“«Agora só se fala da Lagoa, tu pára de escrever»”

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Jornalista foi diretor do Diário da Lagoa entre 2014 e 2019

77 anos depois do última publicação periódica impressa na Lagoa, Norberto Luís fez nascer um novo jornal na cidade

O jornalista, que prefere sempre a sombra, e nem queria dar esta entrevista, não consegue não trabalhar. Admite que a sua paixão é a rádio e garante que “escrever não é com ele”. É movido pela novidade e sobretudo pelo desafio. Memoriza datas, fotograficamente, e de forma auto-didata criou, alimentou e fez crescer o Diário da Lagoa, que deixa quase 6 anos depois de o ter registado na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), coincidência ou não, no dia em que há 43 anos tinha nascido, em casa, no lugar da Areia-Larga, vila da Madalena do Pico.

Acreditas em coincidências?
Acredito em algumas e este ano é que dei por uma, no caso a data de registo do jornal que, não tendo sido propositado, até porque a ERC é que decide quando autoriza ou não. O jornal tem a sua data oficial no meu dia de nascimento, 21 de fevereiro. É uma coincidência interessante.

Ficas no Pico até quando?
Até ao dia 29 de dezembro de 1997. Fiz a minha escolarização, até ao secundário no Pico. Deixei de estudar para ir trabalhar para a rádio, lá está, sempre gostei de rádio, sempre ouvi rádio, tenho ainda cassetes gravadas dessa altura, no Pico em 1996/1995. Na rádio comecei com 15 anos, fazia animação. Fazia um programa ao fim-de-semana, de discos pedidos. Comecei com o “Fecho eclair da semana”. Até quem deu o nome do programa foram os colegas da turma, estávamos no 9º ano. Não havia telemóveis, internet e eu levava os discos pedidos da escola, todos num papel, recebia cartas com os discos pedidos do Faial, Pico e São Jorge. Deixei a escola para me dedicar exclusivamente à rádio. Fiquei 3 ou 4 anos na rádio no Pico e depois fui até São Jorge para a rádio Lumena. Depois de quase 10 anos em São Jorge, sempre a trabalhar na rádio, em 2007 acabei por vir para São Miguel. Lembro-me bem do dia 15 de setembro desse ano.

Como chegaste à Lagoa?
Por questões familiares da parte da minha esposa. A avó e a mãe são da Lagoa e embora a mãe esteja a viver em São Jorge há muitos anos, acabámos por vir viver para aqui.
Quanto ao jornal… eu trabalhava na rádio. Na rádio procuramos as notícias dos concelhos e sentia que se sabia pouco da Lagoa. E eu, como já estava a morar cá, achava que havia essa necessidade mas o jornal nem sequer nasce dessa necessidade.

Então?
Embora tenha saído de São Jorge, continuava a colaborar com a Rádio Lumena e estava a fazer um novo site. Nessa sequência, de ao mesmo tempo sentir a necessidade de haver um jornal e estar a fazer o site para a rádio, lembrei-me porque é que não faço algo que junte a informação da Lagoa? E então criei primeiramente um blogue. Mas depois pensei: se estou a fazer um site para a rádio porque é que não faço um para este diário da Lagoa, que já na altura criei com esse nome. E porquê? Onde é que registamos as memórias? Num diário. Então a ideia é registar as memórias da Lagoa, não é ter um jornal diário, essa foi a minha ideia e então comecei a ver o que tinha de fazer e avancei.

Não sabias como se fazia um jornal.
Não. Já tinha feito uns artigos para um jornal regional quando estava em São Jorge, enquanto correspondente, mas não era algo que me cativasse. Para ser sincero, nunca gostei muito de escrever, essa é a verdade, mas quem diria que iria ter um jornal? Nem eu imaginava isso.

Não gostas de escrever?
Não é coisa que me cative (risos). Gosto mais da rádio do que propriamente do jornal. A rádio, a música, isso sim cativa-me.

