“As pessoas têm muito mais importância do que aquilo que julgam”

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Foto: DL

A subcomissária Jéssica Gomes faz um balanço positivo dos últimos 8 meses como Comandante da Esquadra de Lagoa. Em entrevista ao Diário da Lagoa, fala dos desafios e da importância da população no trabalho da PSP

A subcomissária Jéssica Gomes assumiu os comandos da Esquadra da PSP de Lagoa em julho do ano passado. Tem 25 anos e é natural de Faro, no Algarve. É Mestre em Ciências Policiais e de Segurança Interna. Está nos Açores há um ano e meio e a Lagoa é o segundo concelho onde exerce funções.

DL: Como têm sido estes últimos 8 meses como Comandante da PSP de Lagoa?
Têm sido para já diferentes daquilo que estava habituada. Vim da esquadra da Povoação, é um meio muito mais pequeno, não tem tanto contacto com a grande cidade como Ponta Delgada e Lagoa, cidades bastantes extensas e com alguma densidade populacional o que, claro, traz mais desafios.

DL: Quais têm sido as principais dificuldades?
Essencialmente gerir os meios que são escassos e isso é transversal a toda a Polícia, com uma área de responsabilidade tão grande.

DL: Há falta de meios na Lagoa?
Sim e no país inteiro em geral. Mas aqui há que realçar a competência da Polícia e, em particular da PSP da Lagoa, que são elementos com muita experiência e competentes. Os elementos que estão aqui há menos tempo, estão há 6 anos, são pessoas com muita experiência, são uma mais valia, são conhecedores de toda a população, sabem quem abordar, quem comete ilícitos e isso facilita muito. Por muita falta de recursos que possa haver o serviço não fica por fazer e é feito com grande qualidade.

DL: Que tipo de criminalidade está a aumentar?
O número de crimes em si não aumentou, o que aumentaram foram os crimes com alguma visibilidade social. Por exemplo, num mês pode haver 10 furtos em propriedade com arrombamento e com os danos a serem avultados. Isso nunca terá o mesmo impacto que tem um roubo na via pública. Se um senhor é assaltado na rua através do método por esticão, obviamente que causa outro tipo de alarme e é isso que tem sucedido. Houve furtos em estabelecimentos, outro crime que tem impacto porque acaba por se saber e a palavra passa a palavra. Ou seja, a gravidade de um furto em propriedade privada é tão grave como num estabelecimento, mas em habitação, na maior parte das vezes, acaba por não se saber.

DL: Os principais problemas de criminalidade no concelho são os furtos de pequena dimensão?
Sim, são os furtos especialmente em estabelecimento e de resto até nem tem acontecido outro tipo de criminalidade notória. Mas talvez os danos em propriedade fruto dos toxicodependentes que tentam, por exemplo, usufruir de um espaço para consumir produtos de estupefacientes, acabam por danificar portas e material que possam ter por lá. Podem não levar nada, mas o crime de dano também é crime.

DL: A Esquadra de Lagoa tem algum plano estratégico de combate à criminalidade?
O nosso plano estratégico passa pelas fiscalizações de trânsito. Elas dão muita visibilidade e uma sensação de omnipresença por parte da polícia e a verdade é que, por exemplo, este ano (desde primeiro dia do ano) já fiscalizamos mais de 200 viaturas e isso tem resultado no levantamento de autos de contra-ordenação e acaba por dissuadir também a criminalidade.

DL: As pessoas sentem falta de ver polícias na rua. É possível colocar mais meios no terreno?
A colocação de efetivos na rua implicaria um reforço. O normal aqui, na realidade dos Açores, são os grupos estarem com três elementos, um dentro da esquadra porque a esquadra só pode fechar em caso de necessidade e dois na rua com o carro de patrulha. E dessa forma tentamos responder às ocorrências. Um reforço implicaria um aumento para o dobro o que é muito complicado. A polícia tem aberto cursos para 300 agentes, mas a maior parte desse bolo vai para o Comando Metropolitano de Lisboa. E certamente que para os Açores não poderá vir tanta gente, porque se for comparar o número de polícias face à população que existe nos Açores, se calhar aqui até há mais polícias, tendo em conta a população obviamente.

DL: Qual é o número de efetivos da esquadra de Lagoa?
Neste momento somos 23, sendo que eu exerço um cargo mais administrativo assim como o chefe Paulo Moniz e um elemento da secretaria que também é administrativo. E três que pertencem exclusivamente à brigada de investigação criminal. Os restantes elementos são quem assegura a patrulha.

DL: Que balanço faz?
É um balanço muito positivo, não só profissionalmente como pessoalmente. Acho importante a vida pessoal e profissional interligarem-se e com os meus elementos aprendo muito, coisas que não servem só para a vida profissional. Também tenho que agradecer pelo empenho deles e não podia pedir mais. Por exemplo, estas situações de criminalidade mais violenta que tem acontecido, o que é certo é que fizemos a detenção de todos os indivíduos que estiveram envolvidos. E é gratificante também para mim ver o empenho e resultados e eles querem sempre fazer mais e melhor porque têm orgulho na farda que envergam.

DL: Qual é a prioridade da PSP para a Lagoa?
Nunca passa pela repressão do crime mas pela prevenção. É o nosso foco incidir em fiscalizações rodoviárias que nós sabemos que não agradam à população e há muito aquela ideia de que “andam atrás das pessoas que trabalham e depois os que andam a fazer roubos escapam sempre”, não é bem assim. Porque posso dar um exemplo que aconteceu: numa fiscalização rodoviária, uma agente fez uma detenção por tráfico de estupefaciente de um indivíduo que estava no seu carro a circular e trazia muito produto estupefaciente. Estas fiscalizações não servem só para multar e a verdade é que quem não deve não teme. E a nossa prevenção passa muito por aí porque legalmente não temos a possibilidade de desconfiar de alguém e ir fazer buscas domiciliárias, nós temos que atuar no âmbito daquilo que podemos, nomeadamente as fiscalizações rodoviárias que são muito úteis porque acabam por dissuadir.
A população também pode ajudar muito a polícia. Não basta ligar para a esquadra e dizer “ah aqui no sítio X costuma haver droga, ou seja o que for”, as pessoas podem vir à esquadra apresentar uma denúncia e a partir daí recolhemos a informação. Ninguém precisa fazer investigações, para isso estamos cá nós, mas se nós tivermos acesso às informações, que muitas vezes só a população é que tem acesso, para nós é mais fácil. E mesmo que esteja a acontecer alguma coisa naquele momento, liguem para a esquadra da polícia e peçam para irmos. Nós certamente vamos responder à ocorrência. As pessoas têm muito mais importância do que aquilo que julgam e são os nossos melhores informadores.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de março de 2020)

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