“Somos uma família unida”

Mais de 90% dos elementos da Estrela D´Alva tem menos de 30 anos. Com 133 anos acabados de fazer, a Filarmónica aposta na formação de jovens músicos

Foto: CML

Quem passa no número 20 da Rua Dr. Filomeno da Câmara, em Santa Cruz, Lagoa, não tem dúvidas de que a música mora aqui. Todas as terças e quintas, os sons que atravessam as janelas denunciam o repertório da próxima atuação.
Aos poucos vão chegando alunos e músicos, uns a pé, outros de táxi ou ainda outros que chegam porque uma boleia os trouxe. O Presidente da Filarmónica Estrela D´Alva, Ricardo Tavares, é um dos que utiliza o seu carro pessoal para transportar os músicos: “não termos transporte próprio, da banda, faz-nos muita falta”, sublinha. Ricardo é administrativo e apesar de ter começado há apenas 5 anos na música, garante que o gosto sempre esteve lá. “Primeiro começou o meu filho a tocar e depois eu vim atrás dele. Conforme o ia ouvindo, comecei a adquirir o gosto e comecei a aprender a tocar outra vez aos trinta e poucos anos, não há idade para aprender música”, garante o Presidente, agora com 38 anos.

Estrela D´Alva com um dos maestros mais jovens dos Açores
90% dos músicos da filarmónica de Santa Cruz tem menos de 30 anos , incluindo o maestro. Aos 26 anos, Luís Paulo Moniz é quem lidera a direção musical da Estrela D´Alva. É um dos maestros mais jovens dos Açores, se não mesmo, o mais novo à frente de uma filarmónica. Em todos os seus dias, há música. Depois de sair do trabalho como assistente técnico na Direção de Serviços do Património, a agenda está sempre preenchida. À segunda dá aulas na Ribeira Grande, à terça tem o ensaio da Estrela D´Alva, à quarta leciona acordeão e saxofone na Academia Musical de Lagoa, à quinta novo ensaio da Estrela D´Alva e da Escola de Música da filarmónica, à sexta, novamente a Ribeira Grande e o ensaio no Grupo de Cantares Tradicionais de Santa Cruz. E, nem ao fim de semana, o jovem maestro descansa. Ao sábado volta a dar aulas na academia lagoense e ao domingo, durante o verão, os serviços da Estrela D´Alva não lhe dão descanso. “Componho marchas, faço arranjos de música, este Natal fiz oito arranjos para banda e coro”, explica, sempre com um sorriso e o entusiasmo de quem gosta do que faz. “Não é fácil um rapaz de 26 anos estar à frente de uma banda, é um orgulho. Apesar de ser ainda jovem sinto que as pessoas têm um grande respeito por mim”, explica o maestro. E os alunos da Escola de Música da Estrela D´Alva confirmam: “ele nos ensaios sempre ri e brinca, não é aquele mal encarado ou mal disposto”, conta Nicole Pereira, de 11 anos.
A jovem, natural do Livramento, está nos últimos ensaios para a grande estreia na Filarmónica. Diz-se ansiosa com o aproximar do grande dia: “sinto-me feliz e orgulhosa de mim mesma. Para mim o mais difícil são algumas das posições”. Quando lhe perguntámos o que gostava na banda, ela não hesitou: “ninguém julga ninguém, todos se ajudam”.
Para David Tavares, de 14 anos, há 3 na filarmónica, “o mais difícil foi aprender a ler as pautas, saber a escala… mas é um orgulho estar na banda porque a gente mostra-se às outras pessoas”, garante. Para o músico de 14 anos ter um maestro jovem à frente da filarmónica “é uma forma da banda continuar jovem”.

“Há cada vez menos jovens a querer aprender a tocar um instrumento”
A Escola de Música da Estrela D´Alva é a casa de 15 jovens músicos que estão a receber formação dada por 3 professores, incluindo o maestro para mais tarde integrarem a própria filarmónica. O Presidente lamenta: “há cada vez menos jovens a querer aprender a tocar um instrumento”, mas isso só reforça a necessidade de apostar na juventude. “Estamos a tentar algo inédito que é a criação de uma escola de música no Livramento para a formação e integração de novos músicos na Estrela D´Alva”, explica Ricardo Tavares. As aulas são gratuitas e os instrumentos são facultados pela banda.
Apesar da filarmónica santa-cruzense ter uma elevada taxa de jovens, também o maestro reconhece que é preciso manter os atuais e atrair novos. “Tento incentivar tocando algo com que eles se possam identificar para que possam gostar daquilo que estão a tocar”, destaca. Prova disso são obras que recentemente passou a incluir no repertório da instituição como o “Harry Potter e o Cálice do Fogo” ou a banda sonora do filme “Gladiador”.
Atualmente a Estrela D´Alva tem 35 elementos com idades entre os 7 e os 50 anos. A banda, que acaba de completar 133 anos de vida, por ocasião da festa em honra da padroeira da filarmónica, Nossa Senhora da Estrela, quer preservar o passado. Tenciona por isso informatizar o arquivo que tem na sede, onde estão centenas de originais que incluem rapsódias, marchas ou hinos. Algumas das peças estão escritas à mão por elementos da banda que já faleceram. “Tudo está a evoluir e nós também temos de evoluir”, conclui o maestro.

Sara Sousa Oliveira

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