“O judo é uma luta de sensações”

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Só no ano passado, o Judolag conquistou mais de duas dezenas de medalhas. O Diário da Lagoa quis saber quem está por detrás do clube lagoense e como funciona um desporto com 119 atletas federados

A prática na sala de treino, junto ao mar, no Rosário, Lagoa, começa sempre com uma saudação em japonês dirigida ao fundador do judo e ao professor que dirige a prática.
Descalços, os judocas começam o aquecimento conduzido por Bruno França, militar, professor e praticante de judo há 28 anos. Com entusiasmo, explica-nos que dedica 6 horas do seu dia, todos os dias, ao desporto que o entusiasma. É ele quem trata da logística, da parte técnica das práticas, da parte financeira e de todas as questões que um clube com mais de uma centena de atletas federados, implica. Olha constantemente para o relógio, durante o treino, para cumprir tudo o que tinha planeado. “Tenho um plano diário para cada treino e olho várias vezes para o relógio para controlar o plano que fiz”, explica o treinador. Cada combate dura em média 4 minutos. Mas para os atletas chegarem até eles, há um longo caminho a percorrer.

“Quem não sente nada, está morto”
Cada atleta do clube Judolag tem um treino personalizado. “Treinam 5 vezes por semana no clube, treinam em casa e têm todos um plano de alimentação”, explica Bruno França. Nos treinos, as quedas e as torcidas no tapete são constantes, dando a ideia, a quem desconhece a modalidade, que os atletas estão constantemente a “levar porrada”. O treinador esclarece: “não é bem assim mas acaba por ser assim, porque um atleta de judo sente orgulho das mazelas que tem. Quando não tem nenhuma significa que não está a sentir nada e quem não sente nada, está morto”.
Claudia Calado tem 17 anos e há 7 que é judoca. “As pessoas têm aquela ideia de que o judo é um desporto muito agressivo mas não é assim tanto. Não interessa quantas vezes caímos mas como caímos”, explica a jovem que perdeu a conta ao número de medalhas que já conquistou com as cores do Judolag. Garante que nunca se deu ao trabalho de as contar mas ultrapassa já as duas dezenas. A jovem, que este ano quer chegar ao pódio nacional, diz que o mais desafiante é mesmo “treinar 5 a 6 vezes por semana e saber conciliar muito bem os estudos com o desporto”.
O desempenho escolar é uma preocupação do clube. “A seguir a cada período escolar pedimos as notas da escola da parte comportamental dos alunos mais novos. Um atleta de judo nao sobe de cinto se na escola se comportar mal”, garante o treinador. E ser resiliente é peça chave na modalidade.

“Um desajeitado consegue ser campeão nacional”
“A paixão do Judo é mesmo essa, no judo há lugar para os mais habilidosos, para os mais fortes, os menos ágeis, para os gordinhos, para os magrinhos. Um desajeitado consegue ser campeão nacional se for resiliente, se treinar muito para chegar lá”, garante Bruno França que dá o exemplo de Henrique Sousa.
O jovem de 13 anos nunca tinha ganho um combate em dois anos de prática, até chegar ao continente e conseguir a tão desejada medalha. “Fiquei muito contente. Tenho-me esforçado mais no treino, tenho ido mais aos treinos e o facto de termos mais treinos no continente faz com que nos sintamos mais confiantes”, sublinha o judoca. A opinião do atleta confirma aquilo que o treinador já tinha partilhado com o Diário da Lagoa. “A condição do ilhéu também tem um bocadinho a situação que é: ´eles lá fora são muito fortes´. Não, não são mais fortes nem mais intensos que nós, o psicológico é que lhes dizia que os outros eram mais fortes”, lembra Bruno França. Por isso é que o clube tem feito vários esforços de angariação de fundos para que os atletas possam ir treinar e competir com os atletas do continente.

“Temos miúdos que mordiam os outros quando se sentiam frustrados”
A antecipação do movimento do adversário parece ser essencial para vingar na modalidade.
O judo é uma luta de sensações, é ação-reação, eu provoco uma ação para ele reagir para depois voltar a atacar”, explica Bruno França que enfatiza um dos princípios do judo, o de hoje ser melhor do que ontem. E o treinador garante que tem vários casos de sucesso: “temos miúdos que mordiam os outros quando se sentiam frustrados e agora eles têm noção, conseguem-se controlar, evoluíram e na escola já não se portam mal com os professores nem com os colegas”.
Atualmente o Judolag, que existe há 7 anos, conta com 119 atletas federados, dos 3 aos 52 anos. Em 2019, o clube conquistou mais de 20 medalhas em campeonatos regionais e nacionais, sem contar com todas as provas não oficiais em que participaram.
O clube, que depende do esforço de pais, atletas e treinadores, pretende continuar a somar vitórias e chegar ainda mais longe.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de fevereiro de 2020)

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