De portas fechadas, a Igreja abre-se online

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O padre Nuno Maiato reza o terço online todos os dias e celebra a missa ao domingo, tudo a partir de casa. No Facebook criou o grupo “Igreja nos Açores ON LINE” que leva o culto aos fiéis em tempo de pandemia

Padre Nuno Maiato conta com a ajuda do pai nas missas que celebra a partir de casa
(Foto: Página de Facebook)

No pequeno altar, revestido a branco está o essencial: uma pequena candeia, o missal litúrgico, uma cruz de madeira, Nuno Maiato e o pai. Ninguém diria que se trata de um altar montado em casa. É através dele que chega aos lagoenses e ao mundo, todos os domingos, às 11h30. “O meu pai passou a ser leitor de um dia para o outro, ele é que faz as leituras e preparamos o espaço para cada celebração, é também eles, os meus pais, que me acompanham na oração do terço e tem sido assim”, conta Nuno Maiato. Ao Diário da Lagoa, o pároco da Matriz de Lagoa explicou como passou para a internet: “nós estávamos aqui em casa dos meus pais a fazer uma corrente de oração com algumas pessoas amigas e eu lembrei-me de colocar em direto no Facebook e então, a partir daí, começou a oração do terço”.

“É dos momentos em que eu tenho me sentido mais padre”
Todos os dias, às 18h30, faz um vídeo em direto e reza o terço com quem decide juntar-se a ele. Por cada emissão, tem centenas de visualizações, que em alguns casos ultrapassam o milhar, sendo muitos os que se juntam às orações online, a partir da sua página pessoal. Os que consegue juntar online são muitos mais do aqueles que se deslocavam à igreja para ouvir as suas missas.
Nuno Maiato conta que “no outro dia uma senhora dizia que espera pela hora do terço como aguarda pela hora do jantar portanto é de facto um alimento que nós estamos a receber “. Em quase 13 anos de sacerdócio, diz, a experiência tem-no levado a novas descobertas: “nunca tivemos tão próximos apesar de estarmos repartidos pelas nossas casas e tem sido muito gratificante. Atrevo-me a dizer até que é dos momentos em que eu tenho me sentido mais padre ou verdadeiramente padre durante todos estes anos de ordenação sacerdotal”.
O feedback que recebe chega via online, através de mensagens ou comentários e “obrigado” tem sido o que mais se repete. E são muitas as situações em que sente que, de alguma forma, consegue tocar as pessoas. “Recebo testemunhos muito bonitos de pais que estão a aproveitar este momento para ensinar aos seus filhos a rezar e depois agradecem porque os meninos já sabem rezar a avé-maria ou o pai nosso”, conta, dando outro exemplo “no outro dia alguém dizia-me que estava num grande estado de ansiedade, a tocar o pânico mesmo e aquele momento do terço todos os dias foi-lhe libertando desta ansiedade e deste estado de pânico”.

Há fiéis a acompanhar a missa pelo telefone
E, aquilo que transmite todos os dias via Facebook, consegue chegar até quem nem tem internet. “Sei de pessoas que estão sozinhas mas que têm alguém que está a acompanhar o terço. Essa pessoa que está online coloca o telefone fixo ao lado do portátil ou do telemóvel e a pessoa vai acompanhando, ou seja, ouve na sua casa e faz chegar a casa de outra através do telefone fixo porque é a forma que aquela pessoa tem de
receber aquele momento de oração, é muito bonito”, diz. Nuno Maiato, tal como milhares de outros párocos nunca imaginaram ver as suas igrejas fechadas nem o Papa Francisco, sozinho, na Praça de São Pedro em Roma. “Vi a imagem dele com uma lágrima e com um sorriso. A lágrima é a lágrima de toda a humanidade, um homem ali como alguém dizia, com o peso do mundo às costas, e com um sorriso porque o mesmo homem deixa-nos uma palavra de esperança e mostra-nos que, mesmo estando isolados, como ele estava naquela praça, onde habitualmente está uma multidão, nós estamos unidos.
Essa união, feita a partir da casa de cada um, em plena pandemia Covid-19, levou mais igrejas a abrir portas às paróquias, aos concelhos e ao arquipélago através da internet.
Foi o padre Nuno Maiato quem impulsionou o grupo “Igreja nos Açores ON LINE”. Criado no Facebook, conta com mais de 2700 membros e é através dele que vários párocos de várias igrejas do arquipélago fazem chegar as suas mensagens aos fiéis. “Partilha-se muita coisa, de uma forma espontânea. 
Quando sabemos que alguém está em direto partilhamos lá, vamos partilhando não tudo, mas muito daquilo que se tem feito nas várias ilhas”, explica Nuno Maiato. Apesar de ser o único padre da ouvidoria de Lagoa a celebrar online [até ao fecho desta edição], lembra que “todos os padres da Lagoa, como outros que eu tenho contactado, todos estão em oração pelas suas comunidades, assim como eu faço diariamente”, mesmo não estando online.

“Toda a gente se apercebeu que a partir de casa pode fazer muitas coisas”
Sobre o futuro da Igreja, no pós-pandemia, o pároco da Matriz de Lagoa diz que não é pessimista mas também não acredita que as igrejas se encham porque as pessoas estiveram privadas das eucaristias a que sempre estiveram habituadas. “Já houve situações idênticas, mais ou menos, uma por século e o mundo não mudou assim tanto. Eu acredito que tudo isto vai ter um efeito prático e concreto na vida das pessoas mas facilmente vamo-nos esquecer disto. Nós reconhecemos que erramos, sim senhor, temos vontade de não errar mais e não pecar mais mas daqui a dias estamos a fazer mais ou menos as mesmas coisas e é isto que vai acontecer. Não é muito simpático e não é pedagógico estar a afirmar isso agora mas eu creio que é isto que vai acontecer”, sublinha.
Ainda assim Nuno Maiato lembra que “não podemos ignorar aquilo que vivemos, não só o sofrimento e a ansiedade que vivemos mas também não podemos ignorar aquilo que de valor se criou em família durante esses dias”. Ainda assim, o pároco garante que tem “muita esperança de que, no caso concreto do que está a acontecer online, venha de facto, abrir muitas possibilidades para a Igreja e para a sociedade. Toda a gente se apercebeu que a partir de casa pode fazer muitas coisas”, finaliza.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição digital de maio de 2020)

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