Isabel Sachola de Água de Pau – Homenagem à mulher rural

Por vezes vem-me ao pensamento pessoas da minha terra que já não se encontram entre nós mas que a memória não consegue apagá-las porque a sua vida ou algo que fizeram, nos marcou, a nós ou a muita gente desta Vila de Água de Pau.

Estava eu mesmo a sintonizar o rádio no meu carro, e a locutora destaca de imediato a efeméride do Dia Internacional das Mulheres Rurais – 15 de Outubro. Penso logo a seguir comigo: – “Que pena a tia Isabel Sachola do Foral Novo, já não estar viva, senão hoje era o seu dia”!.

Isabel Craveiro, muito mais conhecida por todos como Isabel Sachola foi uma grande Mulher Rural. Talvez tenha mesmo sido das grandes mulheres rurais que Água de Pau conheceu. Contava ela que desde criança que ajudava os pais no amanho das terras e depois ao marido e mais tarde os filhos, genros e netos na mesma faina, sempre de “sachola” na mão quando era preciso. A sua vida não foi toda de sachola na mão mas o seu exemplo passou. E nas vezes que a usou no campo, poucos eram os que a acompanhavam no desempenho e muitas vezes os que começavam de manhã ao seu lado, depois do almoço já não vinham trabalhar com vergonha pelo vexame de serem por ela ultrapassados nos regos vencidos e nas cavas feitas por ela à sua frente.

Nunca percebi porque lhe chamavam de “sachola”, porque se ela tinha a fama de trabalhar muito e bem melhor do que muitos homens, então teria de trabalhar com um “sacho” e não com uma “sachola” que é uma ferramenta mais pequena. Sendo mais pequena a “sachola” do que o “sacho”, como diabo conseguia ela ultrapassar então um homem que trabalhava com uma ferramenta maior?

De duas uma; – ou o homem era mesmo um aselha ou a tia Isabel Sachola “sachava” ou “cavava” terra com um “sacho” mesmo o que lhe aumenta mais ainda a fama de grande Mulher Rural.

Recordo-me de um dia o tio José Moniz Nogueira, agricultor conhecedor, um dos genros de “Maria Sachola”, na altura responsável e olheiro das terras d’A Cova da Onça, pedir a meu pai que o dispensasse, naquele dia porque tinha numa das suas terras homens a trabalhar e também lá estaria a sua sogra a Tia Isabel Sachola. Quando ele regressou eu perguntei-lhe por curiosidade por que cargas d’água ele tinha a sogra a trabalhar na sua terra? Então ele respondeu-me que pelo facto de a terra também ser dela, sentia a obrigação de lá estar ao lado dos homens e de os fazer render o mesmo que ela. Na altura eu pensei que ele estivesse a brincar, mas mais tarde, e já com mais idade, assumi a realidade daquilo que o tio Zé Moniz Nogueira me tinha dito. Aliás eu gostava muito dele e nunca duvidei daquilo que ele sempre cordialmente me dizia e contava sobre a sogra e sobre o poder da terra e dos homens que nela acreditavam e ele era um desses homens, pois viveu sempre da terra até emigrar e falecer em New Bedford, na América, já velhinho.

EM ÁGUA DE PAU QUANDO É DIA DA MULHER RURAL – É DIA DE ISABEL SACHOLA

“A capacitação das mulheres rurais é crucial. O mundo tem reconhecido cada vez mais o papel fundamental desempenhado pelas mulheres na construção da paz, justiça e democracia.

Ao negar os direitos e oportunidades às mulheres, negamos aos seus filhos e às sociedades um futuro melhor”.

História que se conta em Água de Pau

Naquele ano a terra da Tia Isabel Sachola dava gosto olhar para aquele «serrado» de terra coberta de rama bem verdinha com batata doce. O seu genro José Moniz Nogueira que a tinha semeado e trabalhado com os seus filhos e sogra “Sachola” orgulhava-se do seu esforço e por isso agradecia a Deus pela fartura que a terra lhes dera este ano. Quem também gostou disso foram os amigos do alheio.

Então, no dia seguinte a se ter tirado uma parte da batata-doce da terra, encontrava-se o senhor José Moniz Nogueira a tomar o seu habitual galão-de-café na saudosa Casa-de-Pasto de Guilherme de Arruda na Praça de Água de Pau, quando chegou ofegante e  triste um dos seus filhos para lhe transmitir que a batata que tinham tirado da terra no dia anterior e deixado na terra, coberta de rama, desaparecera. Tinham levado os 12 cestos !

Nas calmas, o Tio José Nogueira, continuou a beber o seu café e lá foi acalmando o filho dizendo-lhe:

– “Deus quando dá riqueza não se importa que a gente a divida com os outros. A terra tem muita mais batata e há-de dar para a gente também.”

Ora ao lado, ouvindo esse desabafo estava uma pessoa que habitualmente não ia todas as manhãs tomar café ali e neste dia até estava a fazer conversa com o tio Nogueira. Este foi para casa e comentou com a sogra, Tia Maria Sachola a ocorrência e esta ainda antes que o genro dissesse o que ia fazer adiantou-se e recomendou-lhe que nessa noite fosse para a terra, para ver se o ladrão aparecia para vir apanhar o resto da batata, isso antevendo que, o amigo do alheio, não era outra pessoa senão o indivíduo que estava a beber o café ao lado genro, no Guilherme de Arruda na Praça. Até porque ele tinha um camião que facilmente teria chegado à terra e carregado sozinho a batata toda, por via da sua boa constituição física e força, bem conhecida na nossa vila.

Assim foi. Durante a noite, o amigo do alheio ou o «gabirú» como se diz na nossa vila, repetiu a façanha e propôs-se a carregar a batata, ou sejam, mais 12 cestos. Depois de carregar a batata no camião, cobriu-a de rama para as pessoas pensarem que ele estava a transportar apenas a rama para dar de alimento a bezerros, pois assim ninguém desconfiaria. Quando o «gabirú» entra no camião, o tio José Moniz saltou para a porta-de-trás aberta, segura por duas correntes laterais para assim poder levar a carga toda no chão do camião. Escondido na rama, deixou – o chegar a casa para descarregar a batata. Quando se abriu uma garagem nos baixos da casa eram visíveis os outros cestos de batata roubados no dia anterior.

José Moniz Nogueira salta para o chão abeira-se do larápio e diz-lhe: — “Carrega a batata que tens na tua garagem aqui no camião e vamos já levá-la toda ao “Mercado”.

O outro nem piou, apesar de ser homem para o arrear em dois tempos. Porém lembrou-se que com certeza ele já devia ter informado a família que ia fazer isso e nem pensou duas vezes e pediu ajuda ao Tio Nogueira para o ajudar, coisa que esse não fez, reclamando-lhe que se tivera força para a carregar na terra teria ali também para voltar a carrega-la em cima da outra que já se encontrava no camião.

No antigo Mercado, toda a batata foi descarregada pelo larápio que depois desandou de cabeça baixa sob o olhar risonho do tio José Moniz Nogueira e da Tia Maria Sachola que também ali havia chegado … para contar os cestos com a batata que ela também tinha dado um contributo – a semear e a sachar !

Por: RoberTo MedeirOs
(Artigo publicado na edição impressa de novembro de 2019)

Categorias: Opinião, Voz do Passado

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