Maria dos Anjos Amaral: a conhecida “Marquinhas de Amaral”, da Vila de Água de Pau, que tinha um dom

Maria dos Anjos Amaral, mais conhecida por “Marquinhas de Amaral”, dentro e fora de Água de Pau – uma vez que “Maria dos Anjos”, popularmente falando, remete para o nome “Marquinhas” – nasceu mesmo na Vila de Água de Pau, em 1890, falecendo, na sua casa, onde sempre viveu, na antiga Rua da Espiga, hoje Rua Padre João Botelho Mota, em 1972.

Filha de uma mãe natural de Santa Maria, o pai fazia muitas viagens, sabe-se. Sendo natural de São Miguel, trouxe a futura mulher para a mesma ilha, onde viveram até ao fim dos seus dias. Como irmãos teve José, António, Manuel, Luís e a Belmira, todos naturais de Água de Pau, constatando-se que uns emigraram para os Estados Unidos da América, menos o Luís, que “ficou por aqui”, mais a Maria dos Anjos, tendo a Belmira casado, inclusive, na Ribeira das Tainhas.

Casou Maria dos Anjos Amaral com Serafim de Sousa Baganha, natural de Água de Pau, igualmente, que faleceu dois anos após a sua esposa, em 1974, portanto. Com ele esteve casado muitos anos, sendo que o mesmo tinha “uma indústria de cordas, fazia as suas cordas”, mas era também camponês.

A conhecida “Marquinha de Amaral” também teve filhos e filhas: cinco no total, tendo falecido dois: os sobreviventes chamam-se Manuel de Amaral, José Luís Baganha e a Maria dos Anjos.

Grande benemérita pauense, a verdade é que conhecia muito bem o corpo humano: os ossos, principalmente. Não havendo grandes cuidados de saúde, naquele tempo recorria-se muito a cuidados ditos menos profissionalizados, sendo que Maria dos Anjos Amaral prestava o serviço de consertar ossos partidos – braços, pernas partidas – a pessoas, auxiliando-as também em casos em que havia feridas abertas, ou até mesmo torcicolos no pescoço. Conhecia muito bem os ossos do corpo, usando as mãos para aplicar o tratamento que achasse o mais adequado para cada paciente, e sobre o que sabia, apenas dizia que de ninguém havia aprendido, pois “já nascera com ela”. Dizia frequentemente que havia nascido com aquele dom.

“Era um dom”, afirmava, convictamente, Maria dos Anjos Amaral, para espanto da comunidade, que ainda hoje se espanta perante as histórias, aqui e ali, muitas vezes de pessoas que passaram pelas suas mãos e que a ela muito têm a agradecer os seus serviços sem pedir nada em troca.

Os serviços envolviam, assim, apenas o tratamento em causa não havendo qualquer reembolso: a conhecida “Marquinhas de Amaral”, da antiga Rua da Espiga, não cobrava a ninguém o que fazia, nem a ricos nem a pobres, tratando todos por igual. Inclusive, chegou a ser recomendada pelo conhecido Dr. Simas, da Vila Franca do Campo, que frequentemente mandava os seus pacientes irem ter com a “Marquinhas”, a Água de Pau, pois “ela é que sabe fazer isso”, mesmo não tendo ela formação específica académica, sendo imensamente respeitada por aquilo que fazia, portanto.

Não deixando nenhum caso por resolver, e “ninguém defeituoso”, mais nenhuma pessoa teve esse dom na família, nem ninguém o herdou, sabe-se.

Como grandes amigas, na sua terra, Maria dos Anjos Amaral teve a Francelina de Torres, a tia Maria Agustina, da antiga Rua da Carreira, primas, a Isabelina, também, sendo que “era carros todos os dias à porta. As pessoas gostavam muito dela”, tratando Maria dos Anjos Amaral pessoas de toda a ilha, ricos e pobres, querendo, apenas, “fazer o bem”, prestar “um gesto de bondade”, também agarrando-se à sua fé católica persistente e permanente – ia todos os domingos à Missa, apanhando-se muitas vezes a “Marquinhas” a ler, à luz solar, todos os domingos, o Antigo e o Novo Testamentos, já que sabia ler e escrever bastante bem, embora a pouquíssima formação que possuía.

Veio e inseriu-se, assim, numa família profundamente religiosa e devota na fé cristã: tanto que tinha dois sobrinhos padres, naturais de Água de Pau: Gil Soares da Costa e José Gregório Amaral.

“O que ela tinha, dava”, refere Cecília Vieira, ao jornal Diário da Lagoa, com quem estivemos à conversa, sendo a mesma nora da grande benemérita, cuidando dela durante duas décadas, e conhecendo-a, desta forma, profundamente.

DL/JTO
(Artigo publicado na edição impressa de novembro de 2019)

Categorias: Lagoa, Local

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