tantas pessoas de quem gostamos (e que também são essenciais para o nosso bem-estar psicológico), para evitar que adoeçam, simplesmente porque mão sabemos sequer se está tudo bem connosco e se assim vai continuar. Tenho saudades dos meus pais, da minha família, dos que estão longe, apesar de perto, e dos que estão longe efetivamente… tenho saudades de os sentir ao pé de mim! De poder estar à frente deles, de os abraçar! Agora, estamos agarrados às novas tecnologias para trabalhar, reunir… e tanto mais… nunca o mundo esteve tão conectado… e nunca o mundo teve tanto medo de se desconectar… nunca as pessoas estiveram tão isoladas e precisaram tanto umas das outras para as coisas mais simples e que ninguém colocava em causa.
Aconteceu tudo tão de repente! Num segundo, eram os outros… de repente, sem mais nem menos, já éramos nós… De um momento para o outro, as imagens, que pareciam saídas de um filme de terror, e que nos faziam ficar parados em frente à televisão, de coração apertado, bateram-nos à porta… e o medo, a incerteza, a confusão… não mais nos largaram… como é que tudo muda, assim, de repente? Na verdade, a situação que vivemos, neste momento, é angustiante, mas também extremamente reveladora. Para o bem e para o mal! Revelam-se receios, vontades, humores, vídeos cheios de graça, seguidos de outros educativos, ou, ainda, de outros perigosos, enganadores, porque toda a gente fala de tudo sem saber nada de nada (mas eu nem quero entrar por aqui, porque grande parte dos comentários que surgem em tantos sítios não merecem sequer atenção)… há mensagens de esperança, abraços que se dão ao longe, homenagens aos que estão na linha da frente e que, curiosamente, nunca foram tidos em conta nem ouvidos. Agora, são heróis… estranho mundo esse, não é? Há reclamações para com os professores, que, afinal, tentam manter os seus alunos em ação… e que sempre deram a cara e muito da sua vida pelos filhos dos outros, apesar de todas as críticas que lhes são feitas… há, ainda, partilhas de mil plataformas, de receitas de teletrabalho e de culinária, sugestões de atividades, de séries e filmes a ver… Há tempo para pensar. No que fazíamos, no que éramos, no que somos, no que podemos fazer. Há a possibilidade de, perante o enclausuramento e a angústia que nos assola, procuramos aprender com o que se passa e nos tornarmos melhores pessoas, ou, pelo contrário, revelar o que de pior há em nós…
Os números devoram-nos, todos os dias, constantemente, nas televisões, a anunciar o crescimento dos nossos piores medos. E acordar, a cada novo dia, revela-se uma vitória… por isso, que direito temos nós de reclamar e de nos lamuriarmos quando o sol brilha lá fora?
A vida tem-me ensinado que todas as situações, por pior que sejam, podem servir sempre para que aprendamos algo com elas. E que, por pior que estejamos, há sempre alguém que sofre mais. Neste momento, estamos bem. Aproveitemos, então, para nos vermos uns aos outros, em vez de nos limitarmos a olhar… tentemos ser mais… e mais humanos!
Da minha casa, consigo ver e ouvir o mar. Sou uma felizarda, eu sei! Ver e ouvir o mar sempre me sossegou e relembra-me que somos todos tão pequeninos nessa imensidão que é o mundo e a vida. Nunca isso fez tanto sentido como agora…
E já vos disse, não foi? Tenho saudades…

(Texto escrito entre 15 de março e 15 de abril)

Malvina Sousa, Professora e escritora

(Crónica publicada na edição digital de maio de 2020)

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