Um Coração que saiba escutar

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Foto: DL

Para o povo cristão, o mês de março é dedicado a São José, o carpinteiro de Nazaré, guardião de Jesus Cristo e de sua mãe. A Igreja olha com ternura para José, pois, para além de ter abraçado uma missão tão nobre, toda a sua vida é um exemplo a seguir. Eu diria que São José é o Pai dos Pais.
Gostaria de destacar uma das suas virtudes: a sua capacidade de escutar. Embora a Bíblia não nos fale muito de São José, o que nos diz é suficiente para percebermos que na sua vida, mais do que as palavras, imperam o silêncio e os gestos. Cumpre-se nele o primeiro mandamento.
No livro do Deuteronómio, a mais antiga versão da proclamação dos mandamentos na Bíblia começa por nos dizer: Escuta Israel! (Dt 5,6). Portanto, o primeiro mandamento não é ver, nem sentir, nem falar, mas sim escutar. Escutar implica sair do “eu” para dar lugar ao “tu” e isto só poderá acontecer no silêncio e no reconhecimento do outro. Até mesmo para me escutar terei de “fazer silêncio” pois só assim acolherei o que me é transmitido no santuário da minha consciência. Isto implica colocar de parte racionalizações, critérios e preconceitos. O verdadeiro silêncio abre-nos à escuta atenta do outro. Infelizmente, a virtude que destaquei em São José é um dos parentes pobres dos nossos dias. Fala-se demasiado, mas escuta-se muito pouco.
A Bíblia diz-nos que o rei Salomão quando subiu ao trono, muito jovem e inexperiente, pediu a Deus um coração sábio, ou seja, um coração capaz de escutar e de discernir o bem do mal. Foi este “coração” que São José acolheu. Que todos nós, pais e filhos, padres e governantes, o imitemos no silêncio e na escuta.

Padre João Ponte

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de março de 2020)

Categorias: Opinião