Negrume

No ainda lusco-fusco, a adivinhar a próxima madrugada, avolumaram-se densas e bastas nuvens rasteiras, afogando aquele céu de um cinzento firme e pesado que os ilhéus açorianos acreditam portadoras de más novas.

O vento, furioso e descontrolado, metia medo, fustigando sem tréguas o mar e as ilhas.

À tona da água, o raio, hirto, fendeu o mar que logo se fechou sem um gemido, sem um clamor.

Bem mais tarde, o vozeirão do trovão assustou todos em redor e a noite cerrou-se tão escura, mas tão escura, que ninguém se lembra de um tal negrume.

Então, a chuva aconteceu, e foram horas e horas a fio, mar e céu caldeados na mesma água e na mesma escuridão de estremecer.

Por tardia madrugada, de medo não escondido, uma luz foi-se avizinhando, esgueirando-se pelo negrume que, pouco a pouco, foi cedendo.

O dia, a modos que envergonhado, quis tentear as irritadas e descontroladas forças da natureza enquanto o Sol descaldeava todo aquele negrume.

As ilhas entreolharam-se… a vida tomou o rumo.

                                                                Ruben Santos – 2011
(Artigo publicado na edição impressa de outubro de 2019)

Categorias: Cultura, Opinião

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