Google local numa aldeia global

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Foto: DR

O ano era de 2016 quando recebi uma chamada de um grande amigo que vivia e trabalhava no Vietname. Perguntava-me o que achava sobre a possibilidade de regressar a Portugal para começar um novo projeto de Rádio digital em Ourique, lá bem no interior do Alentejo – uma comunidade que muito me faz lembrar a Lagoa. Disse-lhe, sem pensar muito, mas com muita sinceridade, o que achava. E o primeiro exemplo que lhe dei para mostrar o quanto essa ideia me agradava foi o Diário da Lagoa (DL). Ainda hoje não mudei de opinião. Vivo, estudei e trabalho em Lisboa há sete anos. Desde criança que me lembro de ver notícias com atenção, sobretudo as regionais e nacionais: começava com o Pedro Moura no “Bom dia Açores” logo de manhã, antes de ir para escola; o telejornal ao jantar e a RTP Açores logo a seguir. Meu pai não deixava que se mudasse essa rotina (na altura não me agradava, mas hoje agradeço-lhe por isso). Mais tarde surgiu o interesse pelo internacional. E depois o local, no qual entra o DL. Na década de 60 McLuhan desenvolveu o conceito de “aldeia global”, que genericamente remetia para a ideia de se produzir e consumir notícias (informação, imagem, conteúdos) numa audiência global e interconectada, realidade que se materializou e expandiu com a Internet. No entanto, se mesmo ao longe continuava atento ao que nos Açores se passava, mais difícil era seguir com atenção o que acontecia na minha freguesia e arredores, mesmo com a internet na algibeira. Saramago dizia que «é preciso sair da ilha para ver a ilha». De facto, quem sai não só vê melhor a ilha como sente uma vontade incomensurável, alavancada pela infinita saudade, de querer saber mais sobre os Açores, sobre São Miguel, a Lagoa e (no meu caso) Santa Cruz. O DL tem sido, por isso, ao longo destes anos, o meu (nosso) Google local, comunicando a realidade da Lagoa e dos Açores para o mundo, concretizando na perfeição o que McLuhan idealizou. Tem sido o nosso embaixador virtual junto de estudantes em Portugal continental e das nossas comunidades pelo Canadá ou EUA. Porque no meio da confusão que é a vida nas grandes capitais e ao mesmo tempo que se entra no metro em Lisboa, sabe bem saber se o Operário ganhou ou perdeu, sabe bem saber que se vai fazendo umas malassadas na Ribeira Chã ou se vai comendo umas sopas do Espírito Santo em Água de Pau.

Rodrigo Oliveira, Assessor na Assembleia da República

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de março de 2020)

Categorias: Opinião