Como conseguiste escrever durante quase 6 anos?
Eu gosto de desafios, embora não pareça, mas gosto. Comecei do zero, em tudo. Não sabia paginar, não sabia o que escrever, como criar o jornal, andei na internet à procura, fui vendo jornais, fui vendo paginações. A deste jornal foi toda feita por mim, foi toda criada de raiz. Comecei primeiro a fazer o jornal mensal em versão digital. Sete meses depois veio o papel porque havia quem dizia que a Lagoa tinha muitas pessoas que ainda gostavam de ler um jornal em papel, até tendo em conta a população envelhecida. Eu até na altura dizia: “vocês estão mas é malucos, eu fazer isto já é de gente doida, agora fazer um jornal em papel?”. A verdade é que isso mexeu comigo, lá está mais um desafio. Não há nada que não se consiga e avancei.
Depois de ter começado o jornal em fins de fevereiro, na versão digital, em outubro nasce a versão em papel depois de vários desafios lançados.

Tu é que fazias tudo no jornal?
Sim, só não imprimia o jornal. Eu é que fazia as reportagens, escrevia os textos, tirava fotografias, enfim, tratava de toda a logística. Ia buscar o jornal ao transitário e é que fazia a sua distribuição pelo concelho. Além de algumas colaborações externas, em termos de artigos de opinião, devo dizer que nos ultimos três anos também tive a ajuda na redação de alguns artigos. Foram colaborações que vieram dar mais qualidade ao que apresentamos aos nossos leitores mensalmente.

O contacto com os leitores é muito próximo.
Sim. No início foi complicado porque infelizmente num meio como a Lagoa, as pessoas habituaram-se que a Câmara faça tudo, mas quando se quer consegue-se fazer.
Ainda hoje há quem diga que o jornal é da Câmara, mas não faz mal. Quando ia entregar o jornal havia quem dizia “lá vem o jornal da Câmara” e eu retifico. A verdade é que já se houve muitas mais pessoas agora a dizerem: “lá vem o nosso jornal”. Dá muito prazer ouvir isso. É um contato direto que me ajudava a fazer o jornal mês a mês, sempre a tentar melhorar, sabendo a opinião das pessoas.

A Lagoa ficou mais rica por ter um jornal?
Há pessoas que dizem isso. Eu também não vou ser parvo ao ponto de dizer que não, que o jornal não interessou nada, claro que o jornal interessou, não vou estar aqui com modéstias. O jornal é importante e veio dar voz à Lagoa.
Cheguei a ouvir de algumas pessoas, com influência e responsabilidades na política regional, dizerem “agora só se fala da Lagoa, tu pára de escrever”. Cheguei a ouvir e ainda ouço muita vez isso da parte de algumas pessoas que, ao contrário do que eu pensava, estão atentas ao que se vai fazendo na Lagoa. A verdade é que o jornal veio espevitar, veio dar voz, por exemplo, às escolas que, mensalmente, têm um espaço para divulgar as suas atividades.

Que mensagem deixas a quem te lê?
Acarinhem o jornal, porque se a Lagoa ficar sem o jornal, não acredito que haja pessoas que tenham a coragem de fazer um projeto igual. Muitos disseram até “ah e tal já pensei”. O que é certo é que em 77 anos nunca ninguém o fez. Como costumo dizer, não dá muito trabalho, dá algum e as pessoas hoje em dia não querem ter trabalho, preferem tudo de forma fácil. O jornal não fala do partido A ou do partido B, fala de pessoas, de instituições. Nestes quase seis anos de trabalho, fizemos artigos sobre a maioria das associações desportivas, culturais, musicais, pessoas que deram muito à Lagoa, estão no jornal. Algumas ficaram atrás, é verdade, não conseguimos chegar a todos, mas mais oportunidades virão certamente.
Daqui a 10, 20, 40 ou mais anos, alguém que queira saber alguma coisa da Lagoa, se vier ao jornal, vai encontrar, vai servir para estudar, vai servir para fazer o seu trabalho. Todas as freguesias do concelho estão no jornal.

O que esperas para o futuro do Diário da Lagoa?
Gostava que continuasse na mesma senda, a registar a história da Lagoa e que continuasse a ser um diário da Lagoa, que é o que um diário é, um registo de memórias.

SSO

(Entrevista publicada na edição impressa de janeiro de 2020)

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