O sem cerimónia

Num verão harmonioso, límpido e prometedor de um tempo sem reprimendas, um bardo de hortênsias aconchegava-se a um Sol alegre e bem-disposto, já há muito desperto, que de sorriso feliz e aberto acariciava as pétalas, ofertando-lhes um brilho tão belo e lindo quanto a vivência do próprio dia, surpreendida, apenas, de quando em vez, por ligeiro e curioso vento que, de passagem, olhava os canários da terra, por ali esvoaçando sem receios ou preocupação.

De pronto, brincalhão e sem cerimónia, o vento invade uma das casas da rua. Galga a janela, fazendo abanar fortemente as cortinas.

– Quem é?   Pergunta uma voz feminina, entre curiosa e ocupada.

Na ausência de resposta, o filho mais novo, o único de momento em casa, é admoestado:

– Não mexas nas cortinas!

O rebento, solto nas suas brincadeiras, não entende… nem ouve a reprimenda.

A mãe-dona-de-casa prossegue os afazeres diários deitando uma olhadela, rápida, ao pequenito.

O vento ri. Fecha, agora suavemente, a porta e sai sem que ninguém dê conta…

Ruben Santos – 14-10-2005
(Artigo publicado na edição impressa de novembro de 2019)

Categorias: Cultura, Opinião, Poesia

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