A Natureza segue o seu ritmo

Overview

Foto: DL

Estamos a viver tempos que parecem ser de ficção e que dificilmente estariam nos horizontes de qualquer pessoa. De um momento para o outro passamos da globalização para o fecho de fronteiras, para a limitação e cancelamento de viagens. Também de um momento para o outro, as cidades esvaziaram-se das multidões de transeuntes curiosos e sedentos de registar a sua presença em mais uma selfie. Nesse mesmo instante, acabaram-se os espetáculos e todos os eventos que promoviam a reunião de grandes multidões, pararam as escolas, o comércio e outros setores.
Todos caminhávamos e vivíamos num ritmo que agora realmente abrandou e obrigou a aprender a viver em casa, a estar naquele que é, ou deveria ser, o espaço nuclear da sociedade, seja para as aprendizagens, seja para a vivência social, seja para o crescimento – o espaço da família! É curioso que talvez nos tenhamos apercebido agora que temos vizinhos, que mora mais gente no nosso prédio, na nossa rua…!
Daqui por uns anos, as páginas da história estarão preenchidas com mil e uma histórias sobre o que está a acontecer, umas mais tristes, outras de esperança, outras de solidariedade, haverá também muitas curiosidades e, em princípio, serão muitas as lições a tirar. Mas, neste tempo tão estranho e delicado, podemos dirigir um pouco da nossa atenção para outros palcos.
Enquanto esta guerra silenciosa vai evoluindo, talvez fosse bom reparar como a natureza vai seguindo o seu curso, tranquilamente! Certamente que as lagoas estão admiradas de não estarem a ser objeto da atenção de tantos olhares, de tantas objetivas. Elas continuam verdes e esplendorosas e os pássaros já não cantam só pela manhã! Os trilhos, esses, já se devem perguntar por onde andam todos os que a cada dia os percorriam. As ervas, as plantas e as flores que os envolvem vão agora crescendo sem receio das mãos ou das pisadas menos cuidadosas! E as fumarolas… essas continuam a libertar os vapores misteriosos das profundezas de uma ilha, das ilhas, que também acalmaram! Talvez todas estas maravilhas se interroguem sobre o que estará a acontecer para que as estejam a deixar descansar, recuperando dos exageros desta sociedade que agora teve que parar. Ninguém terá uma resposta para lhes dar, mas certamente que quando for possível regressar ao seu convívio sem preocupações vamos dizer-lhes: Obrigado por terem esperado por nós! Vamos também pedir desculpa por todas as vezes que não as respeitamos.
Um destes dias uma amiga dizia-me que “no meio de tanta estranheza, a beleza da natureza continua a prendar-nos com o seu esplendor e normalidade”, e isto acontece no natural despertar da vida que a Primavera consegue a cada ano.
Este ano a Primavera chegou sem festas de boas vindas, mas chegou novamente cheia de força, beleza e esperança!

Alexandre Oliveira, Professor

(Artigo de opinião publicado na edição digital de abril de 2020)

Categorias: Opinião